A saída de Lucas do “BBB 21” reflete a dor de muitos LGBTs negros desse Brasil

Assistir ao “BBB 21” tornou-se uma enorme prova de resistência emocional coletiva. É impossível entrar no Twitter ou em qualquer rede social e não encontrar comentários sobre a toxicidade de boa parte dos participantes da atual edição do reality show. No entanto, os eventos dessa madrugada (7) levaram o programa a mais um fundo do poço – um que reflete a dor e a exclusão sentidas por LGBTs negros desse país.

Desde a primeira semana, Lucas vinha sendo perseguido por praticamente toda a casa do “BBB” por erros que cometeu, e cujas consequências foram extrapoladas pelos colegas de confinamento. Perseguido e isolado pelo restante do grupo, o ator demonstrou arrependimento e pediu desculpas, uma postura que de nada adiantou, já que os comentários maldosos e humilhações continuaram. Nos últimos dias, porém, Lucas encontrou refúgio em Gil, Juliette e Sarah. Esta última, vale lembrar, foi a única que defendeu o brother das ofensas e comentários de Nego Di e Karol Conká, durante o jogo da discórdia.

Assim, nesse sábado (6), aconteceu mais uma festa e lá pelas tantas, Lucas e Gil começaram a se beijar. E beijaram muito. Foi um beijo de muito tesão e liberdade (o primeiro entre dois homens na história do programa), mas o que sucedeu esse momento foi um show de bifobia e perseguição a Lucas, mais uma vez. O ator admitiu ser bissexual em rede nacional, um ato de muita coragem em um país extremamente LGBTfóbico e racista, mas foi recebido pelos seus colegas com diversos ataques.

Lumena, lésbica e psicóloga, riu do rapaz quando disse ser bissexual, afirmando que o que ele estava fazendo não bastava de uma “performance” para ele “surfar” no apoio da comunidade LGBT. “Você não é especial”, disse a sister em um determinado momento. Ou seja, Lumena, que era quem deveria acolher e apoiá-lo, deslegitimou a sexualidade de Lucas e ofereceu a ele nada além da sua falta de empatia.

Ela, entretanto, não foi a única a não aceitar a sexualidade de Lucas: Pocah, Karol Conká, Rodolffo e Caio também fizeram comentários maldosos, insinuando que o colega estava tentando conquistar o público com um falso relacionamento com Gil. Primeiramente: foi apenas um beijo. Eles estavam somente curtindo um ao outro. Qual o mal nisso? E em segundo lugar: em um país como o Brasil, com índices altíssimos de assassinatos de LGBTs e negros, como um beijo entre dois homens negros beneficiaria qualquer um deles? Não faz nenhum sentido essa afirmação, pois ela está completamente desconectada da realidade.

E mais: muitos ficaram incomodados porque ninguém sabia que Lucas era bissexual, já que ele não havia dito nada a ninguém. Eis uma novidade: ele não precisava dizer nada a ninguém. Cada LGBT sabe da sua realidade e tem seu tempo para assumir sua identidade e seus desejos – e isso SE quiser fazê-lo. Não é da conta de ninguém como um LGBT decide como viver sua própria vida. Por vezes, o “armário” é a única saída para poder sobreviver.

Transformado em vilão, abandonado, perseguido por semanas e violentado psicologicamente tantas vezes, e especialmente com o que aconteceu depois de um beijo, Lucas não aguentou e pediu para sair do “BBB”. E conseguiu. Era preciso se preservar em vez de se submeter a mais dias, semanas ou meses de humilhações e tortura emocional. Foi um ato de coragem dele. Contudo, a saída dele reflete a mesma dor de muitos LGBTs, os quais veem no suicídio, a únicas saída para fugir da angústia que estão vivenciando. Lucas, felizmente, só saiu do programa. Aqui fora, para muitos, o “confessionário” é um ato no limite da dor emocional.

E o mais triste da saída do Lucas, é que pessoas como ele, que deveriam abraçá-lo, preferiram açoitá-lo. Foi isso o que fizeram Lumena, Karol Conká e Pocah, mulheres LGBTs e negras como ele, enquanto o brother esperava para sair de uma vez por todas do programa. Isso foi o que mais doeu em mim.

Agora, é torcer para que Lucas seja recebido aqui fora com o carinho que ele merece e possa recobrar sua saúde mental, longe da demonização que sofreu no “Big Brother Brasil”. Quanto a quem ficou, a cobrança do público virá em forma de voto. E virá mesmo.

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