O que os artistas estão dizendo sobre o fim do Ministério da Cultura

  16. maio 2016   POP   0

[ATUALIZADO: 22/5/2016]: O presidente em exercício, Michel Temer, decidiu recriar o Ministério da Cultura, que será chefiado por Marcelo Calero, que havia sido nomeado secretário da pasta na última quarta-feira (18).

Desde que assumiu, interinamente, a presidência do Brasil, Michel Temer tem sido muito criticado por ter extinguido o Ministério da Cultura (MinC), que  foi incorporado à Educação, tornando-se Ministério da Educação e Cultura (MEC), comandado agora por José Mendonça Bezerra Filho, do Democratas (DEM). Obviamente, as reclamações ainda recaem sobre a falta de mulheres e negros entre os ministros escolhidos pelo presidente em exercício, além do fato de que alguns deles são investigados por envolvimento em esquemas de corrupção.

O Ministério da Cultura foi criado pelo então presidente, José Sarney, em 1985. A partir daí, ele passou por diversas mudanças, sendo transformado em Secretaria da Cultura durante o governo de Fernando Collor de Mello (foi nessa época em que foi criada a Lei de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet), voltando a ser Ministério em 1992, com Itamar Franco. Com Fernando Henrique Cardoso, foi reorganizado e ganhou novos investimentos. A partir do governo de Lula, o MinC foi reestruturado e começou a desenvolver políticas culturais. Com Dilma Rousseff, segundo reportagem do El País, os investimentos na área diminuíram. Agora, com Michel Temer, o Ministério da Cultura está extinto.

A atitude gerou uma onda de revoltas e protestos pela classe artística brasileira, que vê no gesto um ‘desinteresse’ do presidente em exercício com a cultura nacional, além de argumentarem que fundir a pasta com a Educação pode ser prejudicial a ambas, uma vez que as duas precisam de atenção e investimentos. Há, inclusive, um abaixo-assinado pedindo a volta do Ministério da Cultura.

Confira abaixo o que os artistas brasileiros têm a dizer sobre o fim do MinC:

Caetano Veloso – cantor:

“Eu, neste primeiro momento do governo Michel Temer, só tenho mesmo é uma grande queixa a fazer: a extinção do MinC é ato retrógrado. Depois de já haver, oportunisticamente, desistido de diminuir o número de ministérios, Temer, premido pela má repercussão da notícia, voltou a fazer o que a maioria dos brasileiros, acertadamente, quer: enxugar a máquina administrativa, na crença de que, assim, faz economia e livra-se do toma-lá-dá-cá. Na verdade, o peso econômico é pífio e as escolhas dos novos ministros não apontam para um critério técnico e meritocrático. Seria uma beleza se um presidente peemedebista nos livrasse do vício da distribuição ‘política’ de cargos. Mas nossa oficialidade não vive de belezas.”

Via O Globo.

Carlinhos Brown – cantor:

Durante show de reabertura do Teatro Concha Acústica em Salvador, Carlinhos Brown disse:

“Eu sou semianalfabeto, se não fosse a cultura, eu continuaria a ser. Seu Michel, quem não deve, não teme. Devolva o Ministério da Cultura.”

Em seguida, o público presente gritou: “Fora, Temer”.

“Tá ouvindo, seu Michel? Tão mandando um recado pro senhor”, acrescentou Brown.

Segundo o Bahia Toda Hora, o cantor ainda disse:

“Aqui é um país de democracia, minha opinião sobre [a extinção do] Ministério da Cultura é que é um tiro no pé. Nós estamos unânimes quanto a isso. Meu Brasil está intacto em meu coração, na forma de ser e na forma de respeitar as pessoas. Espero que todos cheguem a um caminho bonito, mas a democracia está pedindo um Ministério da Cultura.”

Wagner Moura – ator:

“Já era de se esperar. Tem havido um movimento desonesto de convencimento público da desimportância da cultura e da criminalização dos artistas que fazem uso da Lei Rouanet (que contraditoriamente é uma lei de viés neoliberal que estava sendo revista pelo MinC). A ideia de que o MinC e as leis de incentivo à Cultura não passam de uma maneira do governo sustentar artista vagabundo e comprar seu apoio político ganhou extraordinária e surpreendente aceitação popular. E como nos momentos de crise a cultura é a primeira que roda, o fim do MinC, sob a ótica do Estado enxuto e sob o entendimento popular de que artistas não passam de vagabundos que mamam nas tetas do Estado, infelizmente, não é uma surpresa. E a tendência é piorar.”

Via O Globo.

Karina Buhr – cantora:

“Recebi alguns emails com pedido de assinatura em petições contra o fim do Minc, ‪#‎ficaminc‬ e tal.
Sim, é uma aberração o Brasil sem Ministério da Cultura, estou também transtornada com isso. Medida escrota, apoiada por uma elite burra que vai pra Paris tirar foto no Louvre e aplaude seu próprio país sem ministério da cultura.
Aí deu vontade de falar porque não vou assinar nenhuma delas. Não reconheço esse governo, não reconheço Michel Temer como presidente do Brasil, então não faz sentido pra mim assinar algo desse tipo, endereçar nada a ele reivindicando algo.
Reivindico que ele saia. O que faz sentido pra mim é assinar, gritar, desenhar, escrever, explodir…pra tirar ele da cadeira que ele tá sentado.
Junto com a cultura foram as mulheres, a igualdade racial, os direitos humanos e minha força vai pra tudo isso junto.
‪#‎foratemer‬

Via Facebook.

Maria Gadú – cantora:

“doze de maio de dois mil e dezesseis. o absurdo se instala. muito triste. muito.”

Via Facebook.

Marina Person – cineasta:

Anna Muylaert – cineasta:

“Em primeiro lugar, estou em estado de choque com tudo o que está acontecendo. O afastamento (da Dilma) é de 180 dias, o Michel Temer é um presidente interino. Acho ousado ele estar com essas transformações ministeriais todas prontas. No mínimo, deveria deixar a cadeira esfriar. Agora, as consequências dessa fusão depende de como o ministro vai pensar. Uma avaliação, neste momento, é algo prematuro. Porém, Educação e Cultura são coisas tão diferentes que, a princípio, me parece um retrocesso. Educação lida com formação, e Cultura tem relação com o povo, cultura mesmo. Olho com maus olhos.

Via O Globo.

Daniel Galera – escritor:

“Fundir o Ministério de Educação com o da Cultura dá sinal de que não se quer resolver os problemas de ambas as áreas, e sim que elas são consideradas secundárias. O corte do MinC mostra a visão da cultura como uma coisa acessória, um penduricalho.”

Via Zero Hora.

A Associação Procure Saber e do GAP e o Grupo de Ação Parlamentar Pró- Música escreveram uma carta aberta ao Presidente em exercício, Michel Temer. Para lê-la na íntegra, clique aqui:

“A Cultura é a criação do futuro e a preservação do passado. Sem a promoção e a proteção da nossa Cultura, através de um ministério que com ela se identifique e a ela se dedique, o Brasil fechará as cortinas de um grandioso palco aberto para o mundo. Se o MinC perde seu status e fica submetido a um ministério que tem outra centralidade, que, aliás, não é fácil de ser atendida, corre-se o risco de jogar fora toda uma expertise que se desenvolveu nele a respeito de, entre outras coisas, regulação de direito autoral, legislação sobre vários aspectos da internet (com o reconhecimento e o respeito de organismos internacionais especializados), proteção de patrimônio e apoio às manifestações populares.”

Via Conversa Afiada.

Jorge Mautner – músico e poeta:

“É um golpe contra a cultura. A extinção do ministério mostra bem o desprezo desse governo pela cultura. O que me impressiona, já que o próprio Michel Temer se diz um amante da poesia. Ué, então poesia não é cultura?”

Via Zero Hora.

Maria Adelaide Amaral – dramaturga:

“Considero um retrocesso. Sou favorável à redução de ministérios, mas a Educação já tem problemas demais para um ministro concentrar também a pasta da Cultura. O mais provável é que ela, a Cultura, seja negligenciada.”

Via O Globo.

Roger Moreira – cantor:

“Pra mim, nunca teve diferença. Nunca dependi do governo para tocar ou me interessar por cultura. O povo tem muito essa coisa de o governo precisar fazer tudo. Eu sou a favor de um Estado mínimo, não tem por que a cultura ser dessa forma. A pessoa tem que ter um trabalho competitivo, de qualidade. Quanto à fusão com o Ministério de Educação, tá certo, cultura e educação são a mesma coisa.”

Via Zero Hora.

Paulo Ricardo – músico:

“Eu estou aqui absorvendo todas essas ações. Acho chocante já haver tantas decisões nesse primeiro momento. Já é bastante chocante, ainda é um governo interino. Acho difícil comentar qualquer assunto de um governo que considero ilegítimo. É prematuro fazer um julgamento porque não sei exatamente o que eles estão pensando. Cultura e educação são coisas completamente diferentes, se embolar uma com a outra, as duas saem perdendo. Acho nocivo, a princípio, um retrocesso. Esse papo de ‘artistas mamando na teta’ é um equívoco enorme, não entendo. É ofensivo. Por enquanto qualquer opinião é incompleta, mas não vejo com bons olhos.”

Via Estadão.

João Barone – baterista do Paralamas do Sucesso:

“O Brasil, infelizmente, tem essa condição terrível de precisar desse insumos governamentais para a cultura. E, na verdade, a educação é que precisa muito mais do que além dessa merreca que acabam dando para a cultura. Se pararmos para analisar, a educação precisa de mais insumos, mesmo. A gente viveu durante esse período de vacas gordas uma certa ilusão de que a cultura seria levada a um outro patamar. Acho que fica todo mundo com pé atrás de que essas pequenas conquistas sejam melindradas com essa nova realidade. Espero que as discussões continuem e os avanços que foram feitos na cultura sejam mantidos.”

Via Estadão.

Eduardo Saron – diretor do Itaú Cultural:

“Se a fusão contribuir para o incremento dos recursos da Cultura, cujo orçamento é equivalente ao de 2008, acho positivo. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio, pois a Educação sempre teve recursos mais expressivos. Nossos governantes têm de considerar que a cultura precisa se tornar central nas políticas públicas.”

Via Zero Hora.

Camila Pitanga – atriz:

“Parte da tragédia política por que passamos, estou cá me referindo à traição da democracia através do golpe, ainda não havia sido plenamente consumada. Nem mesmo vivíamos em um país cujo retrocesso se materializa, entre tantas outras coisas, no desmantelamento do Ministério da Cultura e na ausência de mulheres e minorias na composição do novo ministério.

Ninguém me convence que colocar uma pessoa do DEM para assumir um ministério híbrido em cultura e educação foi para valorizar qualquer dos dois fundamentais alicerces de desenvolvimento nacional e preservação, valorização, da nossa história.”

Via Facebook.

Fernanda Montenegro – atriz:

“Isso é uma tragédia, e o presidente interino vai pagar um preço alto por essa pouca visão. É um ministério de orçamento miserável, mas a cultura é a base de um país. Enquanto esse governo interino do Temer existir na atual conjuntura, vai passar por um protesto violento. E eu estou nesse protesto.”

Via UOL.

Taís Araújo – atriz:

“Quer que eu fale mesmo? Uma merda, né, gente? Cultura é a identidade do país. Um país que não tem sua identidade fortalecida acabou. A gente não está falando só de atores, está falando da orquestra sinfônica, da música, da arquitetura, de tudo que representa um país. Não é só atores, não é lei Rouanet, é muito maior. Se o país abre mão de sua identidade, realmente, o que seremos? Estamos indo por um caminho deprimente.”

Via UOL.

Paulo Miklos – músico:

“Acho que é uma tristeza, é um retrocesso. Só um país que não tem uma visão estratégica, de que a cultura é uma das coisas mais importantes, mais importante do que canhão, do que bala, vai ter uma visão tão rasa das coisas. A cultura é uma grande arma, é um grande tesouro da identidade do povo, da gente desenvolver a nossa história, da gente cultivar a nossa memória. Tem tanta coisa para ser preservada, isso não pode ficar nas mãos do mercado simplesmente. Tem que ter um olhar importante para isso. Acho que é um grande erro, uma grande engando, infelizmente.”

Via UOL.

Regina Duarte – atriz:

“Se o país está ’em coma’, não entendo a insistência no autoengano de achar que a Cultura pode se safar, sadia, do desconserto geral que nos abateu. A teoria é linda, a prática é outra (dolorida). Sou a favor da ideia de manter a Cultura internada no ‘hospital’ da educação. Depois da possibilidade de ‘alta’, vamos ver o que pode ser melhor pra ela e para todos nós, brasileiros.”

Via Folha de São Paulo.

Alcione – cantora:

“Não podia nem ter havido a possibilidade e não existir Ministério da Cultura. Somos um país continental com uma diversidade muito grande de cultura que comporta um ministério, e não uma secretaria. Vamos parar com esse vacilo, é Ministério da Cultura. Graças a Deus que eles pensaram bem agora.”

Via G1.


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