O que faz de alguém um ícone gay?

  21. julho 2016   POP   1

Pergunta honesta: o que faz de alguém um ícone gay?

Essa foi uma dúvida que eu tive recentemente ao tentar escrever um post sobre celebridades que são considerados ícones gays, mas acabei desistindo por não saber com exatidão o que faz de alguém um ícone.

Segundo Deron Dalton, do Huffington Post, “um ícone gay é uma celebridade ou pessoa pública que é abraçada pela comunidade LGBT. Para alcançar o status de ícone gay, é preciso que a pessoa se relacione conosco através da extravagância, força, triunfo sobre as adversidades, glamour e até androginia. Divas com vozes poderosas, hinos gays, personalidades fortes e um estilo inesquecível que daria inveja em uma drag queen provavelmente se tornariam ícones gays”.

A maioria das pessoas que recebe o título são mulheres heterossexuais, como fui percebendo ao tentar fazer uma lista: Madonna, Lady Gaga, Diana Ross, Gloria Gaynor, Judy Garland, Julie Andrews, Cher, Liza Minelli e outras. Ao ler alguns dos nomes, é provável que você não considere alguma delas como um “ícone”, porque aparentemente, isso varia de pessoa para pessoa, especialmente no que diz respeito às “divas pop” atuais que cada um “cultua”. Obviamente há homens considerados ícones gays: Elton John, Freddie Mercury, David Bowie e Adam Lambert, por exemplo.

Antes de prosseguir, é importante dizer que não existe um jeito de ser gay. Como qualquer grupo de pessoas, nossos gostos e personalidades variam, o que significa que há muitos homossexuais que não dão a mínima para as artistas citadas anteriormente. Elas vêm do universo da música pop, um gênero musical cuja grande maioria dos artistas aceitam e abraçam a comunidade LGBT, mas isso não significa que todos gays gostam do estilo, tampouco das cantoras apresentadas.

Mas, seguindo a definição de Deron Dalton, as mulheres superam (e muito) os homens no que diz respeito sobre ser um ícone gay. Mas por quê? Ao fazer uma busca pela internet, as respostas variam.

“Há vários tipos de ícones gays. Elas parecem ser mulheres que sofreram e vestiram um rosto duro, espirituoso e apaixonado para o mundo”, define Nicholas De Jongh, autor do livro “Homosexuality On Stage”.

“As mulheres são marginalizadas, por isso gays se identificam com elas”, afirmou Heather Love, professora de inglês na Universidade da Pensilvânia, que estuda as relações de gênero e teoria queer.

“Ícones gays são frequentemente pessoas que são celebradas por traços que seriam inaceitáveis socialmente, caso fossem incorporados por gays: sexualidade aflorada e às vezes pouco ortodoxa, interesse em beleza/estilo/moda e artes e artes cênicas, feminilidade não-tradicional, androginia, sensibilidade etc. Obviamente isso não quer dizer que todos os gays têm qualquer ou todas essas qualidades, claro, porém, quando as têm, elas tendem a ser vistas negativamente. Por essa explicação, as divas oferecem uma forma de reclamar esses traços que são socialmente desvalorizados”, escreveu Patrick Bradley, um rapaz gay no site Quora.

“Além de serem (e aqui eu receio pelo clichê) fabulosas, elas também têm seus próprios demônios. Mas, e isso é o diferencial, elas estão envolvidas com a comunidade gay e trabalham para conscientizar e promover a aceitação (não somente a tolerância)“, disse Hayden Manders no Refinery29.

“No fundo, a adoração de divas gays está não na diva em si, mas na experiência homossexual quase universal de ostracismo e insegurança”, acredita Daniel Harris, autor de “The Rise and Fall of Gay Culture”.

Cada definição varia, mas parece ser comum o fato de que as mulheres viveram vidas difíceis, superaram adversidades e abraçaram quem são sem ter vergonha ou pedir desculpas por isso, o que remete à “experiência homossexual quase universal” citada por Daniel Harris.

Pessoalmente falando, eu sempre fui atraído por artistas femininas. Crescer enquanto um jovem homossexual no armário era difícil por vários motivos, mas quando ouvia as músicas da Britney Spears, Beyoncé e Mariah Carey, era como se o mundo ganhasse cores e eu pudesse esquecer, pelo menos temporariamente, toda a dor que eu carregava por não me encaixar em lugar algum. Era como se as canções me transportassem para um lugar seguro de aceitação e entendimento sobre quem eu era.

E acredito que muitos homossexuais podem se relacionar com a minha história e até com as histórias de várias cantoras, como Madonna, um dos maiores ícones gays.

“Eu me sentia extremamente solitária quando criança e adolescente. Tenho que dizer que eu nunca senti que me encaixava nos padrões da escola. […] Isso foi até eu conhecer meu professor de balé, Christopher Flynn, que era gay, e me apresentou para um outro universo de pessoas e disse que seria muito bom para mim. Até que fui pela primeira vez a um club gay e ironicamente me fez sentir que eu era parte de um mundo em que era legal e bacana ser diferente”, disse a Rainha do Pop certa vez.

Além ser um dos maiores nomes da música, Madonna também sempre apoiou os direitos LGBT e sempre se manifesta sobre tragédias e conquistas de gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans.

E isso parece ser fundamental, hoje em dia, para elevar qualquer pessoa ao status de ícone, não somente as divas pop. Quando perguntei no Twitter o que fazia de uma celebridade um ícone gay, muitos falaram das músicas empoderadoras, mas lembraram também do ativismo. Não basta somente fazer música que nos façam dançar ou que ressoem com as nossas experiências, mas é preciso, também, defender LGBTs quando nossos direitos são ameaçados ou quando somos insultados por figuras públicas. É uma forma de retribuir o apoio que recebem de seus fãs, os quais querem mais do que apenas singles para bater cabelo, clipes bem feitos e shows grandiosos.

Eu acredito que seja isso o que torna alguém um ícone gay: não somente trabalhos incríveis ou trajetórias marcadas por superação de adversidades, mas o comprometimento com a nossa luta por direitos, visibilidade e aceitação.

E para você?