Quais os valores dessa família tradicional brasileira?

  20. março 2015   Internet, Televisão   4

A nova novela da Globo, “Babilônia” estreou na última segunda-feira, tendo um casal lésbico composto pelas grandes atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, que interpretam Teresa e Estela. Logo no primeiro capítulo, as duas trocaram um beijo. Um avanço, já que as novelas da emissora, em geral, só mostram beijos entre pessoas do mesmo sexo perto dos episódios finais do folhetim.

Mas o beijo, logo no primeiro capítulo (sugerido pela própria Fernanda Montenegro), não foi o único entre as duas. Além de outro beijo, a personagem de Fernanda ainda deu uma aula de respeito à professora de seu filho, que achava melhor as duas serem reconhecidas como “mãe e tia” do menino, uma vez que pais dos colegas dele não gostaram de saber que Rafael possui duas mães.

“Algumas leis precisam se adaptar à realidade. […] Eu sempre peguei o meu menino no meu colo. Eu sempre acalentei ele; cuidei dele nas noites de febre. Dei mamadeira. Cantei para ele dormir… Dei amor. Dei muito amor e educação. Ele me chama de mãe, espontaneamente. Ninguém nunca exigiu isso dele. Nunca lhe foi imposto. […] A senhora quer que eu chegue pro meu filho, pro filho que eu crio e diga para ele não me chamar de mãe? A senhora quer que meu filho tenha vergonha do amor maternal, que é o mais forte que existe na vida? […] A sociedade de vez em quando, ela tenta mudar, tenta esconder pessoas como eu. Não conseguem. Não vai conseguir nunca. Nunca. […] Eu tenho certeza de que pessoas como Estela, como eu, ainda vamos mudar a sociedade”.

Na trama, as duas ainda irão se casar. Uma conquista após anos de relacionamento e lutas. E o impacto disso foi para fora da tela da televisão. Um dia após o primeiro beijo entre Teresa e Estela, quatro mulheres, entre 50 e 70 anos entraram com pedidos de formalização da união em cartórios cariocas. Isso só reforça a importância da representatividade nas produções televisivas.

Ainda nesta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF), reconheceu a adoção de um menino por um casal homoafetivo. Toni Reis e o marido, David Harrad, estavam há 10 anos lutando para terem o direito de constituírem sua família, que ainda é completada pela filha Jéssica e Felipe. A ministra Carmem Lúcia, relatora do processo, reconheceu que a Constituição brasileira não faz diferenciação entre famílias formadas por pais hétero ou homossexuais.

Tantas vitórias em poucos dias não viriam sem a revolta de quem defende a “tradicional família brasileira”. A Bancada Evangélica presente no Congresso brasileiro soltou uma nota de repúdio à cena de beijo entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Assinada pelo deputado João Campos (PSDB-GO), a nota classifica o beijo como “modismo” (afinal, homossexualidade nunca existiu antes, não é mesmo?), e que a novela tem a “clara intenção de afrontar os cristãos”, e que estes se sentem “violentados por estes constantes estupros morais impostos pela mídia liberal”.

O senador Magno Malta (PR-ES), integrante da Frente Parlamentar Mista Permanente em Defesa da Família Brasileira, compartilhou seu desgosto pela novela em seu Facebook, onde disse que o folhetim “faz apologia ao mal. Produzida para destruir famílias. Compartilhe, não dê espaço para esta ameaça com cara de diversão”, e postou uma imagem convocando um boicote à novela.

Como bem disse a cantora Pitty, em um tweet a um seguidor que a mandou “lavar a louça”, após ela expôr sua opinião sobre as passeatas que aconteceram no último domingo: “Pois eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário. O choro é livre (e nós também)”.

O choro é mesmo livre, mas de qual maneira um beijo entre pessoas do mesmo sexo coloca em risco a família brasileira? Novelas, a priori, são representações da sociedade em que vivemos. E depois de anos fazendo de conta de que homossexuais não existem, para depois transformá-los em pessoas assexuadas e sem uma história a ser contada, finalmente somos representados nas produções televisivas. Não dá mais para ignorar a nossa existência. Pois estamos falando cada vez mais alto, conquistando direitos e tendo nossa humanidade reconhecida. Não é mais admissível apagar a população LGBT das novelas, porque ela existe fora delas.

Em seu discurso “Você não está sozinho“, durante o evento da organização “Human Rights Campaign”, a roteirista Shonda Rhimes, disse estar normalizando a televisão americana com seus personagens. “Estou fazendo a televisão parecer como o mundo é”, disse. E é exatamente isso que os roteiristas de novela, diretores e produtores de televisão, no Brasil, estão fazendo (ainda que a passos lentos): estão normalizando a TV no nosso país.

Penso que a família tradicional brasileira se sustenta em valores muito frágeis para ser destruída com um simples beijo; um ato de afeto protagonizado tantas vezes por personagens heterossexuais. Violência, morte, relacionamentos abusivos, estereótipos arcaicos acerca da mulher e do negro, nada disso é uma afronta aos valores da família tradicional brasileira, mas um beijo entre pessoas do mesmo sexo é motivo para manifestações calorosas.

A representação de casais homossexuais numa novela não influencia ninguém a tornar-se homossexual, mas fortalece quem ainda está “dentro do armário” e fora dele. Não só isso, possibilita um maior entendimento sobre o que é a homossexualidade e, assim, quebra com preconceitos e estereótipos em torno dessa população. Traduzindo: cria empatia.

Eu sou a favor de que cada um faça o que quer. Se não quer assistir a duas mulheres se beijando e demonstrando carinho uma à outra, então desligue a televisão. Mas ao menos respeite as diferenças. Homossexuais já são marginalizados o suficiente pela nossa sociedade sem sua ajuda. Mas eu recomendaria, mesmo, assistir “Babilônia”, para que qualquer preconceito possa ser desconstruído pois, afinal, essa (ou deveria ser) é a missão social de uma novela.

Por fim, para quem ainda está chocado e é incapaz de reconhecer o beijo entre duas pessoas do mesmo sexo, como uma expressão legítima de amor, deixo Nathalia Timberg dar o recado:

“As pessoas ficam hipnotizadas por um momento que veio a coroar a ternura entre as duas. O que é mais importante do que esse frisson de beija ou não beija é que é normal, entre duas pessoas que se amam, que o sentimento venha se expressar dessa maneira. Em qualquer relação – seja ela homossexual ou heterossexual – feliz e positiva ela se consolida em um sentimento que vai se enraizando profundamente”.