“Pequenos incêndios por toda parte” acende necessárias discussões sobre maternidade e raça

“Pequenos incêndios por toda parte” abre com sirenes tocando e bombeiros correndo para apagar o fogo que consome uma casa. Em frente a esse cenário caótico está Elena Richardson, dona da propriedade, com um olhar de tristeza e incredulidade. Ela é avisada por um membro da polícia de que as chamas não foram um acidente, mas causadas intencionalmente por alguém, pois como o título da minissérie entrega: havia pequenos incêndios por toda parte. Resta saber quem é o responsável pela tragédia.

Colocado dessa maneira, é fácil imaginar de que se trata de mais uma trama de investigação policial. Porém, a produção exibida no Brasil pela Amazon Prime Video preocupa-se menos em desvendar a identidade do culpado e mais com as faíscas criadas entre os personagens – e como elas levam a grandes desastres.

A minissérie se baseia no livro de mesmo nome, escrito por Celeste Ng, e traz duas personagens distintas nos papeis principais: Elena Richardson (Reese Witherspoon) e Mia Warren (Kerry Washington). Esta última, vale dizer, passou por uma mudança significativa na adaptação: enquanto Mia não tinha uma raça especificada na obra original, na televisão ela é negra; uma mudança que ampliou as discussões envolvendo raça, classe e privilégios apresentadas na obra original.

Para contar essa história, somos transportados para o ano de 1997, em Shaker Heights, uma cidadezinha de Ohio, famosa por ter sido uma das primeiras a integrar brancos e negros nos Estados Unidos – uma iniciativa que se deu em 1956, ainda no início do movimento pelos direitos civis da população negra americana. É lá onde mora Elena Richardson (Reese Witherspoon), uma rica jornalista de meio-período, com seu marido, o advogado Bill (Joshua Jackson), e seus quatro filhos adolescentes.

Elena é uma espécie de cidadã modelo em uma cidade que preza pela organização, planejamento e as boas aparências (em Shaker Heights, a grama não pode crescer demais e o lixo não deve ser deixado na calçada). Dentro de sua própria casa, ela mantém um rigoroso controle sobre a rotina da família e isso inclui em quais dias da semana ela e o marido podem fazer sexo. 

Elena Richardson, personagem interpretada por Reese Witherspoon (Crédito: IMDB)

Diferente de Elena, Mia Warren (Kerry Washington) não possui uma vida regrada e evita criar raízes por onde passa, viajando de cidade em cidade com sua filha Pearl (Lexi Underwood). Mãe solteira, artista e sem muito dinheiro, ela faz bicos para complementar a renda e garantir o melhor que pode para a menina, única pessoa com quem possui uma relação de afeto e proteção. Reservada, Mia também possui um grande segredo em seu passado, do qual ela se esforça para fugir. Na tentativa de não lidar com ele e com suas consequências, ela dirige toda a energia para a arte que produz.

As vidas dessas mulheres distintas se cruzam quando Mia aparece na cidade e aluga um apartamento de Elena. Não demora muito para que os filhos delas se tornem amigos e, aos poucos, as duas mães acabam criando uma grande influência na vida dos adolescentes: ao mesmo tempo em que Pearl sonha em ter uma vida confortável e estável como a de Elena, Izzy (Megan Stott), a caçula dos Richardson, se vê atraída pela independência e pela arte de Mia, com quem desenvolve uma relação de carinho e amizade.

Mia Warren, personagem interpretada por Kerry Washington (Crédito: IMDB)

Contudo, a inimizade entre elas começa quando ambas se envolvem em uma disputa judicial pela custódia de uma criança. Mia é amiga e colega de trabalho de Bebe Chow (Lu Huang), uma imigrante chinesa que se viu obrigada a deixar a filha recém-nascida em um posto de bombeiros por não ter mais recursos para cuidar da menina. Já Elena é amiga de Linda McCullough (Rosemarie DeWitt), a qual está em processo de adoção da garotinha em questão. Dessa maneira, por estarem em lados opostos do conflito, as duas desenvolvem uma forte desavença, que traz complicações para todas as famílias.

E essa disputa entre Mia, Elena, Bebe Chow e Linda traz diferentes perspectivas sobre maternidade. A todo instante, “Pequenos incêndios por toda parte” faz com que o telespectador reflita sobre o que é ser mãe e os sacrifícios que elas fazem para criar seus filhos: nem sempre acertando, mas sempre tentando dar o seu melhor.

Para além da maternidade, a minissérie traz discussões necessárias sobre o racismo e privilégios sociais que se encaixam muito bem à nova era de debates raciais iniciada com a morte de George Floyd, um homem negro, assassinado por policiais nos Estados Unidos. Na produção da Amazon Prime, Elena incorpora muito bem o “cidadão de bem” que, blindado por seus privilégios e com a desculpa de “ter a melhor das intenções”, não percebe o quão ofensivas suas atitudes realmente são.

Mia e Bebe Chow, personagem de Lu Huang (Crédito: IMDB)

E a trilha sonora merece um parágrafo para si: repleta de hits da década de 90, quem cresceu durante o período com certeza vai ter bastante o que relembrar, como “Tubthumping (I get knocked down)”, do Smash Mouth, “Lovefool”, do The Cardigans, ou “Honey”, da Mariah Carey.

Por fim, a produção traz boas atuações: tanto Kerry Washington quanto Reese Witherspoon entregam ótimas performances, ainda que seja difícil não comparar a personagem de Reese com trabalhos antigos da atriz, especialmente a Madeline de “Big Little Lies”. E, aproveitando o espaço, há de se criticar a falta de nuances de Elena, que por vezes é apenas uma mulher irritante e sem qualquer noção de suas atitudes. Já o elenco secundário também se sai muito bem, com destaques para Lexi Underwood, Jade Pettyjohn e Megan Stott, que dão vida a Pearl, Lexi e Izzy, respectivamente.

“Pequenos incêndios por toda parte” possui 8 episódios já disponíveis na Amazon Prime Video.