Uma coisa ou outra sobre “Fiscal”, música do MC Queer

  24. maio 2016   POP   1

Ontem (23), após chegar de mais uma sessão de terapia, fiz o de costume e abri minhas redes sociais. E passando pelo Facebook e Twitter, ambas as redes falavam de apenas uma coisa: o clipe da música “Fiscal”, do MC Queer. Assisti ao vídeo somente hoje e… Bem, vale algumas palavras.

Primeiro, gostei muito do clipe, das pessoas que ele escolheu (Leona Vingativa, Lia Clark, Fefito, Gabe Simas, Nana Rude, MC Linn da Quebrada, Diva Depressão e o Davi Rebolativo) e da ideia de quebrar as lâmpadas fluorescentes, uma referência clara ao episódio de violência homofóbica que aconteceu na Avenida Paulista, em 2010, quando quatro jovens foram agredidos por um grupo de rapazes armados com esses objetos.

Agora, fora isso, achei alguns pontos bem problemáticos na letra da música. “Tem que ser muito macho para dar o próprio cu” é um dos versos da canção. Oh, boy… Por que ainda cultuamos esse ideal do ‘macho’, como se fosse algo grandioso a ser conquistado? Nós já sabemos o quão nociva é essa masculinidade para os próprios homens, então por que reforçá-la?

Além do mais, somos gays e vivemos em mundo que diz o tempo todo como somos ‘menos homens’ justamente por isso. Somos alvos de piadas, de xingamentos e agressões, somente porque não nos enquadramos no que se espera que um ‘macho’ faça. Portanto, não consigo entender o motivo para que a gente ache que é preciso ser ‘macho para dar o próprio cu’. Você não precisa ser macho para isso. Basta querer. E lubrificante também.

Há outros versos problemáticos como: “quebra lâmpada na cara pra não enfiar na bunda” e “liga o Grindr na igreja”. Aí perpetua-se a ideia de que todo homofóbico é um gay enrustido. Ou seja, nós somos responsáveis pela nossa própria violência. Preciso discordar aqui, pois eu já estou cansado de ouvir esse mesmo discurso. Não é de hoje que a homossexualidade é considerada algo ruim e errado: a todo instante ouvimos das igrejas, do Estado, dos nossos amigos e familiares a mesma coisa. A nossa cultura é homofóbica.

“Homofobia tem a ver com cultura, porque esta é que aponta que a homossexualidade é indesejável – e, assim sendo, existem tanto homofóbicos gays quanto homofóbicos héteros”, explica João Marinho, do Clipping LGBT. “No entanto, sendo os héteros a maioria da sociedade, são também a maioria dos homofóbicos… Ou vamos defender e acreditar que ‘por estarem bem-resolvidos com o fato de gostarem do sexo oposto’, só por isso, não têm preconceito algum e são todos anjinhos de candura?”

E há ainda o verso, “fala pra tua mina que tu gosta de fio-terra”, que soa como se fosse uma afirmação de que um homem é automaticamente gay por gostar dessa prática sexual. Quando vamos superar isso?

No mais, um homem branco, dentro de todos os padrões, cantando funk e sendo ‘símbolo da militância LGBT’, quando há tantos outros artistas da periferia fazendo o mesmo há anos soa um tanto ofensivo. Mas talvez eu não seja a melhor pessoa para entrar nessa questão.

É ótimo ver um artista LGBT fazendo sucesso. Hoje em dia temos a Banda Uó, Liniker, Rico Dalasam e outras estrelas da nossa música brilhando, e acho bacana a proposta do MC Queer de levar as discussões sobre sexualidade para seu trabalho. Mas também acho importante repensar alguns aspectos de suas letras.

E se elas refletem a forma como ele se enxerga, é preciso repensar-se também.