Homens, vamos conversar! (parte 2)

Há alguns meses, escrevi o texto ‘Homens, vamos conversar‘. Basicamente, é sobre nós, homens, reconhecermos que, enquanto classe, somos opressores, e que se queremos apoiar a luta feminista, devemos começar a desconstruir nosso machismo e de nossos pares. A ideia nunca foi uma segunda parte para o texto, mas, após o resultado de uma pesquisa divulgada hoje, sinto que tenho alguns pontos para comentar.

O Instituto Avon e Data Popular realizaram a pesquisa ‘Violência contra a mulher: o jovem está ligado?‘, um levantamento que mostra resultados desanimadores sobre a violência contra a mulher. Foram entrevistados 2.046 jovens, entre 16 e 24 anos, de todas as regiões brasileiras, sendo 1.029 mulheres e 1.017 homens. Segundo a pesquisa, 96% deles acreditam viver em uma sociedade machista. No entanto:

  • 48% deles acham errado uma mulher sair sozinha com os amigos, sem o marido, namorado ou ficante sério
  • 78% das mulheres entrevistadas já passaram por algum tipo de assédio (cantadas ofensivas, assédios em baladas e transporte público);
  • 43% deles já viram a mãe ser agredida;
  • 37% das mulheres já fizeram sexo sem camisinha por insistência do parceiro;
  • 9% das mulheres já foram obrigadas a fazer sexo quando não estavam com vontade;
  • 80% dos jovens acreditam que as mulheres não deveriam ficar bêbadas em festas ou baladas;
  • 53% delas já tiveram seu celular vasculhado, 40% dela dizem que o parceiro controla o que fazem, onde e com quem estão, 35% já foram xingadas por eles e 33% foram impedidas de usar determinada roupa;
  • 42% das mulheres e 41% dos homens acreditam que uma mulher deve ficar com poucos homens, mas 43% dos rapazes veem diferença entre mulher para casar e mulher para ‘ficar’.
Não acredito que isso está acontecendo.
Não acredito que isso está acontecendo.

Se estivéssemos na década de 50, até conseguiria entender, mas em pleno ano de 2014? Esses velhos jovens, com ideias tão arcaicas acerca da mulher, não parecem viver nos dias de hoje. Ainda assim, a pesquisa ajuda a ilustrar facilmente o machismo estrutural de nossa sociedade. Educamos os jovens para reproduzirem antigos padrões, mas que não servem mais. É inconcebível, por exemplo, esses 48% acharem errado uma garota sair para beber sem seu parceiro. A mulher é um ser independente, e não um animal que precisa ser acompanhado para passear.

Infográfico: reprodução: Bem-Estar/Globo
Infográfico: reprodução: Bem-Estar/Globo

E chamo a atenção dos homens, afinal, somos nós o denominador comum de todas as situação apresentadas acima. Sabemos que vivemos em uma sociedade machista, mas pouco fazemos para mudá-la. É alarmante 78% das mulheres relatarem já terem passado por qualquer forma de assédio. É terrível que 9% delas já tenham sido estupradas (sexo sem vontade é violência, sim).

Enquanto a forma como nós, homens, vivemos não for alterada, estatísticas como essas sempre existirão. Por isso, é preciso reconhecer que o problema está em nós. Se temos a noção de que vivemos numa sociedade machista e que isso faz mal, é passada a hora de olhar para nossas atitudes e alterá-las. Entenda que mulheres são seres livres e independentes, que possuem todo o direito de serem quem e o que quiserem. Elas possuem todo o direito de fazer o que quiserem de si. 2015 vem aí. E não podemos mais reproduzir os erros de décadas e séculos atrás. Homens, vamos conversar e nos consertar.

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