Algumas marchinhas começam a ser banidas de blocos de carnaval do Rio de Janeiro

  02. fevereiro 2017   Internet   0

Quando falamos de carnaval, é difícil não pensarmos nas marchinhas, as famosas canções que acompanham a folia brasileira.

Hoje em dia, se você parar para prestar atenção na letra dessas músicas, é bem capaz que você sinta um pequeno desconforto com o teor delas, uma vez que algumas insinuam a violência contra a mulher, o racismo e até a LGBTfobia. Claro, elas podem refletir a época em que foram feitas, uma época em que tais pensamentos eram mais ‘aceitos’, mas não deixam de ser problemáticas nos tempos atuais.

É por isso que alguns blocos de carnaval do Rio de Janeiro estão começando a banir determinadas marchinhas, como “Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão”, “Índio quer apito” e “O teu cabelo não nega”. Segundo uma reportagem do jornal O Globo, são os grupos Mulheres Rodadas, Cordão do Boitatá e Charanga do França que defendem a retirada dessas músicas.

“Se a gente é um bloco feminista, não temos como passar ao largo dessas coisas. Se isso está sendo considerado ofensivo, acho que a gente não deve fazer coro”, disse Renata Rodrigues, uma das organizadoras do Mulheres Rodadas, em entrevista à rádio CBN.

A música “Tropicália”, de Caetano Veloso, também poderia ficar de fora do repertório do grupo, por conta do termo ‘mulata’.

“A gente tocava “Tropicália”, do Caetano Veloso. Agora, com toda a onda desse questionamento, principalmente, em função da palavra mulata, a gente está discutindo e vamos decidir se continuaremos tocando essa música ou não”, disse Renata.

Mulata é uma derivação da palavra mula, resultado do cruzamento do jumento com o cavalo. O termo começou a ser utilizado no Brasil durante o tempo da escravidão, para se referir aos filhos de brancos com negros, de forma a criar uma categoria à parte para essas pessoas. Com o passar do tempo, a imagem da mulata, foi vendida como a mulher negra de pele clara de corpo escultural e sempre pronta para o sexo.

Contudo, segundo uma nota divulgada no Facebook do Mulheres Rodadas, “Tropicália” continuará na playlist de carnaval do bloco, depois de uma conversa entre as integrantes.

“O Mulheres Rodadas não só preza pela liberdade de todas as mulheres mas também acredita que essa liberdade só existe quando nos respeitamos umas às outras. […] Sim, vamos tocar ‘Tropicália’ depois de uma conversa com nossas integrantes, principalmente as mulheres negras, depois de refletir sobre isso, depois de uma troca afetiva. Sim, vamos tocar ‘Tropicália’, porque não acreditamos na censura, mas no respeito. Nunca decidimos não tocar ‘Tropicália’. Nunca falamos em banir músicas do Carnaval”.

Mas a decisão de banir determinadas marchinhas não é unânime. O presidente do Cordão da Bola Preta, Pedro Ernesto Marinho, não é a favor da retirada das músicas.

“Não consideramos essas marchinhas ofensivas. Quem as compôs, certamente, não tinha essa intenção. carnaval é uma grande brincadeira. Essa polêmica não vai levar ninguém a lugar algum e até desmerece o carnaval. O preconceito está mais dentro das nossas cabeças do que nas marchinhas”, disse.

E para o autor de “Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão” e “Mulata Bossa Nova”, João Roberto Kelly, as críticas são “exageradas”, mas ele disse que respeita a opinião de todos.

“Eu respeito todo mundo, todas as opiniões, mas acho que o carnaval é uma festa tão alegre, tão pura, é brincadeira em cima de brincadeira. O sujeito vai censurar uma letra de carnaval? No carnaval, o homem se veste de mulher, mulher se veste de homem, a gente brinca com careca, com barrigudo, brinca com todo mundo. A gente sai fantasiado de índio, sai assim, sai assado. No início, eu até pensei que isso aí fosse uma brincadeira de carnaval, mas depois eu vi que não, que eles estavam pegando pesado”, afirmou João Roberto ao jornal O Globo, acrescentando ainda que nunca quis ofender ninguém quando compôs as marchinhas.


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