Ian McKellen lê emocionante carta de filho que se assume gay aos pais

  10. fevereiro 2016   Internet   0

Nos últimos dias vimos uma infinidade de fotos do ator Ian McKellen curtindo bastante o Carnaval no Rio de Janeiro. O Gandalf e Magneto do cinema aproveitou bastante a estadia no país, e confessou à revista QUEM que seu sonho é desfilar em um carro alegórico um dia e disse ter ficado encantado com a folia brasileira. “O que mais me impressionou é que todo mundo tem o direito de brilhar no Carnaval do Brasil. Não importa o peso, a cor ou a idade. O meu sonho é desfilar em cima de um carro.”

Contudo, antes de cair no samba, o britânico participou de um evento em Londres, na capital inglesa; o “Letters Live”, no qual são lidas “memoráveis cartas escritas através dos séculos.” A carta lida por McKellen era de um rapaz revelando aos pais que é gay. O texto faz parte do livro “Tales of the City”, do escritor americano Armistead Maupin.

A obra é centralizada na vida de Michael Toliver, um rapaz que descobre que seus pais se juntaram à campanha da cantora Anita Bryant, a qual era contra os direitos dos homossexuais na Flórida. Em sua carta, o jovem conta que é homossexual e espera que o amor dos pais permaneça do mesmo jeito. “Eu sou o mesmo Michael que vocês conheceram. Você apenas me conhecem melhor agora. Eu nunca fiz nada, conscientemente, para machucá-los. Nem nunca farei.”

Em determinado momento, Ian McKellen se emociona de verdade e engasga por um momento antes de voltar à leitura.

Confira o vídeo a seguir, originalmente postado no site The Independent (a tradução está abaixo), mas já adianto: prepare suas emoções!

Tradução:

“Querida mamãe,

Desculpe-me por demorar tanto para escrever. Toda vez que eu tento escrever a você e ao papai, percebo que não estou dizendo as palavras que estão no meu coração. Não teria problema se eu os amasse menos do que eu amo, mas vocês ainda são meus pais e eu ainda sou filho de vocês.

Tenho amigos que pensam que sou idiota por escrever esta carta. Espero que eles estejam enganados. Espero que suas dúvidas sejam baseadas nos pais que os amam e confiam menos neles do que os meus. Espero, especialmente, que vocês vejam isso como um ator de amor da minha parte, um sinal da minha contínua necessidade de dividir minha vida com vocês. Eu não teria escrito, eu acho, se vocês não tivessem me contado sobre o envolvimento de vocês com a campanha ‘Save Our Children’ [‘Salvem Nossas Crianças’]. Isso, mais do que qualquer coisa, deixou clara minha responsabilidade em contar a vocês a verdade, que o filho de vocês é homossexual e que eu nunca precisei ser salvo de nada, exceto da crueldade e da ignorante piedade de pessoas como Anita Bryant.

Desculpe, mãe. Não por ser quem eu sou, mas pela forma como você deve estar se sentindo agora. Eu conheço esse sentimento, pois eu o senti pela maior parte da minha vida. Nojo, vergonha, descrença – rejeição pelo medo de algo que eu sabia, mesmo quando criança, que era tão básico à minha natureza quanto as cores dos meus olhos.

Não, mãe, eu não fui ‘recrutado’. Nenhum homossexual experiente foi meu mentor. Mas sabe de uma coisa? Eu gostaria que sim. Eu gostaria que alguém mais velho do que eu, e mais experiente do que as pessoas de Orlando, tivesse me dito: ‘está tudo bem, criança. Você pode crescer e ser médico ou um professor como qualquer pessoa. Você não está louco, doente ou endemoniado. Você pode se sair bem e ser feliz e encontrar paz com amigos – todos os tipos de amigos -, que não darão a mínima sobre com quem você se deita. Acima de tudo, contudo, você pode amar e ser amado sem se odiar por isso.’

Mas ninguém nunca me disse isso, mãe. Eu tive de descobrir sozinho, com a ajuda da cidade que se tornou minha casa. Sei que é difícil para você acreditar, mas São Francisco é cheia de homens e mulheres, héteros e homossexuais, que não consideram a sexualidade como medida de valor de outro ser humano.

Eles não são radicais ou esquisitos, mãe. Eles são caixas de supermercado e banqueiros e velhas senhoras e pessoas que acenam e sorriem para você quando você os encontra no ônibus. Suas atitudes não são condescendentes ou de pena. E sua mensagem é muito simples: sim, você é uma pessoa. Sim, eu gosto de você. Sim, está tudo bem você gostar de mim também.

Eu sei o que você está pensando agora. Está se perguntando: o que nós fizemos de errado? Como deixamos isso acontecer? Quem de nós o fez assim?

Eu não posso responder isso, mãe. A longo prazo, acho que eu nem me importo. O que eu sei é isso: se você e o papai são responsáveis por quem eu sou, então eu os agradeço com todo meu coração, porque é a luz e a alegria da minha vida.

Eu sei que não consigo lhe dizer o que é ser gay. Mas eu consigo dizer o que não é.

É não se esconder atrás de palavras, mãe. Como família, decência e cristandade. É não ter medo do seu corpo ou dos prazeres que Deus fez para ele. É não julgar seu vizinho, exceto quando ele é grosseiro e rude.

Ser gay me ensinou tolerância, compaixão e humildade. Me mostrou as infinitas possibilidades da vida. Me deu pessoas cuja paixão e carinho e sensibilidade têm me concedido uma constante fonte de força.

Me trouxe à vida da família do homem, mãe, e eu gosto daqui. Eu gosto.

Não há muito mais a dizer, exceto que eu sou o mesmo Michael que vocês conheceram. Vocês apenas me conhecem melhor. Eu nunca fiz nada, conscientemente, para machucá-los. Nem nunca farei.

Por favor, não se sinta na obrigação de responder imediatamente. Me basta saber que eu não preciso mais mentir para as pessoas que me ensinaram a valorizar a verdade.

Mary Ann envia seu amor.

Está tudo bem na Alameda Barbary, 28.

Com amor de seu filho,

Michael.”

H/T: Advocate.