Este estudo explica como acontece a disparidade de gênero em Hollywood

Em tempos de discussão sobre a falta de diversidade étnica no Oscar deste ano, é válido dizer que a indústria cinematográfica como um todo falha ao representar todas as minorias, seja na frente ou atrás das câmeras. E isso inclui um grupo que compõe metade da população mundial: as mulheres.

Um estudo do ano passado analisou os 700 filmes campeões de bilheteria lançados entre 2007 e 2014 – excluindo o ano de 2011 – e constatou que a elas são dados apenas 30% dos papéis. Não só isso, as mulheres representam um grupo bem pequeno de diretoras e roteiristas, o que não surpreende uma agência federal investigar a baixa contratação de diretoras no cinema e na televisão.

E se Hollywood quer aumentar e melhorar a participação das mulheres na atuação, é preciso aumentar o número delas atrás das telas. É o que diz um novo relatório sobre a disparidade de gênero no cinema, o “Hollywood’s Gender Divide and Its Effect on Films”, o qual examinou o gênero dos roteiristas, produtores e diretores dos longas que falharam no Teste Bechdel.

Antes de mais nada, o Teste Bechdel mede a representação das mulheres nos filmes e, para passar, é preciso preencher três requisitos: ter ao menos duas mulheres nele, elas precisam conversar entre si algo que não sejam homens. Seria muito fácil, afinal, no mundo real, isso acontece o tempo todo. Porém, quando se trata de cinema, não é bem assim: cerca de 40% dos filmes não passam no teste.

A justificativa para isso, de acordo com Lyle Friedman, Matt Daniels e Ilia Blinderman, autores do estudo, é que, em geral, os cineastas fazem filmes sobre coisas que conhecem. “Como a maioria dos diretores, roteiristas e produtores mais poderosos são homens, temas masculinos permeiam as produções de Hollywood”, sugerem.

Para comprovar essa teoria, eles verificaram o gênero dos diretores, produtores e roteiristas de milhares de filmes lançados entre 1995 e 2015. O objetivo final era descobrir se os longas com mulheres atrás das câmeras passam no Teste Bechdel. Ou seja, eles precisam ter ao menos duas mulheres que conversam entre si algo que não seja um homem.

Na primeira amostra, foram analisados o gênero dos roteiristas de 200 filmes campões de bilheteria. Quando eles possuem uma equipe de roteiro toda formada por homens, 53% deles falham no Teste Bechdel. Com ao menos uma mulher, 62% deles passam. Os oito filmes, cuja equipe de roteiristas é inteira composta por mulheres, foram aprovados. Entre os reprovados estão: “Avatar”, “Procurando Nemo”, “Gladiador” e “Sherlock Holmes”.

Este estudo explica a disparidade de gênero em Hollywood

Foram, então, analisados 4 mil filmes listados no site bechdeltest.com, desta vez, além do gênero dos roteiristas, foram examinados os gêneros dos diretores e produtores. Mais uma vez, não houve surpresa. Quando as equipes são todas masculinas, em torno de 40% dos filmes falham. Adicione uma mulher, no caso de roteiro, e o percentual cai para menos de um terço. Na produção, pouco mais de 30% falharam no teste. O percentual diminui ainda mais quando as equipes são todas femininas, do roteiro à produção e direção. “É bem visível no filme. Quando os homens fazem os longas, o que está nas telas é o reflexo do que está atrás delas”, dizem os autores.

Os estúdios europeus tiveram menos filmes reprovados no Teste Bechdel: 34%. Já os estúdios americanos foram pior. A DreamWorks lidera o ranking com 55%, seguido da Warner Bros e Columbia, ambos com 53% de filmes reprovados.

Quando colocadas as proporções de homens e mulheres nos filmes, eles ainda superam as mulheres, especialmente em filmes de grande bilheteria. Filmes que arrecadaram mais de US$ 500 milhões de dólares, há 8 homens para cada mulher no roteiro. Já na direção, a diferença é ainda maior: 22 homens para cada mulher. Sem sombra de dúvidas, Hollywood é uma indústria comandada e feita para homens.

Este estudo explica a disparidade de gênero em Hollywood

“Acho que o fato das coisas não terem mudado em 20 anos foi um pouco surpreendente”, afirmou Lyle Friedman, uma das autoras do estudo ao site da Fortune. “Há essa ideia de que o tempo melhora as coisas naturalmente, mas acho que o tempo talvez seja bem neutro. Me pergunto como poderíamos levar isso à mesa de um executivo e ver a oportunidade perdida que isso é.”

Embora o Teste Bechdel não queira dizer que os filmes sejam bons ou ruis (o que foi reconhecido pelos próprios autores do estudo), tampouco se a representação feminina é realmente apurada, ele ajuda a perceber o quão excludentes os filmes realmente são.

Para mudar o cenário, o documento sugere que Hollywood utilize algo similar à Regra Rooney, implementada na liga de futebol americana. Ela exige que os times considerem candidatos de minorias para o cargo de técnico e outras posições. “Hollywood deveria fazer o mesmo: entrevistas obrigatórias com uma pessoa de cor e uma mulher para cada cargo de showrunner/diretor/roteirista/produtor”, escrevem os autores. “Alguma coisa está impedindo que esses números mudem. Até eles mudarem, teremos filmes com falta de muitas perspectivas profundas. A vida real passa no Teste Bechdel; nosso mundo imaginário também pode.”