Quem foi Ma Rainey, personagem de Viola Davis no novo filme da Netflix

Na segunda-feira (19), a Netflix liberou o trailer de “A Voz Suprema do Blues”, seu mais novo filme, com Viola Davis e Chadwick Boseman nos papéis principais. Este é o último trabalho de Boseman, que morreu em agosto deste ano, vítima de um câncer de cólon.

O longa se passa na Chicago da década de 20, durante as gravações de um disco da cantora Ma Rainey (Davis) e sua banda. Atrasada para entrar em estúdio, a cantora enfrenta produtor e empresário, ambos brancos, pelo controle de sua música. Ao mesmo tempo, o trompetista Levee (Boseman) entra em cena e os conflitos entre os artistas não demoram a surgir.

“A Voz Suprema do Blues” possui direção de George C. Wolfe, roteiro de Ruben Santiago-Hudson e produção de Denzel Washington, um grande parceiro de trabalho de Viola, com quem contracenou e também produziu o filme “Um Limite Entre Nós”.

Talvez o nome de Ma Rainey seja desconhecido para muitos, mas a artista foi uma das maiores cantoras de blues dos Estados Unidos, conhecida como a “Mãe” do gênero e parte da primeira geração de músicos a gravar suas canções.

Ma Rainey nasceu Gertrude Pridgett, porém, as informações sobre data e local de nascimento são imprecisas: enquanto ela afirmava ter nascido em 1886, na Geórgia, dados do censo americano informa que ela teria nascido, na verdade, em 1882, no Alabama. Apesar dessas incertezas, sabe-se que a carreira musical dela começou ainda na adolescência, quando cantava na igreja e em shows de talentos.

Aos 18 anos, casou-se com William “Pa” Rainey, com quem fez a dupla Rainey and Rainey, Assassinators of the Blues, e com quem fez várias apresentações, incluindo no Rabbit’s Foot Company, um famoso espetáculo itinerante que viajava pelo sul dos Estados Unidos. Os dois se apresentaram juntos até 1916, quando acabaram se separando. A partir daí, a vocalista fez seus próprios shows.

Ma Rainey. Créditos: National Theatre Blog

Entre as décadas de 10 e 20, Ma Rainey fez um enorme sucesso com suas performances, descritas como “inesquecíveis” por aqueles que viveram para testemunhá-las. As apresentações da artista eram grandiosas, marcadas pela sua forte presença de palco, vocais primorosos e pela produção “exagerada” (digna de cantoras pop de hoje) que realizava em cima do palco. Segundo o jornal The New York Times, ela foi a primeira “a unir o vaudeville [um teatro de variedades] a uma expressão autêntica do folk negro do sul dos Estados Unidos”.

Além de um ícone da música, Ma Rainey também foi um ícone LGBTQIA+, pois a cantora ainda era abertamente bissexual. Há vários relatos de uma ocasião na qual foi presa por uma orgia com algumas de suas dançarinas. A fiança foi paga por Bessie Smith, para a qual foi mentora, que também era bissexual. É possível que o incidente tenha inspirado a música “Prove It On Me Blues”, na qual ela canta: “ontem à noite eu saí com amigos/devem ter sido todas mulheres, porque eu não gosto de homens”. A Billboard fez ainda uma lista com outras (possíveis) referências ao relacionamento com mulheres em outras de suas músicas.

Em 1923, ela foi para Chicago para gravar seus discos, tornando-se uma das primeiras artistas a realizar tal feito. Até 1928, ela fez 100 músicas com a Paramount Record Company, porém, as produções não capturavam o poder de sua voz, pois o selo não tinha a mesma estrutura financeira de seus concorrentes, o que impactou nas gravações de Ma Rainey. Com a grande recessão econômica de 1929 e o declínio do blues, ela acabou demitida e voltou para a Geórgia, onde administrou dois teatros que possuía até morrer por uma parada cardíaca, em 1939, aos 53 anos.

A importância dessa grande artista dos Estados Unidos inspirou o dramaturgo August Wilson em uma de suas peças. A chamada “Ma Rainey Black Bottom” tem como personagem principal a própria cantora e sua briga com produtores brancos por sua música. O texto integra a antologia “The Pittsburgh Cycle”, cujas 10 histórias se passam em diferentes décadas do século XX, a fim de explorar a experiência dos negros americanos. O texto de Ma Rainey é a base para o novo filme da Netflix.

Há muito o que discutir e ouvir sobre Ma Rainey. Para quem tiver curiosidade, recomendo este texto (em português) e o obituário da artista, feito pelo jornal The New York Times. Outros textos (também em inglês) que serviram como referência para este post estão nos links.

Agora que você já conhece mais sobre Ma Rainey, é só esperar por “A Voz Suprema do Blues”, que estreia no dia 18 de dezembro.