“Grace and Frankie” e a recusa à invisibilidade

[HÁ SPOILERS NESTE TEXTO!]

Conclui recentemente a segunda temporada de “Grace and Frankie”, série da Netflix estrelada por Jane Fonda e Lily Tomlin. A história, para quem ainda não viu, é sobre duas mulheres, nos seus 70 anos, obrigadas a reinventarem suas vidas, após seus maridos revelarem que querem o divórcio para que possam se casar um com o outro.

Gosto da série por diversos motivos. Um deles é justamente o fato de que a trama é centrada em duas mulheres com muito mais que 40 anos, algo raro em Hollywood. E isso significa que questões próprias da idade são tratadas no seriado, como a secura vaginal, que ocorre depois da menopausa, ou a perda auditiva. Contudo, tudo é tratado da maneira mais natural possível, e não daquela forma estereotipada que estamos acostumados a ver pessoas mais velhas sendo retratadas.

Além disso, “Grace and Frankie” lida com temas universais, como a sexualidade (afinal, o desejo sexual não acaba com a idade), a insegurança com os próprios corpos, a ansiedade antes de conhecer uma nova pessoa, e o medo da solidão. Aliás, medo este que une as duas mulheres, que são muito diferentes uma da outra.

Mas o que eu gosto mesmo da série é a forma como as personagens se recusam a ser invisíveis e a ocupar um lugar que foi criado para elas e não por elas. E isso, penso eu, chega a ser algo universal a todas as minorias também: estamos sempre lutando para sermos vistos em nossa plenitude e não daquela forma caricata e desumana que foi imposta socialmente.

E Grace e Frankie estão a todo o momento provando que elas não são e não querem ser aquele estereótipo das mães e avós dedicadas à família e sem uma vida própria. Mesmo após um divórcio devastador e que gera a dúvida da solidão numa etapa da vida “que não é tão longa”, como lembra Frankie, as duas não se conformam em viver uma vida que não foi desenhada por elas, tampouco querem passar o resto dos anos chorando pelo abandono dos maridos. Elas anseiam mais pela vida e vão atrás dela.

Porém, numa sociedade que louva a juventude e ainda não sabe lidar com a velhice, elas enfrentam uma série de desafios para terem sua humanidade vista e respeitada. Ao longo da série, elas confrontam essa invisibilidade, a qual parecem ‘estar destinadas’, como quando são ignoradas por um funcionário de um mercado, que atende uma mulher muito mais jovem, e acabam roubando um maço de cigarros (“Eles não podem me ver, então não podem me parar”, diz Frankie). Ou quando Frankie vai a um asilo, onde pretende ser professora, e é tratada como uma futura hóspede. É como se reforçássemos o tempo todo que não há muito o que esperar das pessoas a partir de certa idade.

Entretanto, o ‘fim da vida’ não precisa ser uma época de ‘finais’, mas de recomeços. E em vários sentidos. Se na primeira temporada as acompanhamos lidando com o ódio, a mágoa e o medo de não encontrarem alguém com quem partilhar a existência; na segunda nós as vemos se reinventando, buscando novos amores, tentando corrigir os erros do passado e empreendendo. Ou seja, fugindo do que esperam delas e construindo novos caminhos.

Em certo momento, elas descobrem que os ex-maridos mentiram mais de uma vez durante o casamento e nunca souberam, de fato, como lidar com as duas e suas subjetividades. “Eu continuo sendo tratada da forma que fui por 40 anos e não vou mais aceitar isso”, reclama Grace do comportamento adotado por seu ex-marido, Robert (Martin Sheen), que lhe comprava jóias apenas para não precisar conversar com ela ou discutir a relação.

Nesse mesmo episódio, elas confrontam toda a família, que ainda insiste em ignorá-las. É então que elas decidem fazer vibradores para mulheres com artrite (as duas estão sempre quebrando estereótipos), porque ‘mulheres mais velhas têm vaginas, também se masturbam e merecem mais do que aquilo’.

“Sério! Como eu vou explicar para meus filhos que a avó deles faz brinquedos eróticos para outras avós?”, indaga uma das filhas de Grace.

“Eu lhe direi o que dizer para eles. Fazemos coisas para pessoas como nós, porque estamos cansadas de sermos rejeitadas por pessoas como vocês.”

Através de suas personagens, Jane Fonda e Lily Tomlin nos ajudam a repensar a velhice e, como escreveu a Mari Messias no Lugar de Mulher, a construir futuros melhores, onde nós, principalmente as mulheres, não precisam se encaixar num modelo do que é a felicidade e o amor, pois as possibilidades são muitas. “[O seriado] Ele nos ajuda a ver que a vida e o afeto podem ser bem maiores do que nos ensinaram. Ele traz possibilidades e formas de ver que não tínhamos. Ele nos dá esperança.”

É por essas e outras que gosto de “Grace and Frankie”: não só trata de assuntos e pessoas que não vemos em outras produções de entretenimento, como nos faz ver a vida de uma outra maneira, de uma forma mais positiva e saudável. E, acima de tudo, vemos que não precisamos e nem devemos ser invisíveis. Se o lugar que você ocupa não foi criado por você, é hora de pular fora dele e construir seu próprio destino, afinal de contas, estamos sempre em tempo de recomeçar e nos rebelarmos.

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“Okay, pra trás, que eu vou perder a paciência agora”

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