Quando Muhammad Ali questionou o motivo dos grandes ícones culturais serem todos brancos

Muhammad Ali morreu, mas sempre lembrado por seu legado no esporte e por sua luta contra o racismo.

Muhammad Ali, uma das lendas do boxe, morreu nesta semana aos 74 anos, sendo sua morte anunciada na madrugada de hoje (4). Ícone do esporte, ele era conhecido como “O Maior”, e conseguiu três vezes o título de campeão mundial de pesos pesados (1964, 1974 e 1978).

Nascido Cassius Clay, nome que foi mudado depois de sua conversão para o islamismo, o atleta também era aplaudido fora dos ringues: Muhammadi se opôs à Guerra no Vietnã, em 1967, recusando-se a participar dela, o que custou sua licença para lutar e seu cinturão.

“Minha consciência não vai me deixar atirar no meu irmão ou pessoas de pele mais escura ou pessoas pobres e famintas na lama pela grande e poderosa América. E atirar neles para quê? Eles nunca me chamaram de crioulo, nunca me lincharam, nunca soltaram seus cachorros em mim, nunca roubaram minha nacionalidade, estupraram e mataram minha mãe e meu pai. Atirar neles para quê? Como eu poderia atirar em pessoas pobres? Pobres, pessoas negras, bebês, crianças e mulheres. Como eu poderia atirar nos pobres? Levem-me para a prisão.”

Sua ascensão aconteceu em um tempo de fortes tensões raciais nos Estados Unidos, tendo experienciado o racismo quando ainda era uma criança. Aos 12 anos descobriu o talento para o boxe, após ter sua bicicleta roubada e um policial ter dito a ele que era melhor aprender a lutar. Com as vitórias vieram a fama, e o atleta utilizava o holofote conquistado para desafiar as normas racistas de seu país. “Eu queria que as pessoas amassem umas às outras como elas me amam. Seria um mundo melhor”, ele disse certa vez.

Em uma entrevista concedida em 1971, podemos vê-lo questionando o racismo nos grandes ícones culturais, os quais ainda persistem em 2016. “Eu sempre perguntava para a minha mãe: ‘mãe, por que é tudo branco?'”, diz Muhammad no vídeo abaixo. “Por que Jesus é branco de olhos azuis? Por que todos na última ceia, todos são brancos?”

https://www.youtube.com/watch?v=6aodGt-XJqM

“Os anjos são brancos. Maria, os anjos. Perguntei: ‘mãe, depois de morrer vamos par ao céu?’ Ela disse: ‘claro que vamos para o céu.’ Eu respondi: ‘então, o que aconteceu com todos os anjos negros?’ Eu continuei: ‘eu sei. É porque se os homens brancos estão no céu, os anjos negros estão na cozinha preparando o leite e o mel.’ Sempre fui curioso, sempre me perguntei porque tinha que morrer para ir ao céu. Por que não podia ter lindos carros, casas e dinheiro agora? Por que tenho que esperar para morrer para ter leite e mel? Eu disse: ‘mãe, não gosto de mel, eu gosto de bife. E leite com mel é laxante! Há muitos banheiros no céu?’

Sempre fui curioso. Eu me perguntava: por que o Tarzan, o rei da selva, na África, era branco? Vi um cara, com um lençol, uivando… Vocês viram Tarzan por aqui também? Ele briga com africanos, quebra a mandíbula dos leões. E Tarzan fala com os animais, enquanto os africanos que estão ali por séculos não conseguem falar com os animais. Eu me perguntava: por que a Miss Estados Unidos era sempre branca? Por que tantas mulheres lindas e negras do país, lindos bronzeados e silhuetas, por que escolhem a branca com tanta diversidade? E a Miss Mundo era branca. E a Miss Universo era sempre branca. E também as coisas: charutos da Casa Branca, Sopa de Cisne Branco, Sabão do Rei Branco, Papel de Nuvens Brancas, Peixes de Anéis Brancos, cera de piso, Tony Branco, tudo era branco. E o bolo do anjo era branco, enquanto a torta do diabo era de chocolate.

E eu me perguntava: o presidente dos EUA mora na Casa Branca, e a Branca de Neve, e o Papai Noel era branco. E tudo que era ruim era negro. O patinho feio era negro, o gato preto é o do azar, se te ameaço é blackmail [‘chantagem’, em inglês]. Eu disse: ‘mãe, por que não chamam de whitemail? Eles mentem também.’ Eu sempre fui curioso, foi assim que percebi que as coisas estavam erradas.

Depois de conseguir uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Roma, Muhammad Ali voltou aos Estados Unidos, acreditando que seu feito ajudaria a acabar com o racismo no país, mas não foi o que aconteceu, tendo ele mesmo vivido o preconceito após sua fama.

“Eu me sentia o campeão dos Estados Unidos. Eu disse a mim mesmo: ‘agora vou libertar meu povo. Sou o campeão olímpico. Agora posso comer no centro da cidade.’ Eu fui ao centro com a minha medalha de ouro. Na época, a cidade ainda não estava integrada, um homem negro não podia comer ali. Eu fui e me sentei e disse: ‘eu quero uma xícara de café e um cachorro quente.’ [O atendente] Ele disse: ‘nós não servimos negros aqui.’ Eu fiquei tão bravo e respondi: ‘eu não como negros. Eu quero meu café e cachorro quente. Eu sou um medalhista olímpico, lutei por esse país em Roma, ganhei uma medalha de ouro e eu vou comer.’ Ele falou com o gerente, que disse: ‘eu não faço as regras, você tem que ir embora.’ Tive que sair do restaurante, na minha cidade natal, onde eu ia à igreja e servi como um bom cristão, onde eu vivi e cresci. Havia acabado de ganhar uma medalha de ouro e não posso comer no centro da cidade?”

Em seguida, Muhammad Ali, decepcionado, jogou sua medalha de ouro no Rio Ohio. Foi após os casos de racismo que sofreu que o levaram a se converteu ao islamismo.

É por sua luta dentro dos ringues e fora delas que tornarão o atleta sempre lembrado. Descanse em paz, campeão!

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