“White Privilege II”, nova música do Macklemore & Ryan Lewis, divide a internet

  23. janeiro 2016   POP   0

Já tem algum tempo desde que o duo Macklemore & Ryan Lewis lançou “Growing Up (Sloane’s Song)” e “Downtown”, que devem integrar o novo disco, “This Unruly Mess I’ve Made”, previsto para o dia 26 de fevereiro.

Ontem, 22, os dois lançaram um novo material: “White Privilege II”, que já havia sido anunciada numa entrevista para a revista Complex, em agosto do ano passado. Ela é uma continuação de uma música feita em 2005 pelo rapper, cuja letra atacava o tema da canção: o privilégio de pessoas brancas. “Quando eu a escrevi naquele ano, era uma versão diferente de mim”, admitiu Macklemore à publicação. “Eu era desconhecido. Estava fazendo uma observação: olhe o que aconteceu. Apontando – não de uma forma negativa -, mas fazendo uma observação cultural.”

“Dez anos depois, meu ponto de vantagem não é mais apontar dedos a ninguém, mas a mim mesmo. Eu apontava o dedo para mim, também, questionando as coisas. Mas é diferente quando apropriação cultural e privilégio branco em referência ao hip-hop, e você é o exemplo”, disse o cantor.

“White Privilege II” possui quase 9 minutos de duração e começa com Macklemore cantando sobre sua participação num protesto do movimento Black Lives Matter em Seattle, realizado em 2014. “”Encostei no estacionamento/Fechei meu casaco, me juntei aos que protestavam/Na minha cabeça, eu pensava: ‘isso é esquisito ou eu deveria mesmo estar aqui marchando?’.”

Em determinada parte da música, o rapper assume o papel de quem o acusa de se apropriar de um gênero musical criado por negros, trazendo também nomes de outros artistas que já se apropriaram do mesmo: Miley Cyrus, Iggy Azalea e Elvis Presley. “Vocês exploraram e roubaram a música, o momento/A mágica, a paixão, a moda/Vocês brincam com uma cultura que nunca precisou de vocês para melhorar.”

Em outro trecho, ele lembra dos comentários feitos a ele, sobre ser um “rapper passável”, enquanto rappers negros não. “Você é o único cantor de hip-hop que eu deixo meus filhos escutarem/Porque você entende, toda aquela negatividade não é legal.”

Basicamente, “White Privilege II” discute suas inseguranças em fazer parte de um movimento que pede respeito às vidas dos negros. A música chega num momento em que os Estados Unidos discutem a violência policial contra a população negra e a falta de indicados negros ao Oscar deste ano. Ao mesmo tempo, ainda na canção, Macklemore reconhece que se beneficia de um sistema que privilegia pessoas brancas.

Após a música ser divulgada, a internet ficou dividida. Alguns a veem como um discurso que já vem sido feito por negros há tempos, mas que só agora ganha a atenção porque um rapper branco resolver cantar sobre isso. A cantora Azealia Banks deu sua opinião sobre o assunto:

Tweets: “Pessoal, por favor, podemos não aplaudir o Macklemore por dizer a mesma coisa que os artistas negros têm falado por anos? Quero dizer, obrigado pelo apoio, MAS… Apenas saibam que o Macklemore “admitir” o seu privilégio branco vai ocultar a VERDADEIRA conversa sobre negros e o entretenimento. Não quero e não preciso que o Macklemore fale por mim. Obrigada. Além disso: misoginia pura… Por que ir atrás daquela garota [Iggy Azalea] de novo? Se Macklemore quisesse MESMO fazer uma declaração, ele iria atrás do Eminem. Aposto que ele não vai.”

https://twitter.com/yreme_/status/690756458355396608

Tweet: “O racismo é triste porque convenceu pessoas brancas bem intencionadas de que nós precisamos delas para que cantem sobre como elas se sentem más pelo racismo.”

Do outro lado, houve quem elogiasse a posição de Macklemore de usar sua plataforma para levar uma discussão séria sobre racismo a outras pessoas brancas, muito confortáveis com seus privilégios.

Tweet: “Falando sério, eu respeito o que Macklemore está fazendo. Ele sabe quem é sua audiência e sabe que sua plataforma é grande o bastante para começar aquela conversa.”

Tweet: “Macklemore não é um herói, um salvador ou um profeta por discutir o privilégio branco. E ele nem está dizendo que é, nem você deveria.”

Tweet: “Essa é a beleza da música, faz as pessoas pensarem, muda vidas, abre mentes e causa debates. Então, essa música do Macklemore era necessária.”

“White Privilege II” foi disponibilizada gratuitamente para streaming e para download num hotsite, que traz a explicação de Macklemore sobre o processo criativo da música. “Essa canção é o resultado de um diálogo contínuo com músicos, ativistas e professores da nossa comunidade em Seattle e além. Seus trabalhos e ativismo foram essenciais no processo criativo.”

Ele ainda afirma que sua empresa e de Ryan Lewis (a Macklemore & Ryan Lewis LLC) se compromete a fazer investimentos de longo prazo de “tempo, recursos, dinheiro e capacidades criativas no apoio de organizações comandadas por negros e educação e discursos anti-racistas”. São quatro instituições, sendo uma delas a Black Lives Matter.

É verdade que artistas negros vêm cantando sobre suas dores e silenciamento numa sociedade racista, enquanto Macklemore fala sobre seu desconforto com o privilégio que brancos possuem. Também é verdade que o rapper possui um espaço grande para levar uma conversa que precisa continuar a ser feita a pessoas que “não ouvem música feita por negros.”

Jamila Woods

“White Privilege II” termina com versos de Jamila Woods, uma cantora negra de Chicago, que diz: “Seu silêncio é luxo; hip-hop não é.” “Eu participei dessa gravação porque eu acredito de verdade na missão por trás dela”, afirmou Jamila, que ficou desconfiada das intenções de Macklemore, a princípio.

“Um dos maiores desafios do processo criativo foi saber que a música estava sendo criada com uma audiência branca em mente. […] Acho que as pessoas brancas que querem tomar uma atitude positiva deveriam começar a fazer um mapeamento de recursos. Ao invés de ficarem congeladas de culpa e pensando no que ‘não podem fazer’ ou quão assustadoras suas ações pareçam, pensem em todas as habilidades que vocês têm e todas as comunidades e espaços que vocês têm acesso. Como vocês podem usar seus recursos para criar um impacto de verdade pela libertação negra?”

Independente do que você acha de Macklemore, “White Privilege II” já fez as pessoas conversarem sobre a música e sobre sua mensagem, o que pode levar a debates maiores e, com sorte, a algumas ações.

“O que aconteceria se uma criança branca chegasse em casa de sua escola toda branca, entrasse em seu bairro todo branco, sentasse à mesa com seus pais brancos e dissesse a eles: ‘eu ouvi uma música hoje e quero saber o que vocês acham’, e a colocasse para tocar?”, escreveu Hanif Willis-Abdurraqib sobre os possíveis efeitos que a canção poderia ter. Eu também gostaria de saber.

O que você acha?

“This Unruly Mess I’ve Made” será lançado no dia 26 de fevereiro. Confira o trailer promocional:


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