Finalmente há outro gay negro em uma novela. Infelizmente, seus dias estão contados

Não é todo ano que uma novela introduz um personagem gay e negro. “A Lei do Amor”, exibida pela Rede Globo, no horário das 21h, é uma das poucas produções nacionais com um LGBT negro. Zelito, interpretado por Danilo Ferreira, é barman e viveria um romance com o frentista Wesley (Gil Coelho). Infelizmente, a relação entre os dois não vai chegar ao final feliz. Isso porque Zelito vai morrer em breve.

Na semana passada, o F5 noticiou que a morte seria resultado de um grupo de discussão feito para entender a baixa audiência do folhetim. De acordo com as informações, o personagem será morto a mando de Tião (José Mayer), após o barman descobrir que ele é o responsável pelo sumiço de sua amiga Isabela (Alice Wegmann). Sob ordem do banqueiro, Fininho (Hugo Resende) seduz Zelito, coloca uma droga em sua bebida, e ele “morrerá de overdose, após um beijo (que não será mostrado)”.

A Rede Globo, contudo, negou que a morte seria por conta da baixa audiência de “A Lei do Amor”. Ao Huffington Post Brasil, a emissora afirmou que “a morte de Zelito estava prevista desde a sinopse. Seu assassinato está ligado ao desaparecimento de [sua amiga] Isabela”.

Porém, não importa se foi uma escolha do público ou dos autores, a morte de Zelito é decepcionante, para dizer o mínimo.

Não seria a primeira vez que um personagem LGBT teria seu destino alterado em uma novela por decisão de um público incomodado com esses indivíduos. No ano passado, “Babilônia” teve de cortar cenas de beijos entre Teresa (Fernanda Montenegro) e Stela (Nathalia Timberg), assim como mudou a trama de Carlos Alberto (Marcos Pasquim), o qual seria gay e se envolveria com Ivan (Marcello Melo Jr.). E essa não é, definitivamente, a primeira vez que a Globo mata um personagem LGBT: em “Torre de Babel”, folhetim exibido em 1998, o casal formado por Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) morreu no último capítulo.

Com isso, a mensagem que se transmite é de que a vida de LGBTs pouco importam. E se essas pessoas são negras, suas vidas importam menos ainda, já que além de serem pouco representadas, ainda morrem quando finalmente ganham a oportunidade de aparecer.

Em um país que lidera a morte de gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans, a mídia tem um papel fundamental em educar o público, trabalhando na aceitação desses indivíduos. E quando a mídia opta pelo caminho de mudar a história ou matar um personagem LGBT, ela contribui com um sistema de desumanização e violência contra essas pessoas.

Obviamente LGBTs também podem morrer em novelas, filmes e seriados. Mas é preciso avaliar o impacto que a morte terá para a trama. É muito comum que elas aconteçam para que a história do personagem principal (que na maioria das vezes é hétero e cisgênero) avance. Esse é um padrão que foi notado nas produções americanas, as quais tiveram 25 mortes de lésbicas e mulheres bissexuais em seriados somente em 2016.

A morte de Zelito em “A Lei do Amor” deve ir ao ar no dia 3 dezembro. Será uma perda para nós, LGBTs, que lutamos para ser vistos e representados em toda nossa complexidade, e será uma perda ainda maior para gays negros, que não terão mais a oportunidade de se enxergarem na televisão.

Se algo positivo pode sair disso, é a reação negativa que a morte do personagem gerou na internet. Talvez os criadores de conteúdo possam aprender algo com esse episódio. Até lá, precisamos seguir cobrando por mais.

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