Os discursos do Emmy Awards

Na noite de ontem (18), foi ao ar o Emmy Awards, um dos prêmios mais importantes da televisão americana. Um dos pontos mais importantes da noite foi o fato da diversidade ter conquistado lugar importante na premiação: foi a primeira vez, em 68 anos de evento, que artistas de minorias étnicas foram indicados em todas as principais categorias de atuação (comédia, drama e minissérie/filme).

No total, dos 73 atores e atrizes indicados, 18 deles (24,6%) eram de minorias étnicas. Embora o número pareça pequeno, já é maior do que os registrados em 2015 (16), 2014 (7) e nos anos anteriores. Ou seja, a edição do Emmy 2016 foi a mais diversa de toda sua história.

O fato não passou despercebido pelo apresentador Jimmy Kimmel, que ficou responsável por ser o mestre de cerimônias da premiação. Em seu monólogo de abertura, ele fez questão de falar sobre diversidade e ainda aproveitou para cutucar o Oscar. Para quem não se lembra, pelo segundo ano consecutivo, o prêmio mais importante do cinema americano deixou de indicar atores e atrizes de minorias étnicas nas categorias de atuação, o que trouxe a hashtag #OscarsSoWhite para 2016.

“Felizmente para todos aqui, há mais atrações, mais papéis e mais diversidade do que nunca”, começou Kimmel. “Os indicados deste ano são os mais diversos da história. E se há uma coisa que nós valorizamos mais do que a diversidade, é parabenizarmos pelo quanto valorizamos a diversidade”, brincou. “O Oscar está dizendo por aí que somos melhores amigos agora. A propósito, nós não somos”.

Em seguida, a cerimônia teve início. Kate McKinnon, uma das estrelas do humorístico SNL, venceu na categoria ‘Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Comédia”. Muito emocionada, a atriz  brincou com a situação, dizendo que suas lágrimas eram de verdade e não estava interpretando. Ela agradeceu à equipe do SNL, à candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, que já foi uma das muitas pessoas que McKinnon já personificou, e lembrou de sua família e seu falecido pai.

“Pessoalmente, agradeço às minhas lindas e engraçadas mãe e irmã. Ao meu pai: ele não está mais aqui conosco, mas ele me fez começar a assistir ao SNL quando eu tinha 12 anos. Eu te amo e sinto sua falta, pai”.

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Quem mais lembrou de seu pai foi a atriz Julia Louis-Dreyfus, que ganhou seu quinto Emmy consecutivo por seu papel como Selena Meyer, na série “Veep”. No palco, ela pediu desculpas pelo “atual clima político”, fazendo uma referência ao seriado em que trabalha e ao candidato à presidência dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump.

“Eu gostaria de aproveitar a oportunidade para pedir desculpas, pessoalmente, pelo atual clima político. Acho que ‘Veep’ destruiu o muro entre comédia e política. Nosso seriado começou como uma sátira política, mas agora parece mais com um documentário. Por isso, eu prometo reconstruir aquele muro e farei com que o México pague por ele”, brincou. “Por fim, gostaria de dedicar esse prêmio para o meu pai, Willie Louis Dreyfus”, disse Julia completamente emocionada. “Ele morreu na última sexta-feira. E eu fico feliz que ele tenha gostado de ‘Veep’, porque a opinião dele era a única que importava de verdade”.

https://www.youtube.com/watch?v=DaCLhIaqimY

Um dos discursos mais fortes da noite foi de Jill Soloway, diretora da série “Transparent”, cuja atração conta a história de uma mulher trans que decide fazer sua transição na terceira idade. Ela agradeceu à comunidade transgênera e pediu para a todos para que “tombem o patriarcado”.

“Eu sempre quis fazer parte de um movimento: o movimento de direitos civis, o movimento feminista”, disse. “Esse seriado me permite levar meus sonhos sobre judeus desagradáveis, LGBTs, pessoas trans, e torná-los heróis. Obrigada à comunidade trans por suas vidas. Precisamos parar a violência contra mulheres trans e tombar o patriarcado. Tombem o patriarcado”.

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Quem mais falou sobre visibilidade trans foi o ator Jeffrey Tambor, que vive a personagem trans Maura no seriado de Jill Soloway. O artista pediu mais oportunidades para mulheres trans, ao mesmo tempo em que ele está no papel de uma. Contudo, ele fez um comentário sobre a situação enquanto pegava o prêmio de ‘Melhor Ator em Série de Comédia’.

“Por favor, deem uma chance para talentos transgêneros. Deem audições a eles, deem histórias a eles”, comentou Tambor. “E mais uma coisa: eu não ficaria infeliz se eu fosse o último homem cisgênero a interpretar uma mulher trans na televisão. Temos trabalho a fazer”.

https://www.youtube.com/watch?v=nreWrgxEoHo

E embora seja bonito o gesto do ator, o pedido feito pela atriz trans Laverne Cox, que interpreta uma das detentas da série “Orange Is The New Black”, foi muito mais autêntico. Antes de apresentar um dos prêmios, ela disse: “deem uma chance aos talentos trans. Eu não estaria aqui, nesta noite, se não fosse me dada uma chance”.

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Também houve discursos sobre diversidade racial. Aziz Ansari e Alan Yang, que levaram para casa o prêmio de ‘Melhor Roteiro em Série de Comédia’, pediram uma maior representação de asiáticos na televisão. Um estudo recente feito pela Universidade do Sul da Califórnia, revelou que 51% das obras de cinema e televisão não possuem qualquer personagem asiático.

“Há 17 milhões de asiáticos-americanos nesse país, [assim como] há 17 milhões de italianos”, começou Yang. “Eles têm ‘O Poderoso Chefão’, ‘Os Bons Companheiros’, ‘Rocky’, ‘The Sopranos’, nós temos o [personagem] Long Duk Cong. Nós temos um longo caminho pela frente, mas sei que chegaremos lá. Acredito na gente, só vamos precisar trabalhar duro. Aos pais asiáticos, se vocês puderem me fazer um favor, pelo menos alguns de vocês: deem câmeras aos seus filhos ao invés de violinos. Aí ficaremos bem”.

Leslie Jones, apesar de não ter sido indicada, também subiu ao palco do Emmy para falar publicamente sobre o ataque de um hacker em sua conta do Twitter e em seu site. Durante o momento em que os membros da Academia explicam como mantêm os resultados da premiação em segredo, ela aproveitou o momento para criticar o que lhe aconteceu nas últimas semanas.

“Vocês estão protegendo algo que ninguém quer roubar. Ninguém quer saber dos segredos entediantes do Emmy. Mas já que vocês são bons em manter as coisas seguras, eu tenho um trabalho para vocês: minha conta do Twitter. Coloquem-na no cofre. Vocês estão usando suas habilidades para proteger o narrador de um site francês. Enquanto isso, eu estou com a bunda de fora na CNN”, disse a atriz, que teve fotos suas nuas vazadas na internet. “Eu só queria me sentir bonita. Uma mulher não pode se sentir bonita?”

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De volta à cerimônia, Regina King, Sterling K. Brown, Courtney B. Vance foram os artistas negros que levaram prêmios por suas atuações em “American Crime” e “The People vs O.J. Simpson: American Crime Story”, respectivamente. Foi a segunda vez consecutiva que Regina ganha o Emmy. Ela foi acompanhada de sua mãe à premiação, e dedicou a ela sua vitória.

“Isso é fantástico. Tenho orgulho dessa série e de fazer parte dela. Mãe, que benção eu tenho por dividir isso com minha mãe, minha maravilhosa e linda mãe”.

Quem também saiu vitorioso foi Rami Malek, por sua atuação em “Mr. Robot”. Ele, que descende de egípcios, pegou seu prêmio e imitou seu personagem na série em que atua, dizendo “por favor, digam-me que estão vendo isso também”. Foi a primeira vez que o ator ganhou um Emmy, e após a cerimônia, ele fez um pedido para que fossem dados mais oportunidades a pessoas de minorias étnicas.

“Estar aqui, como um nada típico protagonista, e levar para casa isso [o Emmy]… Isso diz muito sobre para onde estamos caminhando. Acho que podemos continuar a ir longe nessa direção, não só no entretenimento, mas socialmente e politicamente, e lutar para que possamos ser mais progressistas”, contou no bastidores da premiação. “Eu quero que todos, não importa como você cresceu, ou qual seja sua posição sociopolítica, quero que você tenha uma oportunidade para que não fique sufocado nessa época do mundo, e para que lhe sejam dadas as chances, assim como elas foram dadas a mim”.

Sarah Paulson, após ser indicada 7 vezes ao Emmy, finalmente saiu vencedora. Reconhecida por sua atuação como Marcia Clark em “The People vs. O.J. Simpson: American Crime Story”, ela pediu desculpas à promotora de justiça (a história da série na qual atuou é real), a qual ela levou à premiação.

“A responsabilidade de interpretar uma pessoa real é enorme. Você quer fazer certo; não por você, mas por ela. Quanto mais aprendia sobre a verdadeira Marcia Clark – não a mulher superficial que vi nas notícias, mas sim a mulher complicada, inteligentíssima de coração enorme e mãe de dois filhos que acordava todos os dias, se levantava e se dedicava a corrigir um erro injusto: a perda de dois inocentes, Ron Goldman e Nicole Brown – , mais eu tinha que reconhecer que eu, junto do resto do mundo, fui superficial e displicente em meu juízo, e eu estou feliz em subir aqui na frente de todo mundo e pedir desculpas a você.”

E Tatiana Maslany, protagonista de “Orphan Black”, foi uma das surpresas do Emmy deste ano. Emocionada, a atriz que interpreta vários clones, levou seu celular para fazer o discurso, e concluiu afirmando ter sorte por estar em um seriado que “coloca as mulheres no centro da narrativa”.

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