Solange Couto interpretou 25 empregadas e isso diz muito sobre o representação dos negros na teledramaturgia

Solange Couto, a famosa “Dona Jura” da novela “O Clone” (2001), possui 34 anos de carreira e fez 37 personagens. E enquanto isso poderia ser motivo para comemoração, a atriz, na verdade, não está muito contente. É que 25 dos seus papéis foram empregadas ou escravas, o que é equivale a 68% de todas as mulheres interpretadas por ela.

“Eu não tinha percebido que só cinco de trinta e sete personagens eram pessoas médio ou bem posicionadas no mundo”, contou a artista.

O desabafo de Solange faz parte da campanha #SentiNaPele, idealizada pelo ator Ernesto Xavier, que reúne depoimentos de negros sobre racismo, e cuja iniciativa assemelha-se ao projeto fotográfico da estudante universitária, Lorena Monique, o “Ah, Branco, Dá Um Tempo”. Ambos possuem a mesma proposta: denunciar a discriminação racial por meio de relatos de pessoas negras.

“A gente percebia que as pessoas às vezes tinham receio de falar. Ficavam com as histórias dentro delas e isso não é bom. Quando alguém se abre e fala, a pessoa se sente incentivada, vê que tem gente que sofreu algo semelhante. Isso é muito importante pra quem é negro e pra quem não é. Não existe meio de comunicação mais democrático que a internet. Todos ali têm voz. E é importante falar e insistir no ponto pra mostrar que isso não é natural, que não pode ser natural”, explicou Ernesto à versão online do jornal Extra.

#Repost @fabricioboliveira with @repostapp ・・・ #Repost @ernestoxavier with @repostapp. ・・・ SOLANGE, 59 anos, atriz Ao longo da carreira, Solange Couto fez 37 personagens em TV e cinema. Desses, foram 25 empregadas domésticas e escravas, 2 donas de bar, 5 prostitutas ou dançarinas e apenas 5 personagens não faziam parte desses estereótipos. “É esquisito. Eu nunca tinha me dado conta, de verdade. Eu sempre amei tanto o meu trabalho, meus personagens, que eu não tinha me dado conta que tinham me dado trabalhos que era como se fossem pessoas inferiores, sempre. Os trabalhos foram bons. Eu tive oportunidade de fazer boas atuações, grandes momentos, muito boas cenas, em todos os sentidos, porém eu não tinha percebido que só cinco de trinta e sete personagens eram pessoas médio ou bem posicionadas no mundo. Só essas 5 teriam de verdade o seu lugar no mundo? Uma posição bem vista, que poderia comprar uma joia ou aquele vestido? É triste. O meu público, eu tenho certeza, não se deu conta disso assim como eu até aqui. Eu tenho certeza que esse público não se deu conta, com exatidão, desse posicionamento profissional em relação à sociedade, em relação à minha cor. Os meus diretores e as pessoas que sempre me convidaram para trabalhar vão dizer assim: – Sol, não foi isso. Nós estamos te magoando esses anos todos? São 36 anos. Nós te machucamos? Você está triste? Elas próprias não se dão conta. Tenho certeza que eu vou ouvir isso de alguns. Eu não estou triste pelo meu trabalho. Eu fiz magistralmente bem. Hoje em dia não tenho a menor razão para ser modesta. Eu sei que fiz bem e faço muito bem. O que me foi dado eu fiz bem. Brilhantemente a tal ponto de o público bater palmas mesmo”. Foto: Leonardo Cossatis Produção: Morena Mariah Entrevista: Ernesto Xavier Design: Suzane Nahas #racismonão #racismo #racism #negro #blackisbeautiful #black #blackpower #instaphoto #instapic #instagood #instamood #rj #igersrio #igersrj #rioeuamoeucuido #SentiNaPele

Uma foto publicada por Moema Vinhático (@moemavinhatico) em

Ao mesmo tempo, a manifestação da atriz Solange Couto elucida uma outra questão: a representação do negro nas novelas. É como se a mídia quisesse reforçar que há apenas um lugar para os negros na sociedade: o de servir. “O problema não era fazer empregados, mas é que esses personagens viviam a reboque. Essa era a questão, não tinham uma história própria, estavam a serviço de outros personagens”, resumiu a atriz Zezé Motta, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, em um texto publicado no Facebook.

Não somente são representados em funções subalternas e sem uma história própria, como também são minorias nas produções, ainda que a maioria a população brasileira seja negra (53%, de acordo com o IBGE). Pegue a novela “I Love Paraisópolis” como exemplo: o folhetim é baseado na maior favela de São Paulo, onde 70% da população se declara negra, porém, no elenco, apenas seis dos 52 atores são negros.

“Acho que esse é um problema instalado no Brasil e no mundo. Ainda tem um reflexo de 500 anos atrás de preconceito, e é algo que os movimentos vão lutando para que isso possa ser modificado. Infelizmente isso ainda rola”, comentou Juliana Gonçalves Rodrigues, vice-presidente da União dos Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, e negra, à reportagem do Portal Terra. “Nós não queremos mais ser representados só no papel de empregada doméstica, de faxineiro, zelador.”

Atores negros ocuparem papéis de pessoas bem-sucedidas não é ignorar o fato de que essa população ainda é a maioria nos sub-espaços das relações de trabalho, mas criar perspectivas de que é possível quebrar as barreiras que o racismo impõe.

Obviamente, houve um progresso na dramaturgia brasileira, mas ainda há muito o que fazer. Cabe aqui uma declaração da atriz americana Viola Davis, primeira mulher negra a ganhar um Emmy Awards, em setembro deste ano.

“As pessoas precisam entender que há uma linha e que há uma diferença quando se trata de atores negros nessa indústria. Não é uma acusação. Estou muito feliz com várias coisas que aconteceram na minha carreira. Sou abençoada. Mas foram 67 anos até que uma atriz negra ganhasse, então houve uma linha, com certeza. E ela precisa ser reconhecida.”

E é passada a hora de que o Brasil também reconheça e ultrapasse essa linha. A realidade não espera.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.