Quantas Romagagas precisam gritar até que as escutemos?

  18. fevereiro 2016   Internet   0
Quantas Romagagas precisam gritar até que as escutemos?

Romagaga acabou. Através de um triste vídeo postado nas suas redes sociais, a celebridade da web chora e raspa os cabelos para dar a notícia. Vítima de transfobia, ela conta que vem recebendo ameaças de morte e desabafa sobre não ter sua identidade de gênero respeitada. “A gente que é travesti não tem valor nenhum para a sociedade. Não tem valor nenhum.”

Eu preciso confessar que não conheço muito sobre Romagaga. Sei apenas que, assim como Inês Brasil, é uma mulher de sucesso na internet, quase como uma entidade. Ambas têm histórias até que similares: por conta da internet, as duas ganharam popularidade e levaram suas piadas e jeito de ser para o mundo offline. Uma mulher negra e uma travesti ousaram sair da invisibilidade social esperada a elas e, obviamente, isso incomodou.

Mas objetivo aqui é falar sobre os ataques a Romagaga, ou Lavínia, como ela se identifica a partir de agora, segundo a descrição do vídeo postado no Youtube. Nos comentários de seu desabafo, há várias mensagens de apoio, pedidos de recomeço e, claro, as mais diversas ofensas. Nem mesmo o choro impediu que as pessoas ouvissem sua súplica para que lhe deixasse em paz. Mas quando nós ouvimos travestis e pessoas trans, não é mesmo?

Nós nunca ouvimos essas pessoas. Isso porque nós nunca a vemos, a menos que seja nas noites em ruas escuras ou em “programas de humor” que se aproveitam da vulnerabilidade de mulheres trans para desumanizá-las e tratá-las como menos humanas. Ou “homens vestidos de mulher”. Do contrário, não as vemos, não as ouvimos, apenas sabemos que existem em algum canto, mas longe dos nossos olhares.

E toda essa invisibilidade mata: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo uma  pesquisa da ONG Transgender Europe (TGEU). Não fosse esse um dado apavorante, a expectativa de vida dessa população é em torno de 35 anos e 90% das mulheres trans estão na prostituição. E essa última não é uma escolha: elas são empurradas para a prostituição, pois é a forma encontrada para sobreviverem.

Mas quanto a tudo isso, silêncio. As pessoas que riem de travestis e transexuais não estão a fim de ajudar a mudar essa terrível realidade. Fabrício Longo escreveu um baita texto n’Os Entendidos, onde comentou o episódio de Romagaga, lembrando que o respeito ” é uma obrigação”, “porque ele é direito universal. Ele não pode ser condicionado a um tipo de comportamento, a valores morais e culturais específicos.”

Nossa sociedade legitima todas as agressões a pessoas trans a todo instante: seja nas piadas, seja na forma como elas são retratadas na mídia, seja na fala de religiosos e pessoas comuns que se sentem protegidas pelo véu da “opinião”. Essa cultura de ódio precisa ser refeita, não podemos mais tratar a população de travestis e transgêneros como “indesejáveis”, termo utilizado pelo Fabrício Longo em seu texto para designar todas as pessoas que não seguem as normas sociais: gays afeminados, lésbicas masculinas, gordos, negros, mulheres e pessoas trans. A diversidade humana deveria ser celebrada e não violentada, apagada e, por fim, morta.

O tratamento desumano que Romagaga recebeu veio de um grupo de ódio, que precisa ser punido (denuncie através da Safernet ou pela Sala de Atendimento ao Cidadão). De acordo com MC Trans, amiga dela, a irmã da celebridade da web está com ela procurando por justiça.

Se ela vai voltar ou não, não se sabe. O que sabemos é que esse ciclo de violência e exclusão em que pessoas trans estão inseridas precisa acabar. Quantas mais precisam gritar por socorro para que possamos ouvi-las? Nós podemos fazer melhor. E já é passada a hora.


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