James Franco, homossexualidade não é acessório, tá?

Eu estava com esse post entalado. Não queria colocá-lo para fora, mas acho que ele precisa existir. E é sobre James Franco.

Gosto muito que o ator seja aliado dos homossexuais na nossa luta por direitos iguais. Também vejo com bons olhos que ele seja seguro com sua sexualidade, a ponto de não ligar para os rumores acerca dela. Porém, me incomoda muito que ele faça uso da homossexualidade para se promover. Prova disso (mais uma), foi sua última entrevista consigo mesmo (é!) para a revista Four Two Nine, onde afirmou que é “gay em sua arte e hétero em sua vida pessoal“.

james franco homossexualidade acessorio

Enquanto alguns acharam uma ótima resposta aos fiscais da vida alheia, eu não consigo não me chatear com sua declaração. E me chateia porque, para ele, a homossexualidade é mais um acessório, que ele coloca quando vai trabalhar, mas tira quando chega em casa. Aí fica muito fácil, né, amigo? Usar pela conveniência de ser “transgressor” em sua arte é bacana, mas lidar com a realidade que xinga, violenta e mata todos os dias não é bacana para ele, afinal de contas.

“Acho que depende do que você define como gay. Se isso significa com quem você faz sexo, então sou hétero. Nos anos 20 e 30, a homossexualidade era definida pela forma como você age e não com quem você dorme. Marinheiros transavam uns com os outros o tempo todo, mas se eles se comportassem de forma masculina, então não eram considerados gays”.

Como a gente define gay? Com certeza não é um adjetivo para se classificar de vanguarda em seu trabalho. Ser gay é algo que te acompanha para o resto da vida. Não dá para tirar o gay de você quando chega em casa. Mas sinto que nesse aspecto ele não quer se envolver. Lucrar com a homossexualidade já é o suficiente para o James Franco.

Não me leve a mal, o ator pode se identificar da forma que quiser, é a vida dele e não a minha. Mas é muito mais fácil e seguro ser hétero e fazer essas declarações, do que ser homossexual e ter de lidar com o dia a dia. Ou como foi escrito no site Jezebel, “[…] há uma grande diferença entre ser gay de verdade na prática (e encarar todos os problemas que acompanham ao sair do armário) e teorizar sobre isso enquanto senta numa cadeira e sente seu próprio cheiro hippie”.

Comments

  1. RICARDO ROCHA AGUIEIRAS Responder

    Olá, concordo em partes com seu texto, mas tendo a ver a declaração de James Franco com bons olhos. Ele é extremamente aliado, gayfriendly e aliados são necessários num mundo cada vez mais repleto de homofobia, transfobia, racismo, machismo, misoginia e etc., vide a Lei que foi aprovada no Estado de Indiana, que impede o acesso de pessoas gays em estabelecimentos comerciais. Discordo que o James Franco use a homossexualidade “para lucrar”, como um “acessório”, como você fala, ao contrário, acho que ele fala sobre o assunto e a questão por dois motivos: Um, a porca mídia que adora uma polêmica por que dá ibope, vive perguntando isso para ele, vive o questionando sobre. Dois, ele fala justamente por que é um corajoso e para jogar luz onde tantos e tantas querem o silêncio e manter a invisibilidade, que é o pior dos preconceitos. Nem acho-o arrogante sobre. Ele sabe muito bem da nossa dor e dos enfrentamentos diários que os gays tem perante a homofobia. Cuidado ao atacar aliados e aliadas LGBT. Sem aliados, nenhuma revolução no mundo teria algum sucesso. A Parada LGBT nunca teria tido 4 milhões de pessoas, como teve. Ela não é só formada pela população LGBT. Obrigado!

    • RICARDO ROCHA AGUIEIRAS Responder

      Ah, e quando ele fala em “ser gay na Arte” ele está, no meu modo de ver, justamente VALIDANDO toda a produção intelectual, artística e cultural feita por gays no mundo, que é imensa, imensa, gigantesca! E que a homofobia insiste em apagar.

    • arturfrancischi Responder

      Oi, Ricardo!

      Eu também vejo com bons olhos ele ser aliado e apoiar causas ligadas à homossexualidade e usar seus privilégios para ações voltadas a essas pessoas. No entanto, dizer que é “gay” em sua arte, como se a sexualidade fosse algo que ele pudesse retirar de si, ou como se fosse um adjetivo para transformar essa arte em algo de vanguarda ou “moderna”, parece mais uma tentativa de alcançar mais público para seus trabalhos, porque afinal de contas, quanto mais público, mais a conta dele aumenta. E penso que esse é o problema com celebridades: dificilmente sabemos até que ponto estão sendo honestos ou o que é jogada de marketing.
      Mas não acho que ele saiba bem a dor de homossexual, pois ele nunca foi e nunca será discriminado por sua orientação sexual. É como se ele “apropriasse” da homossexualidade quando lhe é conveniente. E a gente bem sabe que sexualidade é algo que acompanha a gente para sempre.
      Por isso não acho que ele valida a arte que foi criada por gays, mas se apropria dela para manter-se no olhar público. De alguma forma, esse coisa toda de não saber se é gay ou não acaba promovendo sua figura e seu trabalho. E ao que vejo, não é a primeira vez que ele faz isso.
      De qualquer forma, obrigado pelo seu comentário! É muito bom ter essas conversas! Abraço!

  2. Elisabete Responder

    Eu acho que ele dá para os dois lados mas nunca vai assumir-se. Este homem não defende os gays apenas porque gosta deles ou porque eles precisam de proteção contra uma sociedade muito homofóbica. Ele defende porque também é. No festival de Berlim de 2015 vê-se bem na conferência de imprensa do filme “I am Michael”, ele está bem emotivo acerca do tema, as imagens mostram-no.
    Acredito que ele já teve sexo com homens, nem que tenha sido apenas na adolescência, ou quem sabe esporadicamente também tem. Sinto isso, vejo essa sexualidade dúbia nele. Ele não quer assumir-se porque a heterossexualidade é mais forte nele, mas gosta de estar com homens também, gosta da presença deles, a mim ele não engana. E a forma como se relaciona com as mulheres é muito mais de amigo do que de amante… A postura diz muita coisa.
    Além do mais ele é ator, pode representar o que quiser, quando quiser. Acredita quem quiser.

  3. Nyll Responder

    Realmente; não consigo entender.

    [[Acho que depende do que você define como gay. Se isso significa com quem você faz sexo, então sou hétero. Nos anos 20 e 30, a homossexualidade era definida pela forma como você age e não com quem você dorme. Marinheiros transavam uns com os outros o tempo todo, mas se eles se comportassem de forma masculina, então não eram considerados gays”.]]

    Se tu consegue entender isso; pq não consegue compreender o sentido que o Franco deu ao “ser gay na arte”? Claro que não é a mesma implicação… mas vc acha msm que atuar em filmes como um personagem homossexual faz com que a pessoa passe impune pelo filtro de uma imprensa (parte do sistema!) tbm LGBTfóbica? E… pense por outro lado… n estaria justamente o Franco fazendo referência a isso que tu criticou ali em cima? Que ele ATUA como homossexual… e não VIVE como homossexual pq sabe que não são a mesma coisa?

    Aliás… qual seria a fronteira então do “Pink Money”? Mas com certeza ele estaria mais aquém do que os que ganham na publicidade sem se envolver. (Casos de atores do pornô gay que se identificam como héteros [tipo “gay for pay”] como o Vadim Black e Jhonny Rapid acredito que já seriam outra coisa…

    Maaaas…

    Aí a gente esbarra na pira da representatividade. Então para representar um personagem gay a pessoa precisa ser gay? (Isso não causaria algo inverso do tipo: personagens gays devem ficam restritos a papeis gays? Pq toda vez que aparece uma pessoa gay ou bi o filme/deveria ser classificado como gay/bi?… A gente não existe fora desse espectro?).

    Olha… às vezes eu acho que quem quer lucrar msm é com a polêmica: a galerinha da lacração precisa de menos… muito menos do que isso! z_z’

    Enfim… tem um artigo da BBC que fala justamente isso: quando a palavra “hétero” surgiu… lá no começo do século passado (ou mais exatamente na virada do século e em plena época vitoriana!!!) ela se referia justamente àquilo que muitas vezes foi o estereótipo do gay/lgbt: “alguém promíscuo; viciado em sexo…” e coisas do tipo (algo que talvez hj estivesse mais próximo da ninfomania).

    Acho super válido o Franco atuar mostrando como sempre podemos ressignificar o que é ser LGBT.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.