Izzy só queria ser aceita e amada em “Pequenos incêndios por toda parte”

[AVISO: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DE “PEQUENOS INCÊNDIOS POR TODA PARTE”]

Eu não sou pai, mas creio que, ao ter filhos, é natural querer dar a melhor vida possível e transmitir os melhores ensinamentos para as crianças. Em “Pequenos incêndios por toda parte”, Elena Richardson (Reese Witherspoon) faz exatamente isso, ainda que, ao que parece, ela não perceba o quanto é controladora com os quatro jovens que têm em casa. De certa maneira, Trip (Jordan Elsass), Lexie (Jade Pettyjohn) e Moody (Gavin Lewis), obedecem às regras e têm apreço pela dedicação da mãe. Lexie talvez seja uma cópia da matriarca da família. Por outro lado, Izzy (Megan Stott), a caçula, é exatamente o oposto dos irmãos e de Elena.

Izzy possui um temperamento forte e não se conforma com as regras – sejam elas sociais ou dentro de casa. A menina de 14 anos está sempre desafiando os pais, especialmente a mãe, com quem possui um relacionamento tempestuoso.

A princípio, a primeira impressão que temos da menina é a de uma rebelde sem causa, que faz o que pode pelo prazer de irritar a mãe: ela rejeita apelidos carinhosos, a comida e as roupas que Elena compra para ela, e ainda coloca fogo no próprio cabelo. Contudo, com um olhar mais atencioso, é possível perceber que as desobediências e atitudes dela são uma forma de chamar atenção da mãe para que ela aceite a menina como ela é. E isso quer dizer ser aceita por ser lésbica.

Enquanto no livro de Ceste Ng, obra na qual a minissérie se baseia, a sexualidade da personagem não é mencionada ou trabalhada, na minissérie da Amazon Prime Video ela é desenvolvida, o que amplia o arco de Izzy e explica porque a menina e a mãe não conseguem se conectar. Izzy não é assumida ainda e tenta esconder sua orientação sexual, o que leva Elena a ver a filha apenas como uma garota problemática, e tenta impor a ela suas regras e opiniões, perdendo a oportunidade de aprender e entender a menina. Com isso, não é à toa que Izzy se revolte e tente chamar a atenção da mãe com suas atitudes: ela quer que a mãe perceba que ela não se encaixa no mundo cheio de restrições criado por ela e Shaker Heights.

Fora de casa, a situação também não é muito positiva para Izzy: mesmo sem se assumir, ela sofre perseguição na escola, sendo chamada de Ellen (uma referência a Ellen Degeneres, a apresentadora, que assumiu ser lésbica na capa da revista TIME, em 1997) pelos colegas e até pelos irmãos. E é especialmente doloroso quando descobrimos que April (Isabel Gravitt), uma das meninas que faz bullying com Izzy, tenha sido namorada dela. Por não conseguir se aceitar, ela participa do circo de horrores pelo qual Izzy tem de lidar diariamente.

Dessa maneira, “Pequenos incêndios por toda parte” demonstra como é crescer em um ambiente conservador. E apesar da produção ser ambientada na década de 90, e progressos terem sido feitos de lá para cá, ainda é muito difícil e violento ser LGBTQIA+ em uma comunidade e em uma família que não apoiam quem você é pleno ano de 2020.

Já vi pessoas desejarem para muitos pais preconceituosos um filho, gay, lésbica ou trans. Porém, há de se ter em mente que filhos LGBTQIA+ não são e não devem ser vistos como uma condenação para essas pessoas. Entendo que a intenção é a de que os pais entendam e aprendam a aceitar os filhos como são, mas é muito mais frequente que essas crianças sofram violências de todos os tipos pela própria família (ou acabem mortas).

Izzy ainda encontra um porto seguro em Mia, com a qual desenvolve um bonito laço e identificação, já que a mulher também é artista, firme em seus posicionamentos e transgressora. Sob a tutela de Mia, Izzy explora seu lado artístico, aprende a ser mais dona de si e a se defender. Mas acima de tudo, ela vê uma oportunidade de ser quem é: ao revelar que o grande amor da sua vida havia sido uma mulher, Mia faz com que Izzy consiga ver uma possibilidade de uma vida na qual ela pode ser livre para ser e amar quem quiser.

Izzy, porém, como muitos LGBTQIA + que possuem pais preconceituosos, acaba na rua e sozinha. Em uma discussão com Elena, após a mãe expulsar Mia e Pearl (Lexi Underwood) da casa que alugava para elas, a menina se desespera ao perceber que perdeu a única pessoa que a enxergava e a aceitava. Na briga, ela ouve da boca da própria Elena que nunca quis ter a filha, o que faz com que a menina abandone a casa e a família, pois chega à conclusão de que nunca teve o amor da mãe.

Portanto, precisamos criar e garantir que crianças LGBTQIA+ possam crescer em famílias e ambientes saudáveis, amorosos e acolhedores. Izzy nunca teve isso e, com aquele final de “Pequenos incêndios por toda parte”, é impossível saber como será a vida da menina dali para frente. Ela, assim como tantos outros jovens LGBTQIA+, merecia mais. E espero que ela encontre o amor e a aceitação que não teve aonde for.