Tema de exposição em SP, François Truffaut ainda é importante para o cinema

A vida e a obra do cineasta francês François Truffaut, morto há exatos 30 anos, são tema de uma exposição em cartaz desde o mês passado no MIS-Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.

Mas quem foi François Truffaut? E qual sua importância para o cinema da sua época e hoje? Se você é entendedor ou amante de cinema, já deve ter pelo menos ouvido falar em Truffaut. Mesmo assim, o Prosa Livre preparou um guia rápido para tentar entender quem foi esse cineasta e por que vale a pena saber mais sobre ele.

Crítico de cinema

Francois Truffaut and Alfred Hitchcock
Truffaut entrevistando Alfred Hitchcock

Antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, “Os Incompreendidos“, em 1959, Truffaut trabalhou por muito tempo como crítico de cinema, na revista mais importante sobre o assunto na época, a Cahiers Du Cinéma. Foi lá onde ajudou a estabelecer na prática o conceito de autoria no cinema, influenciado por seu mentor, o crítico André Bazin. A geração de Truffaut foi a primeira a olhar para trás, e para sua própria época, e enaltecer os autores no cinema, cineastas cujos filmes tinham personalidade e caráter artístico e pessoal. O próprio Truffaut era apaixonado pelo estilo de diretores como Alfred Hitchcock e Nicholas Ray. E até hoje a questão da autoria no cinema é relevante, permitindo que muitos cineastas contemporâneos se vendam pelo seu estilo próprio (como, por exemplo, Woody Allen ou Pedro Almodóvar).

Nouvelle vague

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Os Incompreendidos (“Les 400 Coups”, 1959)

Um dos movimentos mais importantes para a História do Cinema, a nouvelle vague (ou “nova onda“, em francês) foi um dos marcos iniciais do cinema moderno, lá nos anos 1960. Ao lado de outros cineastas franceses, como Jean-Luc Godard, François Truffaut ajudou a fundar esse manifesto estético e conceitual, que pregava a quebra com a linguagem tradicional e com a artificialidade do cinema clássico. Foi responsável pelo roteiro de “Acossado“, filme de Godard que é o mais representativo da nouvelle vague, além de ter dirigido ele próprio uma série de outras produções importantes para o movimento. O legado da nova onda do cinema francês se refletiu em todas as gerações seguintes – inclusive no cinema comercial americano, influenciando cineastas como Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e Martin Scorsese.

Narrador autobiográfico

O personagem Antoine Doinel, alter ego de Truffaut
O personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), alter ego de Truffaut

Apaixonado por cinema desde cedo, o cineasta contava que fugia das aulas na escola para ir ao cinema escondido. Apesar da graça dessa história, a infância e a adolescência de Truffaut foram conturbadas e traumáticas em diversos níveis. “A adolescência só deixa boas lembranças para os adultos que têm memória ruim”, disse ele uma vez. Quem assiste a “Os Incompreendidos“, marco inicial da nouvelle vague, sabendo que se trata de uma obra autobiográfica, entende um pouco o que ele queria dizer. Essas experiências da sua juventude tornaram-se depois tema de diversos de seus filmes, em particular de uma série deles onde o protagonista, Antoine Doinel (interpretado pelo ator francês Jean-Pierre Léaud), é o alter ego do diretor.

Um cineasta apaixonado

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Jules e Jim (“Jules Et Jim”, 1962)

Conhecido como “o cineasta que amava as mulheres”, Truffaut dedicou maior parte da sua filmografia a tratar de assuntos referentes ao amor, à educação sentimental, às conquistas e decepções amorosas. O próprio Antoine Doinel, personagem que em diversas níveis pode ser visto como o próprio Truffaut, passa por todas essas conquistas e decepções nos filmes dos quais é protagonista. Outro bom exemplo de como Truffaut explora o universo das relações amorosas de forma delicada e dura ao mesmo tempo é “Jules e Jim“, outro grande filme da nouvelle vague francesa, e um dos mais importantes de sua carreira.

Do relato íntimo e autobiográfico sobre sua própria infância e juventude em “Os Incompreendidos” ao discurso sobre as relações amorosas em “Jules e Jim“. Da narrativa futurista de “Farenheit 451“, onde a sociedade é oprimida por uma ditadura que queima livros para impedir o acesso ao conhecimento, à metalinguagem de “A Noite Americana“, um filme sobre fazer um filme, onde o próprio Truffaut interpreta um diretor em crise no meio das filmagens. Talvez cada um dos filmes de Truffaut mereça ser visto. Os quatro listados acima já são um bom começo. A partir daí, já dá pra entender um pouco por que ele próprio é um dos grandes exemplos do conceito que ajudou a difundir, o do autor no cinema.

Um cineasta que, em suas próprias palavras, fazia filmes “para realizar meus sonhos de adolescente, para fazer bem a mim mesmo e, se possível, às outras pessoas também”.

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