Entendendo o que são microagressões com “Pequenos incêndios por toda parte”

O primeiro contato de Elena Richardson (Reese Witherspoon) com Mia Warren (Kerry Washington) em “Pequenos incêndios por toda parte” se dá logo nos minutos iniciais. Ao passar de carro por um estacionamento, Elena avista um veículo antigo parado e cheio de malas. Ao chegar no trabalho, ela liga para a polícia para relatar o que viu, justificando-se de que “odiaria não dizer nada para depois algo ruim acontecer”, adicionando, em seguida, que havia uma “mulher afro-americana” morando dentro do veículo.

Para muitas pessoas, a cena em questão pode não ser nada de mais ou até uma preocupação “legítima” de Elena. Porém, ao informar a raça de Mia em meio a uma denúncia à polícia do que ela julga ser uma atividade suspeita, a mulher faz uma associação racista entre negros e criminalidade. Essa é apenas uma dentre as várias microagressões que Elena comete contra Mia e outros personagens negros ao longo da minissérie.

Entender o que são essas ações e comentários que escondem vários preconceitos, e como evitá-los, é fundamental para criar uma mudança positiva nas nossas relações, comunidades e na sociedade como um todo.

O que são microagressões

A expressão pode parecer nova, mas ela já existe há, aproximadamente, 50 anos. Foi na década de 70 que o psiquiatra e professor americano Chester M. Pierce cunhou o termo para descrever as muitas maneiras com as quais brancos insultam negros. 

Ele escreveu o seguinte:

“Esses ataques [raciais] à dignidade negra e à esperança negra são incessantes e cumulativos. Qualquer um pode ser grosseiro. Na verdade, o maior veículo para o racismo nesse país são as ofensas cometidas aos negros pelos brancos de maneira gratuita e infinita. Essas ofensas são microagressões. Quase todas as interações raciais entre negros e brancos são caracterizadas por humilhações, feitas em automático, pré-conscientes ou feitas de maneira inconsciente. Esses pequenos desastres acumulam-se. A soma de múltiplas microagressões pelos brancos contra os negros é o que causa um efeito pervasivo à estabilidade e à paz neste mundo”.

Ou seja, as microagressões acontecem frequentemente, mas na maioria das vezes, de maneira inconsciente; sem intenção de uma pessoa em machucar alguém. E se naquela década o professor referia-se a situações às quais a população negra enfrentava e ainda enfrenta, hoje a definição abrange também mulheres, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e qualquer pessoa que se identifique com um grupo marginalizado.

Por serem muito sutis, as microagressões podem ser difíceis de serem reconhecidas, especialmente porque, em muitos casos, elas podem soar como um elogio; como: “você até é muito bonita para uma mulher gorda” (pessoas gordas não podem ser atraentes?) ou “você nem parece gay” (existe um jeito “certo” para ser gay?). 

Existem três categorias para entender as microagressões: são os microataques, os microinsultos e as microinvalidações.

  • microataques: comentários e atitudes feitos deliberadamente, com o intuito de ofender ou humilhar alguém. Por exemplo: o uso de termos insultantes ao se referir a negros ou a pessoas LGBTQIA+; comentários desrespeitosos ou toques sem consentimento no corpo de uma mulher; piadas racistas; tentativa de intimidar um casal gay ou de lébicas que estejam andando de mãos dadas;
  • microinsultos: mensagens e atitudes ofensivas, mas feitas de maneira menos óbvia e sem a intenção de machucar alguém, mas que revelam algum tipo de preconceito da pessoa. Por exemplo: pessoas que abraçam seus pertences quando veem uma pessoa negra por perto; seguranças que seguem negros em lojas; interromper continuamente uma mulher quando está falando; tocar no cabelo de uma pessoa negra sem a permissão dela; dizer que algo é muito gay; perguntar se uma pessoa trans fez uma cirurgia de redesignação sexual; falar com uma pessoa com deficiência como se ela fosse uma criança;
  • microinvalidações: também são feitas de maneira inconsciente, mas nesse caso visam invalidar ou apagar a experiência de alguém com determinada realidade. Por exemplo: pessoas que dizem que “não veem cor, mas a alma das pessoas”; dizer que alguém está sendo sensível demais quando ela relata ter sofrido preconceito; dizer que alguém conseguiu algo por meio de cotas e não por mérito; “eu não sou racista, até tenho amigos negros”.

Elena Richardson e as microagressões

Reese Witherspoon e Kerry Washington em cena. Foto: Erin Simkin/Hulu

Durante os 8 episódios de “Pequenos incêndios por toda parte”, Elena comete uma série de microagressões, além das duas citadas anteriormente. 

Ainda no primeiro episódio, Elena convida Mia para trabalhar em sua casa para fazer uma “limpeza leve, lavar roupa e fazer o jantar”. “Para ser sua empregada?”, indaga Mia. “Mais como uma governanta. O que eu quis dizer é mais como uma gerente do lar”, Elena diz, tentando consertar.

Nesse diálogo entre as duas, é possível notar como Elena se sente superior a Mia, oferecendo a ela o trabalho que muitas mulheres negras foram forçadas a desempenhar durante o período escravagista nos Estados Unidos (e no Brasil) – e que permanece no subconsciente de pessoas brancas: negros estão aqui para servir.

Em outro momento, ela recebe Pearl (Lexie Underwood), filha de Mia, para um jantar em sua casa. Entre uma conversa e outra, os adolescentes falam sobre faculdade e Lexie (Jade Pettyjohn), filha mais velha de Elena, diz que “com todas essas ações afirmativas”, Pearl “será aceita em qualquer universidade”. Ao receber um chute de Moody (Gavin Lewis), ela se defende: “é o que Brian sempre diz”. “É o namorado ela. Ele é afro-americano”, interfere a matriarca dos Richardson com um sorriso, numa clara tentativa de invalidar qualquer pensamento que Pearl tenha sobre Lexie ter feito um comentário racista. O namorado da filha é negro, logo, ela não poderia ser racista.

E Brian (Stevonte Harte) também é alvo das microagressões de Elena: em outro jantar, Pearl se apresenta a ele, sendo interrompida por Elena: “vocês não se conhecem? Vocês vão adorar um ao outro. Tenho certeza que vocês têm muito em comum”. Além do fato de ambos serem negros, o que mais eles teriam em comum? Todos os negros têm os mesmos gostos e opiniões? 

Um pouco mais tarde, a mãe recorda de uma passeata que participou com Martin Luther King Jr., dizendo que havia uma “mistura linda de pessoas” e olhando para Brian enquanto relembra que havia “afro-americanos” no local. Ou seja, ela marchou ao lado de negros e de líderes negros, assim, ela não pode ser chamada de racista.

Como evitar e combater as microagressões

As microagressões possuem impacto real na saúde mental das pessoas. Alguns estudos realizados demonstraram que as microagressões elevaram os níveis de depressão e estresse, enquanto diminuíram a autoestima e pensamentos positivos naqueles que as receberam. Pesquisas ainda relacionam as microagressões com baixo desempenho em entrevistas de emprego e no trabalho.

Assim, para evitar e combater as microagressões, segundo o psicólogo e professor Derald W. Sue, importante nome sobre o tema nos Estados Unidos, é fundamental que fiquemos atentos aos nossos preconceitos e medos. 

Por termos uma tendência a nos vermos como boas pessoas e com as melhores das intenções (como é o caso, também, de Elena Richardson), evitamos pensar que seríamos capazes de ofender alguém. Por isso, é essencial nos mantermos abertos e aprender mais com as pessoas que são diferentes de nós, de forma a ampliarmos nossas perspectivas.

Depois da morte de George Floyd, um homem negro assassinado por policiais nos Estados Unidos, um debate global sobre racismo e violência institucional aconteceu no mundo todo, inclusive no Brasil, onde negros representam 75% dos mortos pela polícia, segundo um relatório da Rede de Observatórios de Segurança.

Desde então, o fato fez com que as pessoas protestassem e se questionassem sobre como poderiam atuar no combate à discriminação racial. Ter consciência do que se faz e diz é um bom primeiro passo para ajudar na luta antirracista, alcançar a igualdade e evitar a violência que tem tirado tantas vidas negras.