Refugiados não são turistas

  25. outubro 2016   Moda   0
Refugiados não são turistas

No começo do mês, a atriz indiana Priyanka Chopra, protagonista da série “Quantico”, foi capa da revista de viagens Condé Nast Traveller, para a qual também deu uma entrevista sobre sua vida dentro de aviões, já que a artista possui trabalhos na Índia e nos Estados Unidos.

“Eu me acostumei a dormir no voo de 16 horas entre Mumbai e Los Angeles”, ela disse. “Você consegue dormir 8 horas e ainda tem 8 horas quando acordar. Eu leio roteiros e decido quais filmes farei a seguir. E, em geral, eu pouso e vou direto para o trabalho. Por exemplo, enquanto eu estava terminando de gravar ‘Bajirao Mastani’, eu também estava gravando para ‘Quantico’. Até mesmo ‘Baywatch’ eu filmei durante os finais de semana de intervalo de ‘Quantico’. Eu tenho nove passaportes. Viajo, pelo menos, seis vezes por mês”.

E por se tratar de uma publicação voltada para pessoas com muito dinheiro, além de falar sobre sua profissão, Priyanka também contou que gosta de passear de barco pelo sul da França, além de ter revelado que gostaria de comprar uma ilha no futuro. Talvez esse seja o tipo de conversa que ricos entendam.

Nada de muito polêmico, mas tanto a atriz quanto a CNT foram muito criticadas na internet. O motivo? A capa insensível feita pela publicação, na qual a indiana aparece vestindo uma regata, cuja estampa possui as palavras “refugiado”, “imigrante” e “forasteiro” riscadas, enquanto “viajante” surge como a única opção desmarcada.

A imagem é problemática por diversos motivos. Entre eles está a banalização do que implica ser refugiado, afinal, não é como se os refugiados partissem de seus países de origem de forma voluntária, e com o sonho de explorar as riquezas materiais que o mundo oferece. Para essas pessoas, deixar suas casas e famílias para trás não é uma questão de luxo, mas de sobrevivência, pois estão fugindo da guerra, da miséria e da fome.

Por isso, não foi à toa que a internet reagiu à capa da Condé Nast Traveller, que trouxe um ponto de vista bastante privilegiado sobre um problema global que atinge os mais pobres e que demanda cuidado ao ser discutido. Do contrário, acaba-se alimentando um perigoso estigma sobre os refugiados, os quais arriscam suas vidas cruzando fronteiras e oceanos, e ainda enfrentam a resistência da população e dos governos nos países para onde foram.

Com a repercussão negativa, Priyanka e a CNT foram obrigados a se manifestar. A atriz pediu desculpas em um programa de televisão indiano, afirmando que não era essa sua intenção quando fez a foto.

“Estou arrependida por ter machucado alguém”, ela disse. “Eu sempre fui contra rótulos. Fui muito afetada e me sinto horrível, mas a mensagem foi desconstruída. A revista foi muito clara quando disse que queria enviar uma mensagem sobre xenofobia envolvendo rótulos”.

Já a publicação emitiu um comunicado, no qual condenou a forte onda de xenofobia e racismo no mundo, e afirmou que é preciso “abrir fronteiras e derrubar muros”:

“É sobre como rotular as pessoas como imigrantes, refugiados e forasteiros está criando uma cultura de xenofobia. Estamos permitindo que milhares de inocentes, os quais foram forçados a atravessar fronteiras devido ao terror e às atrocidades inimagináveis, sendo tratados assim sem humanidade e empatia. É sobre como nós estamos permitindo que alguns líderes poderosos construam barreiras que dificultam que pessoas brilhantes, motivadas e trabalhadoras vejam mais do mundo, aprendam com ele e o tornem melhor para todos nós”.

Embora os pedidos de desculpas sejam bem-vindos, como nota o Upworthy, ambos fazem parecer com que os rótulos sejam o problema a ser combatido, quando não são.

Talvez em 2016 a ideia de rotular as pessoas soe ultrapassada para muitos, mas, na verdade, eles são marcadores de identidade importantes, pois ajudam a entender quem são os indivíduos que pertencem a determinado grupo, facilitando a compreensão de suas necessidades.

Refugiados são pessoas que fogem de seus países por conta da guerra, perseguições e desastres naturais. Como explica a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), “sua situação é tão perigosa e intolerável que devem cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos. São reconhecidos como tal, precisamente porque é muito perigoso para eles voltar ao seu país e necessitam de um asilo em algum outro lugar. Para estas pessoas, a negação de um asilo pode ter consequências vitais”.

Ao mesmo tempo, os imigrantes também podem ir de um país para o outro por conta de conflitos onde vivem, mas essa movimentação é voluntária, podendo ser temporária ou não.

Ou seja, rótulos não são o problema. E indo além, ao riscar as palavras “refugiado” e “imigrante”, é como se a CNT enviasse uma mensagem de que essas não seriam condições reais, diminuindo ou deslegitimando a busca dessas pessoas por abrigo e uma vida digna.

Numa época em que o mundo possui 65,3 milhões de refugiados, um número maior que é maior que a população do Reino Unido, a capa da Condé Nast Traveller não é apenas superficial, mas ofensiva e desumanizadora.

Mais uma vez: refugiados e imigrantes não são turistas. Principalmente no caso do primeiro grupo, eles não estão atrás de hotéis caros e melhores restaurantes, mas em busca de um teto seguro sobre suas cabeças.

Antes de querer lucrar em cima de uma questão humanitária tão urgente, é preciso levar em consideração a perspectiva dessas pessoas. E prestar atenção nelas deveria ser mais urgente do que fazer (mais) dinheiro.


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