“Não ter a intenção de ofender” não é desculpa e não anula o sofrimento de quem foi atingido

Na noite de ontem (5), durante o Jogo da Discórdia do “BBB 21”, João verbalizou seu sofrimento após um comentário racista de Rodolffo realizado no último sábado (3).

Para quem perdeu: o cantor sertanejo e Caio receberam o Castigo do Monstro de Gil e Fiuk, que consistia em fantasiarem-se de homens das cavernas. Enquanto Caio se vestia para o desafio, Rodolffo, acompanhado de Juliette e João, comparou a peruca com o cabelo do professor, que possui um black power. Na ocasião, João não conseguiu se manifestar, mas elaborou seu sofrimento durante a dinâmica de segunda-feira:

“Lá dentro, no quarto, me calei, fiquei calado, mas você não sabe o quanto aquilo que você falou me machucou. Machucou muito. E não adianta você vir com o discurso que não teve a intenção porque eu tô cansado de ouvir isso, não é só aqui dentro. É lá fora também. Nunca ninguém tem a intenção de machucar. Nunca ninguém tem a intenção de fazer as coisas com a gente”.

João ficou visivelmente abalado e é triste que ele tenha passado por uma situação dessa, mas requer muita coragem para colocar para fora sua dor e dar nome ao seu agressor. Porém, ao ter a oportunidade de falar, Rodolffo preferiu repetir o que disse em vez de pedir desculpas ao seu colega de confinamento. Em seguida, inclusive em uma conversa com Camilla, fez falsas simetrias, revelou que o pai dele também tem cabelo crespo (o que o isentaria de ser racista) e, principalmente, reforçou que não teve a intenção de ofender ninguém.

Nas redes sociais, em vez de se posicionarem ao lado de João, muitos optaram por defender Rodolffo, alegando que o mundo está “muito chato” e que o músico não teve a intenção de machucar o professor. E, caso o título deste texto não tenha sido objetivo o bastante, repito: não ter a intenção de ofender não é desculpa, muito menos anula o sofrimento do outro que foi atingido por suas falas e ações.

Eu gosto muito daquela comparação, ainda que estejamos falando de coisas muito diferentes, de que se você pisar no meu pé e disser que foi sem querer, isso não faz com que a dor diminua ou suma. Ou seja, quando temos uma postura que ofende outra pessoa, é nosso dever nos responsabilizarmos pelo que fizemos, pedir desculpas e ficarmos mais atentos para não repetir a mesma atitude. Rodolffo, contudo, foi na contramão, tentando achar justificativas para suas falas – ainda qualificando a justa revolta de quem se ofende como “mimimi”. Não é.

Outro argumento utilizado pelo sertanejo para se defender é o de que ele é “do interior” e não teve a mesma criação de quem nasceu ou mora na cidade grande. Ele, porém, tem uma boa condição financeira, afinal, vive ostentando carros e viagens no Instagram, viaja pelo Brasil inteiro com a sua profissão, o que significa que ele tem contato com todo tipo de gente. Ou seja, ele não vive isolado e sem acesso à informação: quem tem que ter interesse em aprender é ele.

É muito cômodo colocar no colo de quem sofre o preconceito a responsabilidade de “ensinar” quem não sabe, já que não é preciso fazer qualquer movimento, apenas esperar e culpar quem não o educou ou teve “paciência” em mostrar o que é certo. É preciso repensar essa lógica e responsabilizar-se pelas próprias atitudes e ignorância. E ao descobrir que ofendeu, a obrigação deveria pedir desculpas e escutar. Camilla teve uma longa conversa sobre isso com Rodolffo, o qual continuou da defensiva.

O artista também argumentou que seu pai tem cabelo crespo, o que o impediria de ser racista, pois estaria machucando a pessoa que mais ama. Essa é outra maneira de dizer “não sou racista, tenho até amigos negros”. E, sim, é possível ser racista tendo um pai ou um amigo negro, visto que uma coisa não anula a outra. Estamos todos inseridos em uma sociedade que é estruturalmente racista, machista, homofóbica, etc. Portanto, ter alguém próximo que pertença a uma minoria não é escudo para se defender de acusações das quais você precisa assumir a culpa.

E é de se pensar o quanto é cansativo, como bem pontuou Camilla na noite de ontem, ter de explicar sempre a mesma coisa. Imagine para quantas pessoas a influencer e João já devem estar falando sobre racismo? Fora que, nas duas últimas edições do “BBB”, conversas envolvendo a identidade negra foram explanadas pelos participantes – Babu e Thelma, por exemplo, só no ano passado. Essas discussões estão acontecendo há tempos, mas as pessoas ainda preferem não ouvir e, em muitos casos, fingir que não conhecem. Dessa maneira, podem continuar procurando meios de se defender do indefensável. Entretanto, quem está do outro lado, sempre ouvindo que não houve intenção, fica esgotado e tem sua autoestima diminuída e minada pelas atitudes de quem se recusa a aprender.

É preciso lembrar que o racismo adoece e mata. Uma comparação como a que o cantor fez pode disparar vários gatilhos diferentes em quem ouve, pois mais uma vez, a pessoa negra recebe um recado da sociedade de que seu cabelo e seus traços não são bonitos ou de que sua vida tem menos valor. Enquanto sociedade, ainda temos a ideia de que racista é aquele que xinga, bate e/ou mata intencionalmente uma pessoa negra devido a sua cor. Não é bem assim: do mesmo modo que nós evoluímos, o preconceito também evoluiu e se manifesta não só nas agressões físicas, mas também nas sutilezas do cotidiano. Aquela “piada” que aprendemos com os nossos avós ou pais, pode, sim, ser racista. E é nosso dever não mais propagá-la.

Se tem alguém que parece um homem das cavernas é Rodolffo. E a saída dele do programa pode ser, enfim, a lição que ele tanto precisa.