Viola Davis diz que cumpriu um propósito com sua vitória no Emmy Awards

  24. setembro 2015   Televisão   1

Viola Davis fez história no Emmy Awards 2015, ao se tornar a primeira atriz negra a receber o prêmio por sua atuação em uma série dramática. “A única coisa que separa mulheres negras de todos os outros é a oportunidade. Você não consegue ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”, desabafou em seu discurso. As palavras de Viola foram um lembrete sobre a exclusão de mulheres negras em Hollywood.

Na mesma noite, Uzo Aduba, de “Orange Is The New Black”, e Regina King, de “American Crime”, também foram premiadas, prova de que mulheres negras só precisam de oportunidades, como disse Davis, para que possam brilhar. A vitória das três atrizes também comprova a importância da diversidade na indústria do entretenimento.

Logo após a premiação, Viola Davis concedeu uma entrevista à imprensa, onde foi categórica. “Nós não sabemos como discutir raça”. De acordo com a revista Elle, a atriz acredita que é preciso começar essa conversa, para que mudanças possam acontecer. “Como eu disse, Harriet Tubman falou, ‘estou sempre tentando chegar àquela linha, mas não consigo’. As pessoas precisam entender que há uma linha e que há uma diferença quando se trata de atores não-brancos* nessa indústria. Não é uma acusação. Estou muito feliz com várias coisas que aconteceram na minha carreira. Sou abençoada. Mas foram 67 anos até que uma atriz negra ganhasse, então houve uma linha, com certeza. E ela precisa ser reconhecida, assim como o imperador estar nu”.

Para a revista Variery, cuja quarta edição deste mês traz a atriz em sua capa, Viola diz ter cumprido um propósito com sua vitória no Emmy Awards. “Não é só um prêmio. O que ele significa para jovens meninas – meninas negras, principalmente. Quando elas veem a manifestação física de um sonho, sinto que cumpri um propósito”.

Em tempos de Black Lives Matter, sua conquista vem em um momento em que raça volta a ser conversado nos Estados Unidos. “Eu me lembro de Meryl Streep me dizer uma vez, ‘sabe, Viola, essas jovens mulheres estão sempre nos escutando. Cada palavra que dizemos as atingem de uma maneira que você nem imagina’. E eu descobri que isso é verdade”, contou ao The New York Times.

Foi por seu papel na série “How To Get Away With Murder“, como a professora e advogada Annalise Keating, que Davis foi reconhecida no Emmy. Inicialmente, o papel não foi escrito para uma mulher negra. “Eu a fiz negra, porque eu sou negra. O que precisa acontecer na hora de escrever, a partir do momento em que você coloca a caneta no papel é deixar sua imaginação fluir”, contou. “Quando você faz artes cênicas e estuda Chekhov, Shakepeare, Arthur Miller e August Wilson, você pensa que o céu é o limite em termos de interpretação do ser humano. Somente quando você começa a trabalhar que as pessoas dizem que você só pode ser uma juíza. Que você não é bonita o suficiente para ser a protagonista. Que você só pode ser a médica, a autoritária. Você só pode ser o que nós definimos como negro. Eu não sei o que isso quer dizer”.

Trabalhando profissionalmente há 27 anos, Viola, que já viveu ganhando $120 dólares por semana, revela que abriu uma empresa de produções com seu marido, Julius Tennon, e o primeiro projeto é sobre a ativista Harriet Tubman, mulher negra, que lutou contra a escravidão nos Estados Unidos. “Minha história não termina aqui. […] Há muito trabalho a ser feito em tantas áreas nessa indústria com atores negros. Há tantas narrativas que precisam ser vistas pelas pessoas, tantas histórias que precisam ser vistas e sentidas, que eu sei que isso não acaba aqui”, afirmou ao EW.

Afinal, de contas, representatividade importa, na frente e atrás das câmeras, como aconteceu com o novo comercial da Apple, dirigido por Ava DuVernay, e estrelado pelas atrizes Kerry Washington, Taraji P. Henson e a cantora Mary J. Blige. Com mais mulheres atrás das câmeras, mais mulheres na frente delas.

Taraji, protagonista da série “Empire”, comentou sobre a importância da vitória de Viola Davis em entrevista à apresentadora Ellen DeGeneres. “Acho que o universo está feliz. Viola merecia o prêmio e, honestamente, eu teria me sentido estranha se ganhasse dela”. As duas eram indicadas na categoria de “Melhor Atriz em Série Dramática”. “Acho que o universo precisava ouvir aquela mensagem. Se eu tivesse ganhado, não seria aquela mensagem, mas acho que ele faz o que precisa, quando precisa. E acho que o mundo precisava ouvir o que ela tinha para dizer”.

E o mundo ouviu e aplaudiu. Mulheres negras estão constantemente quebrando barreiras e mudando a forma como pensamos a sociedade, tal como fez Nicki Minaj ao denunciar o racismo na indústria musical. “As mulheres que eu conheço não aceitam mais estatísticas. Elas não aceitam números como cimento para seus futuros”, afirmou Viola ao The New York Times, revelando ser muito próxima de outras artistas negras. “Não faz sentido competir. Só aumenta a pressão dessa indústria sobre você”.

“Eu aprendi muito sobre mim mesma e sobre o que significa ser atriz. Ao estar desempregada, ao ir ao teatro e ter apenas duas falas. Em algum lugar no meio disso, você começa a descobrir o tipo de ator que você é e o tipo de pessoa que é”, contou à Variety. Ela, que já experimentou o fracasso, admite que ele não pode definir quem você é. “A vida me fez uma pessoa mais forte. Eu entendo o fracasso e entendo que a vida não acaba nele. Isso me fortaleceu muito”.

*Viola Davis usa a expressão “people of color”, que se refere a pessoas que são de outras raças e etnias, como negros, latinos e asiáticos.

Foto de destaque: Mark Davis/Getty Images/AFP