Racismo é o tema mais urgente hoje no Brasil, afirma Emicida

“A pior coisa do mundo é alguém ter medo de você, e você não representa ameaça nenhuma para essa pessoa. Você chegar para perguntar que horas são, e a pessoa esconder a bolsa”, contou Emicida à BBC Brasil. Para o rapper, “o racismo é a questão mais urgente do Brasil”, a discussão que o país se recusa a fazer. Em troca, a maioria da população brasileira continua em sub-empregos, é minoria nas universidades, apesar do aumento de negros no ambiente acadêmico, recebe menos do que trabalhadores brancos, e ainda é a maioria de pobres, presos e mortos no território brasileiro.

Numa entrevista à BBC Brasil, Emicida fala sobre racismo, violência policial, política e sobre a maioridade penal, aprovada recentemente pelo Congresso Nacional. “Hoje, propor redução da maioridade penal é covardia”, afirmou o rapper, nascido num bairro pobre da zona norte paulistana. “Não tem escola no meu bairro. Tem uma escola caindo aos pedaços e uma creche caindo aos pedaços. O dia em que tiver estrutura lá para os moleques serem outra coisa, aí eu vou achar da hora. Aí eu vou achar que vocês podem perguntar, propor a coisa que for, aí eu posso debater pensando nisso”.

Emicida credita ao hip-hop e à leitura ter conseguido um outro rumo na vida, diferente daquele de tantos jovens de periferia, que acabam entrando na criminalidade. “A leitura começou a abrir um outro universo para mim. Aquilo começou a ocupar meu tempo de uma maneira tão grande, que eu comecei a me afastar dos ‘bagulho ruim’ que tinha em volta”, diz o rapper. No entanto, sua música, em suas próprias palavras, refletem a infância difícil. “Acho que quando você nasce num bairro violento, a pior coisa que aquele ambiente faz para você é destruir a sua humanidade”.

Para ele, a destruição da humanidade é uma “perda incomensurável”, mas lembra que o ambiente agressivo foi e ainda é a realidade de milhares de crianças no Brasil. “Esse negócio de sair para ir para escola e ter um corpo morto e você pular aquele corpo e seguir como um dia comum era normal. Se você vir isso nos Jardins [bairro nobre de São Paulo], a pessoa tem que fazer terapia. Com nós, é normal”, recorda.

“Infelizmente, é tão corriqueiro, que você acaba não dando a importância que aquilo tem, não dá mais o desespero que aquilo dá. Você assiste a essa situação com uma calmaria que é assustadora. E assusta porque aí a vida vale menos. Isso é um alimento muito grande para a violência urbana, porque aí a molecada cresce como? A vida de ninguém tem valor”.

Emicida também reclama do efeito que as críticas aos preconceitos estruturais sociais têm feito nas pessoas, que assumem uma postura defensiva ao invés de discutir as questões que estão na mesa. “Quando você vai apontar um problema, você é taxado de vitimista. ‘Ai, está se fazendo de vítima'”, diz o rapper. “Eu não estou me fazendo de vítima, eu fui vítima de agressão policial. Tem o lema do país de que ‘bandido bom é bandido morto’, mas isso aí só serve para pobre. Por isso, eu bato na tecla do racismo”.

Racismo, machismo, homofobia, transfobia e capacitismo são preconceitos estruturais, cuja a manifestação acontece de diversas formas, a fim de colocar esses grupos fora dos espaços sociais. Não debater sobre os temas é manter todo o sistema como está, o que inviabiliza a criação de uma sociedade igualitária. “O brasileiro acredita que é um povo cordial para fugir dos assuntos urgentes que ele tem no dia a dia. Mas o brasileiro é um povo agressivo. Essa violência tem base no racismo, no machismo, na homofobia, na própria diferença econômica das pessoas”, reflete o rapper.

“Você tem um país que não se assume racista, mas você vai na faculdade de medicina e não tem um preto. E aí as pessoas vão para uma roda de samba no fim de semana numa favela onde tem vários pretos e eles se orgulham da diversidade desse país. Mas elas não cobram essa mesma diversidade durante a semana na universidade de medicina, no escritório, nos cargos mais altos do emprego deles”.

“Hoje tudo é racismo. Essa frase é muito repetida por quem não quer rever seus privilégios e aceitar que tudo sempre foi racismo, a diferença é que “agora as pessoas não querem mais morrer caladas, entendeu?”, reflete Emicida.

No entanto, nem o prestígio alcançado por ele o deixa imune a episódios de racismo. Em julho, o rapper contou um episódio de discriminação que aconteceu num táxi. Um de vários que ainda acontecem.”A pior coisa do mundo é alguém ter medo de você, e você não representa ameaça nenhuma para esta pessoa”. Contudo, com a fama alcançada, Emicida sente-se responsável em falar sobre racismo. “A gente tem que olhar um pouco para isso, tem um monte de gente morrendo por causa disso. Aí a vida vale menos, a vida dos pretos vale menos ainda. Por que que a polícia mata tanto na favela?”.

Esse é o poder de celebridades: elas podem nos fazer ter conversas que não teríamos se elas não tivessem pavimentado o caminho, seja para o bem ou para o mal. Por fim, Emicida comemora os progressos que o país tem feito. O rapper acredita que a articulação movimento negro tem ajudado a resgatar a autoestima da população negra, assim como ícones negros.

“Aqui em São Paulo, o hip hop fez a gente sentir orgulho da nossa cor, do nosso cabelo crespo, buscar conhecer mais sobre os nossos antepassados. Porque a cura para o racismo é o conhecimento, sabe? É isso. O que vai fazer com que as pessoas passem a se respeitar e a reconhecer a grandeza do outro é saber a origem daquelas pessoas.

Eu me sinto feliz, otimista de ver a molecada soltando o cabelo, as meninas se sentindo bonitas, querendo ser a Beyoncé agora. É uma parada que me orgulha muito”.

A entrevista completa pode ser conferida no site da BBC Brasil.

Imagem de destaque: Carla Carniel/Folhapress

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