Os 20 anos do Jagged Little Pill

Essa semana o Jagged Little Pill, emblemático álbum de estreia da cantora canadense Alanis Morissette, completa 20 anos. Mas o que fez com que o disco se tornasse uma referência no mundo da música? E de que forma ele continua relevante hoje? O Prosa Livre, representado aqui por um humilde colaborador apaixonado pela cantora, sugere algumas pistas para responder a essas perguntas.

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Era 1994. Kurt Cobain acabava de morrer, e o grunge, estilo que ele ajudou a disseminar, ia pelo mesmo caminho. O rock estava duplamente órfão. Por outro lado, a MTV abria as portas para a música alternativa como nunca antes – e como nunca depois. Era cada vez mais comum artistas e bandas femininas se dissociarem do universo masculino (seja na estética, no visual, nos temas das composições) e ganharem seu espaço, assumindo uma postura própria na cena musical da época. Foi no meio desse cenário que Alanis Morissette chegava a Los Angeles, onde conheceu Glen Ballard, produtor do que seria seu primeiro álbum fora do Canadá (a cantora tinha tido uma breve carreira na música pop na adolescência).

Os dois trabalharam juntos na gravação do disco, compondo músicas em pouquíssimo tempo, quase que em um fluxo de consciência. Quase tudo o que foi criado está no disco, em versões que são praticamente as próprias demos gravadas naquele ano. Alanis conta que muitas das canções foram escritas em menos de 20 minutos, e que ela própria não se lembrava de ter escrito as músicas quando as ouvia no dia seguinte. Essa espontaneidade impressa nas composições chamou a atenção da Maverick, gravadora fundada pela cantora Madonna e que assinaria contrato para o lançamento do disco. “Essa garota pode ser o Bob Dylan da sua geração”, chegou a dizer um dos empresários da gravadora.

Exagero ou não, fato é que as letras confessionais e a musicalidade simples e direta, somadas ao contexto da cena musical da época, ajudam a explicar um pouco o sucesso do álbum, lançado em junho de 1995.

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Capa do Jagged Little Pill, e dos singles de You Oughta Know e Head Over Feet

E apesar da unidade do disco como um todo, os temas das canções são bastante variados. Em You Oughta Know, primeiro e maior hit do disco, Alanis fala sobre o doloroso fim de um relacionamento, num misto de raiva e fragilidade: “Does she know how you told me you’d hold me until you die? But you’re still alive and I’m here” (“Ela sabe que você disse que estaria comigo até morrer? Mas você continua vivo, e eu estou aqui”). Em You Learn, é o autoconhecimento em diferentes níveis que está em pauta. Hand In My Pocket é sobre amadurecer. Perfect questiona o peso das expectativas: “We’ll love you just the way you are, if you’re perfect” (“Vamos amar você do jeito que você é, se você for perfeito”). Forgiven é uma crítica sincera à criação religiosa da própria Alanis: “I never forgot it, confusing as it was: no fun with no guilt feelings” (“Eu nunca me esqueci, por mais confuso que fosse: sem diversão se não houver sentimento de culpa”). Head Over Feet, a mais romântica do álbum, também tem uma carga de honestidade bem característica da cantora. E Ironic… Bem, Ironic se explica com seus últimos versos: “life has a funny way of sneaking up on you, and life has a funny way of helping you out” (“a vida tem um jeito engraçado de aprontar com você, e um jeito engraçado de te ajudar”).

De modo geral, todas as letras expressavam questões pessoais da cantora, ao mesmo tempo em que dialogavam diretamente com quem as ouvia. Está aí talvez o maior mérito de Alanis Morissette nesse disco, e em toda sua carreira: sua forma de tornar uma expressão íntima algo universal, que qualquer um pode tomar para si.

Não é à toa que, apesar da imagem de garota angustiada e rebelde, com os cabelos longos e bagunçados, Alanis atingiu uma variedade imensa de público, que ia dos ouvintes da música pop de rádio aos fãs de música alternativa. Não por acaso também, o Jagged Little Pill se tornou o disco de estreia mais vendido de todos os tempos por uma cantora, e abriu caminho para outras que também queriam um lugar na música em que pudessem expressar suas mágoas, sua raiva, suas inseguranças. Alanis havia inaugurado um espaço e um estilo de composição para as mulheres no cenário musical, e muitas cantoras depois dela tiveram essa influência direta ou indireta.

Mas, afinal, o que o Jagged Little Pill tem a nos dizer hoje, 20 anos depois do seu lançamento? Apesar de suas letras atemporais continuarem dialogando com quem as ouve, é certo dizer que ele ainda é uma influência para novos artistas e para o cenário musical atual?

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Muita coisa mudou, os tempos são outros, e por isso fica difícil afirmar. Apesar da inegável influência do disco para alguns artistas e bandas que vieram depois dele, não devemos esperar que outro Jagged Little Pill apareça por ai. A própria cantora se recusou a responder à essa expectativa com o lançamento de seu segundo disco (Supposed Former Infatuation Junkie, de 1998), bastante diferente do Jagged Little Pill em muitos aspectos, mas nem por isso menos relevante e até mesmo essencial.

É muito provável que seja exatamente esse caráter único que tenha legitimado o álbum e o feito figurar diversas listas e se tornar referência até hoje. Duas décadas depois do lançamento, essa “pilulazinha amarga”, resultado da expressão simples e direta dos sentimentos de uma jovem artista de então 20 anos de idade, já pode ser considerado um clássico indiscutível. Desses essenciais para qualquer um que goste de música.

Então, aproveita a ocasião e corre lá pra ouvir!

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