Jennifer Lawrence escreve artigo sobre desigualdade salarial entre homens e mulheres no cinema

Jennifer Lawrence, que se despede da saga “Jogos Vorazes” em breve, não é só honesta sobre sua luta contra ansiedade, mas também com a desigualdade salarial entre homens e mulheres em Hollywood. Ainda que seja a mulher mais bem paga do cinema hoje, isso não quer dizer que ela não tenha experienciado essa diferença de pagamento.

“Quando os emails da Sony vazaram e eu descobri como eu ganhava menos do que as pessoas sortudas que nasceram com pintos, eu não fiquei brava com a Sony. Eu fiquei brava comigo mesma. Falhei como negociadora, porque eu desisti cedo. Eu não queria continuar a lutar por milhões de dólares, que por conta de duas franquias (“X-Men e “Jogos Vorazes”), eu não precisava”, escreveu a atriz em um artigo para a newsletter da também atriz Lena Dunham.

O episódio ao qual Lawrence se refere ganhou grande repercussão no ano passado, quando emails da Sony foram hackeados e expostos na mídia. Um documento revelou que ela e sua colega de elenco no filme “Trapaça”, Amy Adams, receberam menos do que atores Bradley Cooper e Christian Bale.

Na verdade, o Sony Leaks, como ficou conhecido o caso, reforçou os resultados de um estudo da The New York Film Academy, que mostra a desigualdade de gênero nos cinemas, incluindo a diferença salarial entre homens e mulheres. Enquanto as 10 atrizes mais bem pagas do cinema fazem 181 milhões de dólares, os 10 atores fazem 465 milhões de dólares. E mesmo que Jennifer Lawrence seja a atriz mais bem paga de Hollywood (U$ 52 milhões), ela ainda está muito atrás de Robert Downey Jr., que recebeu 80 milhões de dólares no último ano.

Embora as cifras pareçam absurdas, o problema não é o dinheiro em si, mas a forma como mulheres são desvalorizadas no mercado de trabalho. A indústria cinematográfica reflete a desigualdade salarial que as mulheres enfrentam independente da profissão. No Brasil, por exemplo, elas ainda recebem 79,5% dos salários dos homens. Nos Estados Unidos, a porcentagem é a mesma.

Em seu artigo para a newsletter, a atriz conta que, à época do filme “Trapaça”, ela não queria passar uma imagem de pessoa difícil. “Se eu posso ser honesta comigo mesma, estaria mentindo se eu não dissesse que houve um elemento de querer agradar, o que influenciou minha decisão ao fechar o negócio sem lutar. Eu não queria ser vista como ‘difícil’ ou ‘mimada'”, escreveu a atriz.

“Isso é parte da minha personalidade que eu tenho lutado há anos e, com base nas estatísticas, eu não acho que eu seja a única mulher com esse problema. Somos condicionadas a nos comportarmos dessa maneira? Só foi permitido que votássemos há, o quê, 90 anos? Estou perguntando de verdade – meu telefone está sobre a bancada e eu estou no sofá, então uma calculadora está obviamente fora de questão. Poderia haver um hábito persistente em tentar expressar de uma maneira que não ‘ofenda’ ou ‘amedronte’ os homens?”

A autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie possui um discurso sobre essa necessidade que mulheres sentem em agradar os homens em nome de uma “paz social”, e é importante lembrá-lo. “Esqueçam a agradabilidade. Se você começar a pensar em ser agradável, você não contará sua história honestamente, porque estará muito preocupada em não ofender, e isso arruinará a sua história. Então, esqueça a agradabilidade”.

E parece que o conselho da escritora vai ser seguido por Jennifer Lawrence, que conclui seu artigo dizendo:

“Estou cansada de procurar uma forma ‘adorável’ para manifestar minha opinião e ser agradável. Foda-se isso. Eu acho que nunca trabalhei com um homem que mandava e ele ficava pensando sobre qual ângulo ele deveria ter sua voz ouvida. Ela é ouvida. Jeremy Renner, Christian Bale e Bradley Cooper, todos lutaram e deram-se bem na negociação de negócios poderosos para eles. Tenho certeza de que eles foram ensinados a serem ferozes e táticos, enquanto eu estava ocupada preocupando-me em não parecer malcriada e não receber o que era justo. De novo, isto pode não ter NADA A VER com minha vagina, mas eu não estou completamente errada quando outro email vazado da Sony revelou que um produtor chamou uma outra atriz que estava em negociação de “mimada”. Por alguma razão, eu não imagino alguém dizendo o mesmo sobre um homem”.

A atriz mencionada por Lawrence é Angelina Jolie, que foi mencionada pelo produtor Scott Rudin como “uma mimada com pouco talento”.

Por fim, a americana foi elogiada por dois outros artistas. Bradley Cooper, que trabalhou com ela em “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, contou ao E! News que o gesto de Jennifer é importante. “Uma coisa que eu poderia dizer é que isso é interessante, porque se você acha que merece apenas um tanto de dinheiro e isso não está certo, é hora de mudar essa percepção e manter-se firme. É ótimo”.

Já Emma Watson foi ao Twitter para demonstrar seu apoio a Jennifer Lawrence:

Tweet 1: “Oh, Jennifer Lawrence, eu te amo”.

Tweet 2: “Estou cansada de procurar uma forma ‘adorável’ para manifestar minha opinião”.