Representatividade não importa, mas experimente tirar um homem branco de cena

Na última quinta-feira, 3, foi lançado o tão aguardado trailer de “As Caça-Fantasmas”, reboot da famosa franquia que fez sucesso na década de 80. Saem Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson, e entram em cena Melissa McCarthy, Leslie Jones, Kristen Wiig e Kate McKinnon como o quarteto que sai à procura das criaturas paranormais.

A divulgação da prévia trouxe de volta os comentários machistas que já circulavam em janeiro do ano passado, quando o diretor do longa, Paul Feig, anunciou que o elenco principal seria composto apenas por mulheres. “O feminismo está fora de controle”, “mulheres não são engraçadas”, “poderiam ter escolhido atores de verdade” são só alguns exemplos do que as pessoas andam escrevendo sobre o trailer publicado no Youtube. Até o momento em que escrevo este texto, há quase duas vezes mais ‘dislikes’ (não curtidas) no vídeo do que curtidas.

Isso me fez pensar como representatividade incomoda. Mas vamos por partes. Primeiro de tudo, Hollywood costuma fazer reboots, sequências e remakes de filmes que fizeram sucesso de bilheteria, logo, um novo filme da franquia “Os Caça-Fantasmas” não seria apenas uma questão de tempo, como também seria comercialmente viável.

Segundo, a troca de gênero e raça nessas produções também não são exatamente novidade. “Our Brand Is Crisis”, estrelado por Sandra Bullock, seria protagonizado por George Clooney, que acabou passando o papel para atriz, cuja personagem é inspirada na história real do estrategista político James Carville. Hermione Granger será uma mulher negra no teatro, interpretada pela atriz Noma Dumezweni; e o novo Tocha Humana do Quarteto Fantástico também é negro no cinema, vivido pelo ator Michael B. Jordan. “11 Homens e Um Segredo” ganhará uma nova versão toda protagonizada por mulheres, assim como outros filmes já conhecidos pelo público.

Essa é uma tendência positiva quando se trata de visibilidade para essas minorias, as quais possuem pouco espaço na indústria cinematográfica. Mas obviamente, isso não acontece sem reclamações. Tão logo um homem branco sai de cena e uma minoria pega seu lugar, começam os protestos por “fidelidade aos quadrinhos”, “não mexa no clássico da minha infância”, como se as obras originais perdessem o sentido e não pudessem mais ser lidas ou assistidas e precisassem ser descartadas.

Ao mesmo tempo, é curioso que o mesmo grupo que ataca os filmes reimaginados, é o mesmo que afirma que “representatividade não importa” e se cala, por exemplo, com o apagamento de minorias étnicas nos filmes.

Quando foi anunciado que o Tocha Humana, um dos personagens centrais de “O Quarteto Fantástico”, seria negro, papel do ator Michael B. Jordan, houve inúmeras críticas à escolha do ator, afinal, nos quadrinhos, ele é um homem branco. As reclamações foram tantas, que obrigaram Jordan a se manifestar em quase todas as entrevistas que deu à época sobre a “polêmica”. Não só isso, ele ainda escreveu um artigo, pedindo às pessoas que entendam a evolução dos tempos.

“Sei que não posso pedir ao público que esqueça 50 anos de histórias em quadrinhos, mas o mundo é um pouco mais diverso em 2015 do que quando o ‘Quarteto Fantástico’ foi lançado em 1961.”

Eu sei que o filme é ruim, mas você entendeu meu ponto.

Em seguida, “Mad Max: Estrada da Fúria”, reboot de uma série já conhecida no mundo todo, também foi o alvo de críticas de “ativistas pelo machismo”. Eles argumentavam que “Charlize Theron aparece muito nos trailers, enquanto Tom Hardy tem apenas algumas aparições. Theron fala muito, enquanto eu acho que não ouvi uma frase de Hardy. Por fim, o personagem de Theron dá ordens para Mad Max. Ninguém berra ordens para Mad Max.”

Para o grupo, que esperava criar um movimento de boicote ao filme, a produção era uma forma de “propaganda feminista.” Charlize Theron, uma das principais estrelas, chegou a comentar sobre a possível mensagem feminista do longa.

“Eu senti isso muito forte quando terminamos de gravá-lo”, contou a atriz ao Entertainment Weekly. “O que tocou forte nele é a importância que as mulheres têm nesse mundo de sobrevivência. É perceptível como a geração mais nova de mulheres foi representada, minha geração foi representada, e essa geração de mulheres mais velhas foi representada. Fiquei feliz de ser uma garota com peitos e fazer parte disso.”

“Star Wars: O Despertar da Força”, protagonizado por uma mulher (Daisy Ridley) e um homem negro (John Boyega), também é um exemplo de filme que recebeu protestos por conta da diversidade do elenco. Vale dizer: uma diversidade que jamais foi vista na saga intergaláctica. Houve até pedidos de boicote ao sétimo episódio, que foi rapidamente rechaçado, tornando-o filme de maior bilheteria dos Estados Unidos.

“Pessoas negras e mulheres estão sendo incrivelmente mostradas nas telas. As coisas serem ‘pintadas de branco’ não fazem sentido”, disse Boyega sobre as reclamações.

Eu fico com sua resposta.

A bola da vez agora é “As Caça-Fantasmas”, mas há poucos meses, a peça de teatro “Harry Potter and the Cursed Child” recebeu vários comentários por conta da personagem Hermione Granger, interpretada por Emma Watson no cinema, agora é papel de Noma Dumezweni, uma atriz negra. “Dizer que não é como era pretendido é tão sem criatividade”, disse a artista. “Eu acho que eles não entendem como o teatro funciona. Estamos aqui para curar você, fazê-lo sorrir e transportá-lo.”

Se representatividade não importa, por que tantas reclamações? Quero dizer, não gostar do filme é um direito seu, mas criticá-lo porque ele não é “fiel” à obra na qual foi baseado é muito “sem criatividade”, para repetir as palavras de Dumezweni. O mundo é muito mais diverso do que o cinema nos mostra: mais da metade dele é composto por mulheres, negros, asiáticos, latinos e LGBTs.

“Aos trolls na internet, eu digo: tire sua cabeça do computador. Vá lá fora e ande por aí. Olhe para as pessoas perto de você. Olhe para os amigos de seus amigos e com quem eles estão interagindo. Entenda que esse é o mundo em que nós vivemos. Tudo bem gostar dele”, escreveu Michael B. Jordan em seu artigo.

É melhor acostumar-se com a ideia, porque o bonde da diversidade não vai parar. E ele vai continuar seguindo em frente.

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