“Emily em Paris” oferece um certo conforto em meio ao caos do mundo

O ano de 2020 não tem sido fácil para ninguém. Caso seja preciso trazer alguns pontos para comprovar minha afirmação: ainda estamos no meio de uma pandemia que já matou mais de 1 milhão de pessoas no mundo (mais de 150 mil só no Brasil); o país tem visto suas florestas queimarem como nunca; a economia vai muito mal, exceto para os bilionários, que viram a sua fortuna aumentar ao passo que a pobreza vem crescendo; e ainda há eleições presidenciais nos Estados Unidos com impacto nos quatro cantos do globo. Há muito mais para nos preocuparmos, obviamente, mas a lista ocuparia espaço demais neste texto.

Assim, ter um momento para esquecer de tudo isso, mesmo que por minutos, ajuda a equilibrar a mente em meio ao caos que estamos vivenciando. Um seriado leve e engraçadinho como “Emily em Paris” pode, sim, ser essa fonte de distração necessária em tempos tão turbulentos.

A nova série da Netflix estreou no catálogo da plataforma no dia 2 de outubro, e traz Lily Collins no papel de Emily Cooper, uma executiva de marketing de Chicago, que é enviada a Paris para trabalhar em uma agência de publicidade comprada recentemente pela empresa na qual é funcionária. Na Cidade Luz, a moça enfrenta adversidades e barreiras culturais, mas tudo sempre acaba bem, afinal, “quem não quer ver o herói vencer no final?”, como questiona a protagonista em um dos episódios.

A ida de Emily para a capital francesa, contudo, não é planejada: somente quando sua chefe Madeline (uma Kate Walsh pouco aproveitada) descobre que está grávida, a viagem com o dream job é transferida para a protagonista. Em pouquissímo tempo, a jovem está em Paris, fazendo diversas selfies, comendo croissants e usando boinas e roupas caríssimas. É impossível não pegar referências ao filme “O diabo veste Prada”, não só pela moda, mas também porque a nova chefe de Emily, Sylvie (Philippine Leroy-Beaulieu), parece uma espécie de cópia de Miranda Priestly, interpretada pela icônica Meryl Streep; e os novos colegas de trabalho, a princípio, também são pouco receptivos à novata.

É válido dizer, entretanto, que a hostilidade enfrentada por ela não é exatamente gratuita: Emily chega ao novo escritório sem falar nada de francês além de “bonjour” e, em vez de aprender a fundo o novo idioma, espera que todos falem inglês (o que todos acabam fazendo). Não só isso, a forma um tanto arrogante de levar “o ponto de vista americano” para os franceses não a torna exatamente agradável. Porém, essa é uma comédia romântica, logo, ela consegue conquistar os corações de seus colegas – e dos homens franceses, claro!

Ao longo dos episódios, Emily se envolve com alguns homens, mas aquele que conquista mesmo seu coração é o chef Gabriel (Lucas Bravo), um vizinho que ela descobre ao errar a contagem de andares no prédio onde mora. Charmoso e prestativo, não demora muito para que Emily se apaixone pelo cara. O problema: ele tem uma namorada. Outro problema? Ela é Camille (Camille Razat), uma das melhores amigas que a protagonista faz durante o tempo em Paris.

Já os maiores problemas, para mim, foram a falta de diversidade do elenco e o enredo extremamente heteronormativo. Apesar de ter alguns personagens não brancos, como a divertida Mindy Chen (Ashley Park) e o sarcástico Julien (Samuel Arnold), “Emily em Paris” ainda é extremamente branco e não há um personagem LGBTQIA+ (ou pelo menos assumido). E, sim, a representação dos franceses como pessoas extremamente grosseiras, fumantes, ricas e sempre estilosas está longe de corresponder à realidade da cidade. Contudo, creio que não tenha sido intenção da série representar toda a complexidade e diversidade de Paris e de seus cidadãos.

Pelos últimos parágrafos, acredito que seja possível imaginar os diversos clichês de comédia romântica vivenciados por Emily ao longo dos 10 episódios do seriado. De fato, são muitos, como a crítica pontuou nas várias avaliações sobre a obra, mas eles não tornam ruim a experiência de assistir à série da Netflix. Pelo contrário, existe até um certo conforto de que, de alguma forma, tudo vai acabar bem.

“Emily em Paris” é um seriado divertido, cheio de clichês e de situações que só acontecem nessas produções. É o tipo de passatempo que a gente precisa, de vez em quando, para voltar a ver la vie en rose.