Mais um ano, mais uma vez personagens LGBT permanecem quase invisíveis no cinema

Hollywood pouco tem se esforçado para melhorar a representação LGBT no cinema. Dos 125 grandes filmes lançados em 2016, apenas 18,4% deles continham lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans.

Apesar da vitória histórica de “Moonlight: Sob a Luz do Luar” no Oscar deste ano, Hollywood continua ignorando personagens LGBT. É o que aponta um levantamento feito pela GLAAD (Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação, em português), organização que monitora a representação de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans na mídia dos Estados Unidos. 

Foram avaliados 125 filmes lançados em 2016 pelos 7 maiores estúdios da indústria cinematográfica: Disney, Sony, Lionsgate, 20th Century Fox, Paramount, Warner Bros e Universal. Do total, apenas 23 deles, ou 18,4%,  apresentaram personagens LGBT, o que representa um aumento de quase 1% em relação ao ano anterior.

Contudo, apesar do crescimento tímido, a representação dessa população na sétima arte continua decepcionante. A GLAAD possui um sistema de classificação em 5 categorias: falha, pobre, insuficiente, bom e excelente. Nenhum dos estúdios atingiu bom ou excelente, sendo a Universal a melhor classificada: insuficiente, tendo 5 dos 17 filmes de 2016 apresentando personagens LGBT.

Disney, Sony e Lionsgate foram avaliadas como falha, já que de 58 longa-metragens, só 6 deles tinham personagens LGBT. A 20th Century Fox, Paramount e Warner foram pobres, pois apresentaram 12 produções com LGBTs entre as 50 que lançaram no ano passado.

Além da baixa inclusão, lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans possuem menos tempo de cena: em 43% dos filmes (ou 10 deles), esses indivíduos têm menos de 1 minuto de aparição. Não fosse esse um cenário enfurecedor o bastante, a organização apontou ainda que a representação LGBT no cinema ainda é marcada por estereótipos, falta de aprofundamento em suas histórias e, não raro, essas pessoas ainda são objetos de piada, como a personagem andrógina de Benedict Cumberbatch em “Zoolander 2”, que foi alvo de pedidos de boicote, justamente pela forma como satiriza as identidades de pessoas trans.

Para ajudar a fazer a medição, a organização aplicou um teste chamado Vito Russo, o qual foi inspirado no Teste Bechdel. Para passar nele, o filme precisa de pelo menos um personagem LGBT, cuja orientação sexual ou identidade de gênero não seja o que o define na trama, e é preciso que esse personagem esteja ligado ao filme de forma que sua perda seja significativa no andamento da história. Das 125 grandes produções, somente 9 passaram no Teste.

“Nós ainda lutamos para ver uma melhora significativa em Hollywood, no que diz respeito à representação de personagens LGBT e suas histórias”, disse a presidente da GLAAD, Sarah Kate Ellis no relatório da instituição. “Os grandes lançamentos continuam ficando para trás das histórias inovadoras que vemos em filmes independentes (como ‘Moonlight’) e mais atrás ainda de histórias LGBT na televisão e em séries de streaming, como ‘Sense8’ e ‘Steven Universe'”.

Ao todo, foram 70 LGBTs introduzidos nos 125 grandes filmes de 2016, um aumento de 23% em relação a 2015. Mas como nota a GLAAD, 14 deles estiveram em um mesmo filme: “Popstar: Sem Parar, Sem Limites”, da Universal. No que diz respeito à identidade de cada um dos personagens, 83% deles eram gays, 35% eram lésbicas (aumento de 12%), 13% eram bissexuais (aumento de 4%) e 1% era trans. A maioria deles continua sendo branca: 69%. Apenas 13% eram negros, 6% eram asiáticos ou das Ilhas do Pacífico e 1% era latino. E por incrível que pareça, 11% não eram humanos. No total, 20% dos personagens não eram brancos, uma queda de mais de 5% em relação ao ano anterior e de mais de 12% em comparação a 2014.

“Esse é o segundo ano consecutivo com uma baixa significativa de personagens LGBT de minorias étnicas”, diz o levantamento. “Muitos desses personagens eram tokens isolados, destinados a representar múltiplas comunidades a partir dos pontos de vista de uma única pessoa – frequentemente limitados a menos de 5 minutos de cena”.

A GLAAD elogiou a representação de LGBTs em “Moonlight” e “Star Trek: Sem Fronteiras”. “Zoolander 2”, “Deadpool”, “Tirando o Atraso” e “Festa da Salsicha” foram criticados por suas representações de LGBTs, ora feitos de piada, ora por não desenvolverem a identidade do personagem em questão, apostando em estereótipos ou histórias com pouca profundidade.

Em 2017, a organização lembrou dos avanços, embora tímidos, feitos em “A Bela e a Fera” e “Power Rangers”, mas lembrou que ainda há muito o que ser feito, e que é preciso que a indústria cinematográfica se esforce mais para representar corretamente a comunidade LGBT.

“Há muitas histórias únicas e novas de LGBTs para contar, e Hollywood deve abraçá-las para se manter competitiva com outras indústrias de mídia”, concluiu Sarah Kate Ellis.