Modelos trans estampam, pela primeira vez, capas da revista Harper’s Bazaar

  22. setembro 2016   Moda   0
Modelos trans estampam, pela primeira vez, capas da revista Harper’s Bazaar

Em quase 150 anos, a Harper’s Bazaar, uma das mais antigas revistas de moda que existem, ainda encontra formas de fazer história. Em quase um século e meio, será a primeira vez que duas modelos trans estamparão as capas da publicação. As modelos escolhidas foram Tracey Norman e Geena Rocero, que agraciarão a edição de outubro publicada na Índia.

Será uma edição especial, chamada de “As 9 Maravilhas do Mundo”, e terá 9 modelos diferentes em cada capa. Além de Tracey e Geena, também estão as tops Soo Joo Park, Hind Sahli, Pyper e Daisy America, Emanuela de Paula, Cora Emmanuel, Hannelore Knuts, e Tyra Banks.

Essas mulheres representam a diversidade da beleza, que segundo um comunicado de Nonita Kalra, editora-chefe da Harper’s Bazaar na Índia, faz parte do “DNA da revista”.

“Mostrar mulheres brancas atrás de mulheres brancas nas capas não funciona mais. Precisamos mostrar quais são as mulheres do mundo atual”, acrescentou Christopher Sollinger, diretor de arte da publicação. “O mundo está mudando e com essa história, queremos fazer parte dessa revolução global”.

Tracey Norman
Geena Rocero

Tracey Norman é uma modelo trans negra, que fez muito sucesso durante as décadas de 70 e 80. Entretanto, tudo o que conquistou desapareceu quando descobriram que ela era transgênera. Em dezembro de 2015, a New York Magazine fez um perfil da modelo, dando detalhes de sua vida e de sua carreira interrompida. Após a publicação, Norman conseguiu um contrato com a marca de cosméticos Clairol, e agora é capa de uma revista.

A sua história foi o que motivou Christopher Sollinger a idealizar o editorial para a Harper’s Bazaar. “Desde que a li, pensei em como poderia retribuir a Tracey. A forma como ela teve de viver se escondendo e com medo. Sendo uma linda mulher, com tantos talentos e dons, o que aconteceu foi muito errado”, contou o diretor de arte ao The Cut. “Ela é alguém que deveria ser celebrada. Eu queria criar uma imagem que ela pudesse olhar, sentir orgulho, ser vista, amada e apreciada”.

Já Geena Rocero é uma modelo trans filipina, que mora nos Estados Unidos desde os 17 anos. Além do trabalho nas passarelas e revistas, ela é também fundadora e rosto da campanha Gender Proud, e já apresentou uma websérie voltada para jovens trans. Ela ficou muito conhecida após apresentar uma palestra no TED Talk.

“É uma honra estar na capa [da Harper’s Bazaar]”, contou Geena ao Mic. “Acho que o caminho foi pavimentado há tanto tempo. Esse momento é uma manifestação de muitas pessoas, as quais o tornaram possível para mim e para tantas modelos. As mulheres que vieram antes de mim, como [Caroline] Cossey e Norman, quando elas apareceram em suas épocas, elas pagaram um preço por isso. Quando me mudei para Nova York, elas foram meu senso de inspiração e de medo. Elas representavam o que era possível para mim, mas eu tinha medo de que o que aconteceu com elas acontecesse comigo”.

2016 tem sido marcado pela visibilidade trans na mídia. Só neste ano, além das duas modelos trans, dois homens trans também foram capas de revista: em abril, Benjamin Melzer, estampou a Men’s Health alemã, enquanto Laith Ashley ficou com a capa da Attitude.

E embora a visibilidade esteja em alta, a realidade continua dura com a grande maioria das pessoas trans, as quais ainda enfrentam altos índices de violência e sofrem com a exclusão social. “Mudar as políticas e a cultura devem ser duas coisas intercambiáveis. Eu quero que as políticas mudem, eu quero uma mudança sistêmica na vida cotidiana das pessoas trans”, comentou Geena ao Mic.

Enquanto isso, ela espera que as capas da Harper’s Bazaar possam levar alguma esperança às pessoas como ela e Tracey.

“Espero que elas transmitam uma mensagem a um jovem trans ou alguém que não está em conformidade com seu gênero pelo mundo. Espero que chegue a eles a mensagem de que suas identidades são valiosas, que suas vidas importam e de que podem perseguir as coisas pelas quais são apaixonados”.


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