Conheça Hattie McDaniel, primeira atriz negra a ganhar um Oscar

Em 1940, o filme “… E o Vento Levou” venceu 10 categorias no Oscar daquele ano, sendo o de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ entregue a Hattie McDaniel, a primeira mulher negra a ter seu trabalho reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Naquela noite, a artista foi impedida de sentar-se ao lado de seus colegas de elenco, e sua mesa foi colocada no fundo do salão do Ambassador Hotel, uma exigência do estabelecimento onde a cerimônia foi realizada, já que negros não eram permitidos ali. Foi o produtor do filme, David O. Selznick, quem conseguiu a permissão para que ela pudesse atender ao evento.

E mesmo num ambiente em que sabia que não era bem-vinda, McDaniel saiu triunfante. A atriz Fay Bainter foi quem entregou a ela a placa dourada (atores coadjuvantes não recebiam estatuetas naquele período), referindo-se àquele momento histórico como uma abertura de portas e “nos permite abraçar toda a América.”

Visivelmente emocionada, Hattie caminhou até o palco e fez um dos discursos mais emblemáticos da história do Oscar:

Tradução: “À Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, aos meus colegas na indústria do cinema e convidados: este é um dos momentos mais felizes da minha vida, e eu quero agradecer a cada um de vocês que tiveram uma parte em me escolherem para um dos prêmios [e] pela generosidade. Isso me faz sentir muito humilde e eu vou segurá-lo [o Oscar] como um farol para tudo o que eu fizer no futuro. E eu espero, sinceramente, que eu seja sempre um crédito para a minha raça e à indústria cinematográfica. Meu coração está muito cheio para dizer a vocês o que eu sinto. Obrigada e que Deus os abençoe.”

Até chegar àquele momento, Hattie McDaniel já havia vivido muita coisa. Filha de dois ex-escravos e a mais nova de 13 irmãos , ela nasceu na cidade de Wichita, no Kansas, em 1895. Ainda nova, ela sabia que não queria ser empregada como sua mãe e irmãs, e se juntou aos seus irmãos em uma apresentação em que se pintava de branca. Segundo o History, ela largou os estudos na adolescência para se apresentar em grupos menestréis e se tornou, em 1924, uma das primeiras mulheres negras a cantar no rádio dos Estados Unidos.

Em 1932, a atriz conseguiu seu primeiro papel no cinema em “Destino Rubro (“The Golden West”, no original)”, interpretando uma das várias empregadas que interpretou em sua carreira, sendo a Mammy de “… E o Vento Levou”, aquela que lhe rendeu um Oscar. Naquela época, os personagens oferecidos aos negros, em sua maioria, eram escravos e empregados (e em 88 anos de Oscar, boa parte dos 14 atores e atrizes negros venceram o prêmio por suas atuações em papéis estereotipados).

A personagem Mammy de “… E o Vento Levou”, adaptação do livro de mesmo nome de Margaret Mitchell, chegou a Hattie após diversas atuações elogiadas, sendo considerada “uma das atrizes mais proeminentes de sua raça.” No filme, ela viveu a empregada da protagonista Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), uma mulher rica e filha de um proprietário de terras no sul dos Estados Unidos, no século XIX.

Conheça Hattie McDaniel, primeira atriz negra a ganhar um Oscar
Vivien Leigh e Hattie McDaniel em cena de “… E o Vento Levou”

É dito que McDaniel teria se recusado a dizer a palavra “nigger”, um termo racista, no longa, enquanto a palavra é dita com frequência na obra literária adaptada para as grandes telas. “Ela tinha essa visão antiquada de si como uma “mulher de raça”, alguém que estava progredindo a raça”, contou Jill Watts, autor do livro “Hattie McDaniel: Black Ambition, White Hollywood”.

No ano em que “…E o Vento Levou” foi lançado, os Estados Unidos viviam uma época de intensa segregação racial. Hattie foi proibida de comparecer à estreia do próprio filme em Atlanta, em 1939, pois a Lei de Jim Crow no estado da Geórgia não permitia que negros e brancos dividissem os mesmos locais. Quando Clark Gable, ator protagonista da produção, soube que a atriz havia sido impedida de comparecer à estreia, ele pensou em boicotar o evento, mas McDaniel o convenceu a ir.

E com uma carreira marcada por papéis de empregadas, Hattie McDaniel foi muito criticada por várias organizações como a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (National Association for the Advancement of Colored People; NAACP), que lhe acusava de perpetuar uma imagem depreciativa dos negros na sétima arte. “Por que eu reclamaria de receber US$ 700 dólares por semana interpretando uma empregada? Do contrário, eu receberia US$ 7 dólares sendo uma“, teria dito uma vez. “Eu prefiro atuar como uma empregada ao invés de ser uma empregada.”

Após ganhar o Oscar de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’, a carreira da artista começou a declinar. “É como se eu tivesse feito algo errado”, afirmou a atriz em 1944. Quando os papéis pelos quais ela era chamada começaram a desaparecer, Hattie voltou ao rádio. Em 1947, ela conseguiu uma personagem no programa de rádio da CBS, “The Beulah Show”, sendo mais uma vez uma empregada, porém, quebrando estereótipos raciais, o que levou à aprovação da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP).

Em 1951, durante as filmagens para a televisão de “The Beulah Show”, Hattie sofreu um ataque cardíaco, morrendo em outubro do ano seguinte por câncer de mama, aos 57 anos. No seu testamento, ela pediu para ser enterrada em um caixão e uma mortalha brancos, além de gardênias brancas em seus cabelos e mãos, junto a cobertor branco e um travesseiro de rosas vermelhas.

Ela também pediu para ser enterrada no Hollywood Forever Cemetery, o que nunca aconteceu devido a uma política que só permitia corpos de artistas brancos serem levados para lá. Ela então foi enterrada no cemitério Angelus-Rosedale, o único de Los Angeles, na época, que recebia corpos de todas as raças. Em 1999, um memorial em homenagem a Hattie McDaniel foi feito no Hollywood Forever Cemetery. A ela também foram colocadas duas estrelas na Calçada da Fama.

Conheça Hattie McDaniel, primeira atriz negra a ganhar um Oscar

Seu Oscar foi deixado para a Universidade Howard, em Washington, contudo, desde a década de 1970 ele sumiu da instituição. Rumores dão conta de que ele teria sido atirado em um rio após a morte de Martin Luther King Jr. em 1968. Outros dizem que ele foi roubado ou teria sido jogado fora pelos empregados da faculdade. “É uma história triste”, contou W. Burlette Carter, uma professora da Faculdade de Direito George Washington. “Mas esse Oscar representa um triunfo para os negros, porque podemos olhar para trás e ver como coisas melhoraram com o passar do tempo.”

Em 2010, 70 anos após Hattie McDaniel fazer a história no Oscar, a atriz Mo’Nique foi premiada como ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ por “Preciosa – Uma História de Esperança”, e homenageou a falecida atriz. Vestindo um azul e um arranjo de flores parecidos com o utilizado por Hattie na cerimônia de 1940, dizendo: “queria agradecer a senhora Hattie McDaniel por ter suportado tudo o que suportou para que eu não precisasse passar pelo mesmo.”

Em entrevista ao Hollywood Reporter, no ano passado, Mo’Nique lembrou da atriz mais uma vez. “Se eles [os críticos de que McDaniel só interpretava empregadas] conhecessem quem era aquela mulher, eles diriam: ‘deixem eu fechar minha boca.’ Se eles realmente entendessem as lutas por trás das cenas, as conversas que nunca teremos a oportunidade ouvir. E então você diz a essas pessoas: ‘bem, me digam quais papéis estavam disponíveis.’ Porque ela era uma atriz, e naquela época ela não conseguia os mesmos papéis de seus colegas brancos. Ela dizia: ‘sou uma atriz. Quando você diz ‘corta’, eu não sou mais [a empregada].’ Então eu digo: conheçam aquela mulher de verdade antes de julgá-la.”

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