O racismo dentro da comunidade gay precisa ser mais conversado

Há poucos meses, o ator Ícaro Silva, em uma live no Instagram com o colega de profissão Hugo Bonemer, fez um desabafo.

“Eu, como menino viado preto, vou falar para vocês, meninos bichas brancas: parem de hipersexualizar nossos corpos! Sacou? Parem de achar que a gente é o negão que vai satisfazer os seus desejos. Olhem para a nossa afetividade”, pediu o artista.

Meses depois, temos um exemplo prático que ilustra o comentário de Ícaro.

É que nesta semana, uma entrevista do influenciador Gustavo Rocha para o canal no Youtube do apresentador Matheus Mazzafera, acabou repercutindo no Twitter. Isso porque, no vídeo, Gustavo e Matheus relatam por quais homens sentem atração física.

“Maloca. Tatuado. Quanto mais estragado, melhor. Para namorar, não. Mas os que eu sinto atração sempre são os ‘maloca tatuado'”, fala. Matheus emenda dizendo que se tivesse que “desenhar, eu gosto dos tatuados. Meu ex é loiro, branquinho. Eu pago minha língua. Se eu fosse escolher, eu vou escolher alguém tipo Livinho, Dom Juan, Mc Kevin. Só que daí eu acabo namorando o Luciano Huck”.

Tudo é dito em meio a risadas, o que deixa claro que, até então, ambos não faziam ideia do problema por trás do que haviam dito. Contudo, as falas foram recebidas de forma negativa nas redes sociais e Gustavo e Matheus chegaram a pedir desculpas.

A atitude de reconhecer o erro é importante, mas é preciso conversar mais sobre racismo na comunidade gay, especialmente porque muitos gays tentam justificar a atração por um grupo de pessoas como sendo apenas uma “questão de gosto”. E tanto dentro quanto fora da comunidade, há também quem acredite ser impossível ter algum preconceito quando se faz parte de um grupo oprimido. Não só é possível como é uma realidade.

E antes de adentrar no racismo, é triste que tenhamos incorporado e estejamos reproduzindo o pensamento misógino de homens héteros de que haveria mulheres “para pegar” e mulheres “para namorar”. Enquanto as primeiras seriam mulheres trans, gordas e negras, com quem esses homens se envolvem no sigilo, longe do olhar de qualquer pessoa, as outras, “eleitas” por eles para namorar, apresentar aos pais e casar seriam as mulheres dentro dos padrões: magras, cisgêneras e, na maioria das vezes, brancas. E os gays têm feito a mesma coisa, apenas trocando os gêneros das pessoas.

Na comunidade gay, esse comportamento de selecionar com quem se relacionar se reproduz da mesma maneira. Os “malocas”, uma gíria para os caras da periferia, são os caras para se dar uns pegas, realizar fantasias e fetiches, mas não para se relacionar de maneira séria – como Gustavo e Matheus apontam em suas falas. E os comentários elitistas dos dois ganham uma camada de racismo quando os rapazes dão exemplos desses “malocas”: todos são homens negros.

Essa “predileção” tem tudo a ver com a animalização dos corpos negros, algo que acontece desde os tempos da escravidão, quando esses homens eram escolhidos pela força e descritos por brancos como sendo violentos, primitivos e sexuais. Esses estereótipos estão enraizados até hoje no imaginário coletivo, que recebeu um reforço da mídia ao longo das décadas, já que, por muito tempo, foi dado ao negro, seja na publicidade, nas revistas, séries ou filmes, as situações ou papéis vexatórios e estereotipados.

O pornô também tem participação nisso, já que até hoje promove a imagem no negro dotado, másculo, ativo e insaciável. E como os filmes eróticos têm grande participação na formação sexual de muitas pessoas, não é de se espantar que vários gays tenham e perpetuem essa visão deturpada sobre os homens negros.

E nos aplicativos de relacionamentos, como o Grindr, que facilita encontros casuais, é possível ver essa lógica aplicada na prática, além de outro problema. Enquanto é possível encontrar com facilidade perfis que buscam sexo apenas com negros, também é possível encontrar pessoas que descartem qualquer envolvimento com essas pessoas, assim como evitam o contato com homens trans, pessoas gordas e/ou afeminadas (recentemente, após reclamações, o Grindr decidiu banir a busca de usuários por etnia). E tudo isso sob a famosa e velha justificativa da “questão de gosto”.

É passada a hora de repensarmos essa desculpa de “questão de gosto”, uma vez que nossos gostos não são criados do vácuo, mas formados a partir da forma com a qual fomos socializados. Se existimos em uma sociedade que é racista, machista, capacitista, gordofóbica e transfóbica, por exemplo, isso tudo provavelmente será refletido na maneira com a qual nos relacionamos e com quem nos relacionamos. É preciso repensar a quem é dirigido nossos desejos, nossos afetos e os motivos por trás deles.

E isso não quer dizer que eu esteja obrigado você a ficar com todo mundo ou que você não possa ter suas preferências. Esse é apenas um convite à reflexão: se as pessoas com as quais você se relaciona são exclusivamente parecidas com você (brancas, magras e cisgêneras), é interessante pensar em quando e como isso aconteceu. Afinal, se você se recusa a se envolver com todo um grupo de pessoas, seu gosto é, sim, preconceito.

O mesmo convite à reflexão vale para quem prefere dar uns pegas com um grupo específico de pessoas (provavelmente no sigilo, o que torna a situação pior), como é o caso do Gustavo Rocha e do Matheus Mazzafera. Se você é incapaz de dirigir seu afeto a um grupo de pessoas para as quais você tem apenas um interesse sexual, seu gosto é, também, preconceito.

E nós precisamos falar disso cada vez mais, pois essa exclusão afetiva é um dos sintomas do racismo, um problema com impacto real na saúde mental da população negra. O seu “gosto pessoal” pode estar adoecendo e matando pessoas. Pense nisso.