Mudanças climáticas, diversidade e abuso sexual: os discursos do Oscar

Aconteceu na noite de ontem a cerimônia de entrega do Oscar, um dos maiores prêmios do cinema, e o momento em que todo o glamour de Hollywood desfila pelas televisões do mundo todo.

E as expectativas para premiação estavam altas, mas não por conta dos indicados (com exceção de Leonardo DiCaprio), e sim por conta da diversidade. Ou melhor, a falta dela. A diversidade tornou-se um assunto caro para a Academia, que deixou de indicar negros e pessoas de outras etnias nas categorias de atuação pelo segundo ano consecutivo.

Cabia ao anfitrião da premiação, o comediante Chris Rock, assegurar que, embora aquela fosse “uma cerimônia para pessoas brancas”, a ferida seria exposta para o mundo todo ver. Os produtores do Oscar fizeram questão ainda de colocar atores e atrizes de diversas etnias para apresentar as categorias, numa tentativa de disfarçar a falta de diversidade entre os indicados, assim como fizeram no ano passado. Entre eles estava Kerry Washington, que optou por ir ao evento para ajudar a promover mudanças na Academia do Oscar.

Como era esperado, Chris Rock falou sobre o #OscarsSoWhite em seu monólogo de abertura, chamando o prêmio de “White People’s Choice Awards” (“Prêmio Escolhido por Pessoas Brancas”). “Se eles indicassem o apresentador, eu nem conseguiria esse trabalho! Vocês estariam vendo o Neil Patrick Harris agora.”

Era nítido o desconforto da plateia presente, que não sabia se podia rir das piadas. O comediante tocou no racismo histórico da Academia (“É a 88ª edição, o que significa que essa história de negros não indicados aconteceu pelo menos outras 71 vezes”) e dos Estados Unidos (“O segmento in memoriam vai destacar os negros baleados por policiais a caminho do cinema”), dizendo que não houve tantos protestos no passado porque “tínhamos coisas reais para protestar naquela época.”

“Talvez você estivesse ocupado demais sendo estuprado e linchado para se importar com quem ganhou o prêmio de melhor fotografia. Quando sua avó está pendurada numa árvore, é difícil se importar com o melhor curta-documentário estrangeiro.”

Dando nomes aos bois, o comediante disse que Hollywood é racista, mas não da forma como estamos acostumados. “Hollywood é racista? Com certeza. Mas é um racismo de irmandade. ‘Gostamos de você, Rhonda, mas você não é Kappa.’ Assim que é Hollywood.”

Por fim, ele ecoou o pedido de Viola Davis no Emmy Awards do ano passado. “Os atores negros querem as mesmas oportunidades. É isso. E não só uma vez. Leo [DiCaprio] tem bons papéis todos anos. Vocês todos conseguem todos os anos. E os atores negros?” Segundo um estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC), negros ficam com apenas 12,5% dos papéis no cinema.

Em seguida, Chris Rock ironizou os indicados nas categorias de atuação ao colocar Whoopi Goldberg, Leslie Jones e Tracy Morgan em cenas dos filmes indicados.

E em uma noite feita para chamar a atenção para o racismo de Hollywood, ver Stacey Dash desejando um feliz “Mês da História Negra” pareceu uma piada de mau gosto. Isso porque a atriz de “As Patricinhas de Beverly Hills” disse recentemente que o boicote ao Oscar era “ridículo” e que era preciso acabar com o “Mês da História Negra”, celebrado em fevereiro.

O machismo da indústria cinematográfica também deu as caras. Jenny Beavan ganhou um Oscar por ‘Melhor Figurino’ em “Mad Max: Estrada da Fúria”, que levou vários prêmios técnicos.

As câmeras da premiação, entretanto, registraram o momento em que ela caminhava até o palco e passava por vários homens – inclusive um emburrado Alejandro G. Iñárritu -, que não aplaudiram a vencedora. Será por causa da aparência da britânica, que não usava um longo vestido, mas uma jaqueta de couro e calças? É difícil imaginá-los tendo a mesma reação caso uma atriz como Jennifer Lawrence tivesse levado o prêmio. Foi muito feio.

Em seu discurso de agradecimento, Jenny pediu mais cuidado com o meio ambiente. “Tenho pensado muito nisso, mas a verdade é que ‘Mad Max’ pode ser terrivelmente profético. Se não formos mais gentis uns com os outros, se não pararmos de poluir nossa atmosfera, sabe, isso pode acontecer.”

Mais cedo, Chris Rock diminuiu a importância do movimento #AskHerMore, que pede aos repórteres que perguntem mais do que os vestidos das mulheres no tapete vermelho (“você não mais pode perguntar o que as mulheres estão vestindo”, disse ele na abertura do evento).

O Oscar ainda teve bons momentos políticos. Lady Gaga fez uma poderosa apresentação da música “Till It Happens To You”, do documentário sobre estupros nas universidades, “The Hunting Ground”. A cantora é uma sobrevivente de violência sexual e levou ao palco outros sobreviventes, alguns com frases como “não é sua culpa” escritas em seus braços.

Sua performance foi introduzida pelo vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que pediu uma união de todos para acabar com a cultura de estupro, lembrando que a culpa pela agressão nunca é da vítima. “Nós devemos e podemos mudar a cultura, para que nenhuma mulher ou homem precisem se perguntar: ‘o que eu fiz?'”

Após a apresentação de Lady Gaga, que levou Rachel McAdams às lágrimas, Brie Larson, vencedora do Oscar de “Melhor Atriz”, abraçou cada uma das sobreviventes levadas ao palco pela cantora pop. Kesha também se manifestou e agradeceu a voz de “Poker Face” por levar uma mensagem tão importante para a premiação. Antes da cerimônia, Gaga escreveu em seu Twitter que pensaria na amiga durante a performance.

https://www.youtube.com/watch?v=ZccLZ3qBYyE

Contudo, quem levou ‘Melhor Canção’ foi Sam Smith, por “Writing’s On The Wall”, do filme “007 Contra Spectre”. Vou ser honesto: é lindo que o cantor tenha orgulho de ser gay e tenha dedicado o prêmio para toda a comunidade LGBT, mas sua música é entediante, feita para um filme de um homem conhecidamente misógino. Ao mesmo tempo, uma mulher trans, Anohni, que concorria na mesma categoria, não foi convidada para se apresentar, e “Till It Happens To You” é sobre violência sexual, um tema tão em voga quanto a diversidade no cinema.

Portanto, Sam Smith não merecia mesmo ganhar na categoria. No mais: ele não foi o primeiro homossexual a levar a estatueta dourada para casa, como ele havia afirmado. Antes do cantor, vieram Elton John, Melissa Ethridge, Stephen Sondheim e Dustin Lance Black.

E no ano passado, tivemos uma edição bem feminista do Oscar, com Patricia Arquette defendendo o direito das mulheres por salários iguais aos dos homens. Em 2016, ela voltou a falar sobre o assunto. Há poucos dias a atriz comentou que perdeu alguns trabalhos após manifestar-se no Oscar, mas no tapete vermelho deste ano ela comemorou as mudanças que seu discurso proporcionou, citando uma lei aprovada na Califórnia e uma professora latina que recebeu um aumento por conta de suas palavras. Contudo, ela adicionou que mulheres latinas e negras não recebem o mesmo que mulheres brancas, e que isso precisa mudar.

A paquistanesa Sharmeen Obaid-Chinoy, vencedora na categoria ‘Melhor Documentário em Curta-Metragem’ por “A Girl In The River: The Price of Forgiveness”, também citou um problema enfrentado pelas mulheres, especificamente em seu país de origem.

Em seu curta, Sharmeen trata das “mortes de honra”, uma punição às mulheres que “abalam” a honra da família. Segundo a diretora, o primeiro-ministro do Paquistão prometeu mudar as leis sobre “mortes de honra”, após assistir ao documentário. “Esse é o poder do cinema.”

Leonardo DiCaprio finalmente levou o Oscar por sua atuação em “O Regresso”, do diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu, premiado na categoria ‘Direção’ pelo segundo ano consecutivo, o que marca o terceiro ano consecutivo de um diretor mexicano ganhando na categoria. Em 2014, Alfonso Cuarón levou o prêmio pelo filme “Gravidade”.

Depois de seus agradecimentos, Iñárritu usou seu momento para falar sobre racismo também. “Há uma fala no filme que diz [Hugo Glass, personagem de Leonardo DiCaprio] para seu filho mestiço: ‘eles não ouvem você, eles apenas veem a cor da sua pele.’ Então, que bela oportunidade nossa geração tem de se libertar de todo preconceito e pensamento arcaico e garantir de uma vez por todas que a cor da pele se torne tão irrelevante quanto o comprimento do nosso cabelo.”

Já Leonardo DiCaprio, que também atua como ativista ambiental, pediu cuidado com o planeta Terra. “‘O Regresso’ era sobre a relação do homem com a natureza, o mundo que nós sentimos coletivamente, em 2015, como o mais quente da história. Nossa produção precisou viajar para a ponta do planeta para achar neve”, contou o ator. “A mudança climática é real. Está acontecendo agora. É a ameaça mais urgente que todas as nossas espécies enfrentam e nós precisamos trabalhar juntos e parar de procrastinar.”

“Precisamos apoiar líderes no mundo que não falam pelos grande poluidores, mas aqueles que falam por toda a humanidade, os povos indígenas, as bilhões de pessoas desprivilegiadas, que serão as mais afetadas por isso. Pelos filhos de nossos filhos e aquelas pessoas cujas vozes foram afogadas pela política da ganância. Eu agradeço a todos por esse prêmio maravilhoso dessa noite. Não vamos tomar por certo esse planeta. Eu, com certeza, não levo essa noite assim.”

Por fim, a equipe de “Spotlight: Segredos Revelados”, vencedor de ‘Melhor Filme’ e ‘Roteiro Original’, subiu ao palco para pegar o prêmio e lembrar das vítimas dos abusos sexuais cometidos por padres da Igreja Católica, cujo tema é o enredo do longa. “Esse filme deu uma voz aos sobreviventes e esse Oscar amplifica essa voz, a qual nós esperamos que seja um coro que ressoe até o Vaticano”, disse o produtor-executivo Michael Sugar. “Papa Francisco, é hora de proteger as crianças e restaurar a fé.”

Horas antes da premiação, Mark Ruffalo, Tom McCarthy e Josh Singer compareceram a um protesto em frente a uma catedral de Los Angeles, pedindo o fim dos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja.

https://www.youtube.com/watch?v=v-LSzwHrWlo

Qual foi o melhor momento da noite para você? Vamos esperar que 2017 não seja um ano tão branco como este, e as próprias minorias tenham espaço e possam falar por si.

Foto de destaque: REUTERS/Mario Anzuoni.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.