Lista: uma quarentena de séries

Com boa parte do mundo dentro de casa por conta da pandemia do coronavírus, muita gente aproveitou o tempo de sobra para desenvolver um hobby e colocar as séries em dia (o que é um hobby para muita gente também). Ao menos por aqui foi assim.

De março até setembro, assisti a várias séries, revi outras e vi alguns filmes também. Trago aqui a lista de tudo que acompanhei durante a quarentena e minha opinião sobre cada uma delas. E você: o que assistiu?

Hollywood – Netflix

“Hollywood” é uma das produções do acordo milionário de Ryan Murphy com a Netflix, e é ambientada na década de 40, durante o pós-guerra. A minissérie imagina como seria a indústria cinematográfica americana, caso um grupo de pessoas tomasse a decisão de fazer um filme cuja equipe, tanto na frente quanto atrás das câmeras, fosse composta por minorias.

Opinião: ao longo de 7 episódios, a obra se sai bem ao retratar todo o glamour da época e conta com um bom ritmo para manter o telespectador envolvido com a trama. Porém, o roteiro é imaginativo demais até para uma fantasia e apresenta soluções fáceis (ou ingênuas) para problemas complexos (os quais continuam atuais); os personagens carecem de profundidade (o elenco mais velho brilha mesmo assim) e, ao final, todos decidem fazer a coisa certa. Até um abusador em série tem sua redenção e torna-se bom. Apesar dos problemas, é possível se emocionar e torcer pelo final feliz, digno de filmes de Hollywood.

Pequenos incêndios por toda parte – Amazon Prime Video

comentei sobre “Pequenos incêndios por toda parte” anteriormente, mas vale a pena falar sobre a minissérie novamente. Essa é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito por Celeste Ng, e trata da relação conflituosa entre duas mulheres muito diferentes. Mia (Kerry Washington) é uma artista itinerante e se muda para Shaker Heights, em Ohio, para morar com a filha em um imóvel da família de Elena (Reese Witherspoon). Com o tempo, os filhos dessas mulheres tornam-se amigos e a convivência entre as duas começa a expôr as diferenças entre elas. Ambas também acabam se envolvendo em um processo de adoção de uma menina, cada uma de um lado, o que faz as tensões aumentarem.

Opinião: lançada em tempos de fortes discussões raciais, a produção acerta ao abordar questões complicadas e atuais – ainda que ela seja ambientada na década de 90. Todo o elenco, especialmente feminino, entrega atuações brilhantes, os figurinos e a trilha sonora também não decepcionam. Em alguns momentos a minissérie se arrasta, mas é impossível largá-la. Aproveitando: Izzy mercia mais!

Fleabag – Amazon Prime Video

Resolvi assistir “Fleabag” depois de ler muitos comentários sobre a série no Twitter. A trama gira em torno da tentativa da personagem-título (Phoebe Waller-Bridge) de se recuperar de uma grande tragédia em sua vida: a morte da melhor amiga e parceira de negócios.

Opinião: o único defeito da produção é ter apenas 2 temporadas (ambas premiadas, diga-se de passagem). É impossível resistir ao charme e à sagacidade da protagonista ou não se afeiçoar pela irmã dela, Claire (Sian Clifford). Misturando humor e drama, “Fleabag” é uma daquelas séries que não dá para perder.

The Morning Show – Apple TV+

Para ser sincero, assisti “The Morning Show” antes da quarentena, mas acabei revendo alguns episódios durante os dias em casa. A série aborda um tema infelizmente ainda muito atual: o assédio sexual no ambiente de trabalho. Na produção, Jennifer Aniston encarna a jornalista Alex Levy, apresentadora do programa televisivo que dá nome à obra, que é incumbida de avisar ao público do matinal de que seu parceiro de bancada, Mitch Kessler (Steve Carell) foi demitido após denúncias de assédio sexual. O que ela não contava é que os executivos queriam aproveitar a oportunidade para renovar o show – ou seja: demiti-la também.

Ao saber da situação, ela anuncia a todos de que já há um substituto para Mitch, ou melhor, uma substituta: Bradley Jackson (Reese Witherspoon), uma jornalista que fica famosa graças a um viral na internet. Assim, essas duas mulheres que mal se conhecem, são obrigadas a trabalhar juntas, enquanto uma investigação sobre os frequentes casos de assédio sexual acontece nos bastidores.

Opinião: a série demora um pouco para engatar (a partir do quarto episódio ela encontra seu ritmo), mas funciona muito bem, especialmente quando Jennifer Aniston e Reese Witherspoon contracenam juntas. O último episódio, em especial, é o melhor de todos, deixando a todos sem fôlego e querendo uma segunda temporada para ontem.

“I May Destroy You” – HBO

Muito elogiada pela crítica, “I May Destroy You” foi criada, dirigida e roteirizada por Michaela Coel, conhecida por seus papéis em “Chewing Gun” e “Black Earth Rising”. Na série da HBO, ela vive Arabella, uma escritora que precisa lidar com as consequências do estupro que sofreu em um bar, depois de ter sido drogada por um desconhecido. Ao seu lado, estão Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu), dois amigos que ficam ao seu lado para ajudá-la a lidar com o trauma sofrido. Kwame, vale dizer, também sofre um estupro e a produção aborda a dificuldade que homens passam para conseguir denunciar o crime.

Opinião: realmente, “I May Destroy You” foi uma das melhores séries que assisti neste ano. Ela toca em feridas e aborda um tema ainda muito difícil de ser discutido. O trio principal, especialmente Michaela, faz um ótimo trabalho, e o roteiro (escrito pela própria Coel) fala sobre estupro com as nuances, delicadezas e, às vezes, com a dureza necessárias para que o público entenda as dores dessa violência ainda tão comum e tão subnotificada.

Boca a Boca – Netflix

Em “Boca a Boca”, a arte imita a vida de certa maneira. Isso porque, na série original da Netflix, uma infecção contagiosa se espalha rapidamente entre os jovens de Progresso, uma cidade do interior de Goiás. Na produção, a doença é transmitida pelo beijo e pouco se sabe sobre ela, o que leva o trio de protagonistas Fran (Iza Moreira), Chico (Michel Joelsas) e Alex (Caio Horowicz) a investigar e encontrar respostas para a epidemia.

Opinião: a série é uma produção brasileira, assinada por Esmir Filho, e acerta no tom e numa história que facilmente se conecta com os tempos e os jovens de hoje, os quais sempre estão com os celulares na mão registrando tudo. “Boca a Boca” possui uma trama cheia de mistério e impossível de largar, é filmada fora do eixo Rio-São Paulo e possui Denise Fraga no elenco. Só este último fato já deveria ser motivo suficiente para assistir à nova obra brasileira da Netflix.

Euphoria – HBO

“Euphoria” teve sua primeira temporada em 2019, mas só parei para acompanhá-la em 2020 (mesmo com todos os spoilers e comentários que rolaram no Twitter). A série é protagonizada por Rue (Zendaya), uma adolescente que volta à escola após um verão inteiro internada em uma clínica de reabilitação para tratar seu problema com drogas. A menina, contudo, não planeja ficar sóbria e tenta voltar aos antigos hábitos assim que volta para casa. As coisas mudam quando ela conhece Jules (Hunter Schafer), a nova garota do colégio por quem desenvolve uma amizade e um crush.

Opinião: foi uma das melhores séries que assisti durante a quarentena. No geral, não gosto muito de séries cujos episódios são muito longos, mas com “Euphoria”, eu mal via a hora passar, tamanho meu envolvimento com cada um dos 8 episódios. Cada um deles destaca um dos personagens e suas jornadas, e como é ser jovem nesse mundo de hoje. Zendaya mereceu o Emmy que levou por sua atuação na produção, tamanha sua entrega à personagem. A cena em que ela bate na porta do seu traficante/amigo será sempre lembrada. E se posso pedir algo, espero ver mais de Lexi (Maude Apatow) na segunda temporada.

Emily em Paris – Netflix

A série da Netflix leva a protagonista Emily (Lily Collins) para a Cidade Luz a trabalho, após a chefe descobrir uma gravidez e ser obrigada a desistir da viagem. Em Paris, a moça precisa aprender francês, uma nova cultura e lidar com as questões do trabalho e, também, do coração.

Opinião: “Emily em Paris” foi extremamente criticada pela simplicidade do roteiro, pela protagonista sem muito aprofundamento e que, mesmo trabalhando com marketing digital, não parece entender muito da própria função. De fato, a produção é rasa, mas os críticos que me desculpem, pois achei um refresco em meio ao mundo caótico que estamos vivendo. Assistir algo apenas para distrair a mente não é pecado algum (enfim, a hipocrisia, já que critiquei “Hollywood” por ser rasa demais, mas mantenho minha posição).

Com Amor, Victor

Derivada do filme “Com Amor, Simon”, a série “Com Amor, Victor” acompanha o jovem protagonista (Michael Cimino) em sua autodescoberta sobre quem é. Junto da família, ele se muda do Texas para Atlanta, na Geórgia, novo lar dos Salazar. Na escola nova, Victor faz novos amigos, desenvolve um crush por Benji (George Sear) e se mete em confusões por ainda estar às voltas com a sua orientação sexual. Durante todo o tempo, ele manda mensagens para Simon (aquele Simon), que tenta ajudá-lo no processo de autoaceitação.

Opinião: talvez eu tenha gostado mais de “Com Amor, Victor” do que “Simon”, justamente porque a história do menino é muito mais parecida com a minha e de muitos outros jovens LGBT. A busca pela aprovação da família e o medo de perder o afeto dela e dos amigos é mais comum do que a situação vivenciada por Simon. Ainda assim, é uma série leve, divertida, que dá esperança e termina de uma maneira que deixa uma ansiedade sobre o que vai acontecer em uma próxima temporada.

Casamento à Indiana – Netflix

Neste reality da Netflix, acompanhamos o trabalho da casamenteira Sima de Mumbai, que trabalha com clientes na Índia e nos Estados Unidos, arrumando parceiros com quem eles possam se identificar e, quem sabe, casar.

Opinião: talvez isso seja polêmico, mas “Casamento à Indiana” funcionou como um bom entretenimento para mim. Acompanhar as histórias de cada participante, suas personalidades e o que buscam em um parceiro foi divertido. Pontos para Aparna que, a princípio parecia uma mulher muito rígida, mas que na verdade só sabe muito bem o que quer e, principalmente o que não quer – e ela não tem medo algum de expressar suas opiniões (e a Nadia merece ser imensamente feliz).

O reality me introduziu, também, ao racismo na Índia, do qual eu nada sabia. Algumas pessoas dizem que preferem pessoas de pele clara no show, como se não houvesse nada de errado com isso. Foi algo triste de descobrir e que espero que faça mais pessoas refletirem.

Casamento às Cegas – Netflix

Outro reality da Netflix, “Casamento às Cegas” leva um grupo de homens e mulheres para dentro de cabines, separados por uma parede, a fim de que se conheçam, descubram afinidades e, posteriormente, se casem. Será que o amor é mesmo cego?

Opinião: embora eu tenha gostado de acompanhar os episódios de “Casamento às Cegas”, especialmente o casal Lauren e Cameron, o show é excessivamente heterossexual, cisgênero, magro e capacitista. O amor, pelo menos no programa, parece restrito a jovens bonitos, malhados e héteros. Eu gostei, mas adoraria ver uma diversidade maior de pessoas, caso a Netflix opte por fazer outra temporada.

A Vida e a História de Madam C. J. Walker

“A Vida e a História de Madam C. J. Walker” conta em 4 episódios como Sarah Breedlove tornou-se a primeira mulher milionária dos Estados Unidos. Da vida como lavadora de roupas até a construção de sua fábrica e morte, a minissérie mostra as lutas que essa mulher precisou travar para fazer com que seu negócio prosperasse.

Opinião: a história é bem interessante, ainda que crie algumas situações pelo entretenimento, a produção da Netflix seria melhor trabalhada, caso houvesse uma mudança de tom. Por vezes, é possível pensar que as dificuldades que Sarah enfrentou (lembrando que ela viveu entre 1867 e 1919) teriam sido menores ou até fáceis de serem superadas. E eu tenho certeza de que não foram. Octavia Spencer brilha, como é de se esperar, enquanto Tiffany Haddish parece um tanto deslocada.

Olhos que Condenam – Netflix

“Olhos que Condenam” conta a história real do grupo de jovens negros de Nova York, os quais foram acusados e condenados sem provas pelo estupro de uma mulher em 1989, no Central Park. Os meninos ficaram presos por mais de 10 anos e, em 2001, o verdadeiro culpado pelo crime apareceu, o que fez com que os cinco rapazes fossem libertados e processassem a cidade e o Estado de Nova York.

Opinião: é impossível não sentir raiva ao assistir a minissérie de Ava DuVernay. Do interrogatório à condenação, passando pelos anos na prisão, todo o processo foi injusto, falso e racista, feito apenas para que as forças policiais “mostrassem serviço” e “solucionassem” o crime o mais rápido possível. “Olhos que Condenam” dá uma aula de racismo institucional, violência policial, os quais permanecem vivos, infelizmente, até hoje.

Eu Nunca… – Netflix

“Eu Nunca…” parece mais uma típica história de adolescentes, e de certa maneira é, exceto pelo fato de que o trio de protagonistas é formado por duas meninas de origens asiáticas e uma negra. O foco, contudo, está em Devi (Maitreyi Ramakrishnan), filha de indianos, e que está disposta a perder a virgindade para o cara mais gato do colégio: Paxton (Darren Barnet). Ao lado das melhores amigas Eleanor (Ramona Young) e Fabiola (Lee Rodriguez), as três meninas entram em confusões e aprendem valiosas lições acerca de quem são.

Opinião: você provavelmente deve ter acompanhado o hype em torno de “Eu Nunca…” e ele é real. Mesmo que você não curta o gênero, dê uma chance a essa produção criada por Mindy Kaling e embarque nessa divertida série e conheça mais sobre a cultura indiana. Os pontos altos são o trio principal, especialmente Maitreyi, que tem um carisma enorme em cena, a luta dela com a sua identidade, e a descoberta da sexualidade de Fabiola.

Sangue e Água – Netflix

Há 17 anos, a família Khumalo perdeu uma de suas filhas, e torcem para que um dia ela reapareça. Phuleng (Ama Qamata) já desistiu de procurar pela irmã gêmea desaparecida – até que o destino faz parecer com que a menina talvez esteja mais perto do que se imagina.

Opinião: “Sangue e Água” possui uma trama interessante sobre o desaparecimento de uma menina e a busca da irmã por ela. Embora o ritmo seja lento em alguns momentos, a série tem ótimos momentos e prende o telespectador em todos os momentos em que Phuleng tenta se aproximar da verdade envolvendo a identidade da irmã, que pode ser Fikile (Khosi Ngema), um talento da natação. As atuações são muito boas e o roteiro é outro que acerta ao retratar o mundo hiperconectado dos jovens.

Coisa Mais Linda – Netflix

A segunda temporada de “Coisa Mais Linda” retoma de onde parou no primeiro ano. Lígia (Fernanda Vasconcellos) é assassinada pelo ex-marido, mas Malú (Maria Casadevall) sobrevive ao ataque e precisa lidar com a morte da melhor amiga e com a presença do ex-marido, que toma conta do bar que ela e Adélia (Pathy Dejesus) construíram juntas.

Opinião: desde a primeira temporada, “Coisa Mais Linda” ganhou um espaço no meu coração. O tom didático para falar sobre certos assuntos, como feminismo e racismo, às vezes cansam, mas num conjunto da obra, não tira o prazer em assistir à série. Ivone (Larissa Nunes) rouba a cena e faz uma linda atuação de uma cantora em ascenção. Já estou ansioso para uma terceira temporada!