Por que a discussão sobre diversidade em Hollywood importa

Uma semana após a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciar os indicados ao Oscar deste ano, com uma lista que contempla apenas atores brancos pelo segundo ano consecutivo, diversos artistas negros têm se manifestado sobre a falta de diversidade da premiação.

Recentemente, Viola Davis foi mais uma a opinar sobre o assunto. “O problema não está no Oscar. O problema é o sistema de Hollywood de fazer filmes”, disse a atriz ao Entertainment Tonight. “Quantos filmes com atores negros são produzidos por ano? Como eles são distribuídos? Esses filmes que estão sendo feitos com grandes produtores, eles pensam fora da caixinha em termos de como escalar os papéis? Você pode escalar uma mulher negra ou um homem negro para determinado papel? A Academia até pode mudar, mas se não existirem mais filmes com elencos negros sendo produzidos, quem eles vão indicar?”

E Viola tem razão ao fazer tal afirmação. O problema de diversidade dentro do Oscar (77% dos membros são brancos e 94% são homens) é apenas a ponta do iceberg de um problema muito maior na indústria cinematográfica como um todo. No ano passado, um estudo revelou que as mulheres ficam com apenas 30% dos papéis em Hollywood, percentual que fica ainda menor quando levado em consideração a raça e a idade da atriz, por exemplo. Negros representam somente 12,5% dos personagens, enquanto latinos são 4,9%. No que diz respeito aos LGBTs, ainda existem poucas oportunidades para esse grupo, que em 2014 não viu qualquer personagem transexual representado entre as 100 maiores produções daquele ano.

Atrás das câmeras, os números também decepcionam. No que diz respeito a gênero, mulheres possuem pouco espaço nos cargos de direção, roteiro e produção. Em 88 anos de Oscar, Kathryn Bigelow foi a primeira e única mulher a ganhar a estatueta dourada por seu trabalho como diretora. Não é à toa que uma agência federal americana começou uma investigação em Hollywood para averiguar a baixa contratação das mulheres nos cargos de direção. A indústria toda precisa mudar.

E talvez muita gente esteja de saco cheio de ouvir essa discussão sobre diversidade, mas é importante reforçar a importância dela. Se alienígenas viessem à Terra e quisessem estudar a humanidade através dos filmes (ou os livros de história), eles achariam que só há homens brancos heterossexuais e cisgêneros por aqui. Ou, pelo menos, achariam que eles compõe uma esmagadora maioria no planeta. Porém, vale lembrar que as mulheres são metade da população mundial. Então, como elas são apenas 30% dos personagens no cinema, por exemplo?

A humanidade não é um grupo de pessoas homogêneo; pelo contrário. Há homens, mulheres, negros, asiáticos, latinos, índios, gordos, magros, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, pessoas com deficiência e mais uma infinidade de indivíduos com vidas e perspectivas diferentes. Infelizmente, mal vemos essas histórias nos filmes que assistimos no cinema ou na televisão, o que é um reflexo da exclusão social dos grupos minoritários. A arte imita a vida, porém, não é permitido a todas as vidas uma representação de sua existência.

A diversidade na mídia importa, pois representatividade importa. “Ser representada é ser humanizada”, disse Kerry Washington num discurso feito em um evento, no ano passado. “Enquanto houver alguém em algum canto sentindo-se menos humano, nossa própria definição de ‘humanidade’ está comprometida e estaremos todos vulneráveis. Precisamos enxergar o outro, todos nós, e precisamos enxergar a nós mesmos. No mundo real, ser o ‘outro’ é a norma. No mundo real, o normal é ser singular, e a mídia precisa refletir isso.”

A mídia deve refletir o que o mundo é: diversificado, repleto de pessoas diferentes, com pontos de vista diferentes e de origens diferentes. Por isso é impressionante estarmos em 2016 e continuarmos pedindo por diversidade e que as produções reflitam o mundo em que vivemos. Shonda Rhimes, criadora de séries como “Scandal” e “Grey’s Anatomy”, é conhecida por contar histórias diversificadas, cujos personagens oferecem novas perspectivas do ser humano, a partir de vivências singulares.

“A meta é que todos possam ligar a TV e enxergar alguém que pareça e ame como você”, contou a roteirista em um discurso. “E tão importante quanto, todo mundo mundo deveria ligar a TV e ver alguém que não é como você e não ama do mesmo jeito. Porque, talvez, aprenda algo com aquela pessoa. Talvez não as isole. Não as marginalize ou as apague. Talvez até consiga se reconhecer nelas. Talvez aprenda a amá-las.”

É por isso que a discussão acerca da diversidade do Oscar importa: pois nos faz questionar quais histórias estão sendo contadas e quem estamos valorizando enquanto artistas e seres humanos. A diversidade humana é muito bonita para ser escondida. Com esperança, é o que veremos em breve. Não dá para esperar mais.

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