O feminismo começou a mudar a cara de Hollywood em 2015

Hollywood ainda tem muito o que fazer pela igualdade de gêneros. Um estudo deste ano revelou que as mulheres ficam apenas com 30% dos personagens do cinema, o que é ainda pior quando se leva em consideração raça, orientação sexual, identidade de gênero e idade das atrizes. E quando falamos de diretoras, roteiristas e produtoras, a figura continua ruim.

A televisão, que costuma ser mais progressista do que a sétima arte, também está longe do ideal, na frente e atrás das câmeras.

É fácil ficar pessimista quando vemos que em 67 anos do Emmy Awards, Viola Davis foi apenas a primeira mulher negra a conseguir levar o prêmio. Ainda assim, as mulheres que compõe a indústria cinematográfica se mobilizaram em 2015 contra o machismo de Hollywood, algo que deve continuar acontecendo em 2016 e nos próximos anos que virão.

Durante o Globo de Ouro deste ano, apresentado pelas atrizes Tina Fey e Amy Poehler, além de ter sido uma premiação que reconheceu a diversidade como algo positivo e necessário, a dupla tornou o evento o mais feminista de toda sua história. Além, de lembrarem o trabalho de Amal Alamuddin, advogada de Direitos Humanos, e esposa do ator George Clooney (que receberia o prêmio por sua carreira), elas ainda fizeram piada sobre Bill Cosby, famoso ator americano acusado de estuprar dezenas de mulheres.

Em premiações como o Globo de Ouro e o Oscar, são comuns as entrevistas nos tapetes vermelhos com os atores e atrizes que fizeram os filmes indicados, porém, a elas cabem as perguntas sobre o que estão vestindo, cabelo, maquiagem, relacionamentos e maternidade. É por isso que um movimento forte resolveu mudar esse jogo. A campanha #AskHerMore chegou com tudo nas redes sociais e forçou os entrevistadores a perguntarem às mulheres sobre seus trabalhos e realizações, afinal, elas têm muito mais a falar do que apenas vestidos.

Em 2015, as atrizes também pediram salários iguais. Isso mostra que, não importa o quanto você caminhe no mundo e o quão boa você seja, enquanto mulher, você ainda terá seu trabalho desvalorizado quando comparado ao de um homem.

No Oscar deste ano, Patricia Arquette, ganhadora do prêmio de “Melhor Atriz Coadjuvante”, pediu em seu discurso, salários justos para todas as mulheres, o que levou Meryl Streep e Jennifer Lopez, que assistiam à cena, vibrarem em seus assentos. “Há um entendimento não-dito que você não deve ser política naquele palco. Mas a verdade é que as mulheres não podem mais esperar. Temos que ser políticas. Não acho que nós possamos continuar sendo excluídas da conversa”, disse Patricia ao The Hollywood Reporter.

O feminismo começou a mudar a cara de Hollywood em 2015

Jennifer Lawrence também se manifestou conta a disparidade salarial entre homens e mulheres em Hollywood, escrevendo um artigo, e pediu às mulheres do mundo todo que não tenham medo de negociarem seus pagamentos, afinal, homens não precisam fazer o mesmo. “Se eu não usar minha voz pelas mulheres que não possuem voz, então qual é o propósito?”, disse Jennifer recentemente, que se inspirou na sua personagem Katniss Everdeen de “Jogos Vorazes” para redigir seu texto.

O manifesto da atriz repercutiu muito, o que levou o ator Bradley Cooper a aliar-se às mulheres de sua indústria, afirmando que dividiria com elas o quanto receberia por seus papéis, a fim de que elas brigassem por salários melhores. “Em geral, vivemos numa sociedade patriarcal”, comentou Bradley em uma entrevista. “Você pode atestar isso. Você provavelmente viu a evolução disso. É sintomático de um problema maior. Acho que, provavelmente, em outras profissões deve ser muito pior.”

O feminismo começou a mudar a cara de Hollywood em 2015

O artigo de Jennifer Lawrence levou a um movimento de atrizes e atores comentando sobre a diferença salarial em Hollywood, como Sharon Stone, Julia Roberts, que demonstraram apoio à primeira. Contudo, houve quem não concorde com essa “conversa em voz alta” sobre salários iguais, como Kate Winslet, que considerou o assunto “vulgar”. Jeremy Renner foi outro ator que também se opôs a essa conversa, afirmando que não há nada que ele possa fazer a respeito. Rever privilégios não é mesmo algo que o ator gosta de fazer, como já vimos anteriormente.

Num olhar interseccional, enquanto atrizes brancas e negras estão todas lutando contra o machismo em sua indústria, as segundas ainda lidam com a falta de oportunidades dadas a elas, conforme lembrou Viola Davis, no Emmy Awards, em setembro, ou no SAG Awards, em janeiro. Em ambas oportunidades, ela lembrou da dificuldade de mulheres negras em conseguirem papéis. “Deixem-me dizer uma coisa: a única coisa que separa mulheres negras de todos os outros é a oportunidade. Você não consegue ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”, desabafou no Emmy.

O feminismo começou a mudar a cara de Hollywood em 2015 Chris Pizzello/Invision/AP

É por isso que ela abriu sua própria produtora, como uma forma de contar histórias que não chegam a nós. “Eu preciso aproveitar esse momento, porque não há muito sendo escrito para pessoas como eu”, explicou Viola ao The New York Times. “E eu preciso fazer algo com esse pedaço de raça que tenho. A necessidade é a mãe da invenção.”

Em 2015, vimos várias atrizes negras tenho seu trabalho reconhecido, como Regina King, Uzo Aduba, Taraji P. Henson e Kerry Washington. Mas como lembra Ava DuVernay, no lançamento de sua boneca Barbie, “mulheres negras não são um monólito.” É preciso que mais mulheres negras alcancem o mainstream, para que possam contar suas histórias e darem uma perspectiva positiva para outras mulheres como elas.

Esse é, também, o objetivo de outras atrizes, que querem inspirar meninas e mulheres com seus papéis. “Eu tomo cuidado ao escolher os personagens, porque eu quero inspirar pessoas. Eu quero que as meninas assistam a ‘Perdido em Marte’ e digam ‘eu quero ser comandante em uma missão para Marte [papel de Jessica no longa]’ e que tudo bem, você pode querer ser uma escritora, se apaixonar, fazer tudo isso e ainda pode se salvar”, afirmou Jessica Chastain. “Quanto mais independente e livre uma mulher é, acho que essas são as histórias que mais inspiram pequenas garotas.”

Isso quer dizer que o salário justo não é a única demanda das mulheres, mas uma representação melhor da mulher no cinema. “A partir do momento em que mudamos a forma como as mulheres são vistas e paramos de vê-las como ‘menores do que alguém’, a disparidade salarial será solucionada. Temos um problema maior nas mãos. Fico feliz que Hollywood está na mira”, elogiou Sandra Bullock à revista Variety.

O feminismo começou a mudar a cara de Hollywood em 2015

O machismo enfrentado pelas mulheres pode ser universal, mas não dá para universalizar suas experiências, tampouco prendê-las à dicotomia de que elas só podem ser inteligentes e puras ou idiotas e sensuais. Nenhum ser humano é assim no mundo real, por que as mulheres deveriam ser nas artes?

Dito isso, elas também correspondem a mais da metade da população mundial, portanto, o que elas querem, também, é terem mais espaço, não só na frente das câmeras, mas atrás delas também. “Meu marido ri de mim, mas eu não assisto a filmes somente com homens. Eu não suporto”, afirmou Juliane Moore num bate-papo promovido pelo The New York Times.

Portanto, por mais que as mulheres continuem ganhando menos, tendo menos oportunidades de trabalho e com um tratamento diferente por serem mulheres, 2015 foi um ano em que elas reivindicaram seus direitos, um reflexo das lutas de todas as mulheres no mundo todo. E há mudanças acontecendo. “Estamos vendo mudanças, especialmente na televisão”, acredita Ellen Page. “Olhe para ‘Orange Is The New Black’, um exemplo perfeito de um elenco incrivelmente diverso com atrizes incríveis. E eu espero que esteja ficando claro que as pessoas querem experimentar histórias e realidades diferentes, sejam elas socioeconômicas, raciais, sexuais ou de identidade de gênero.”

O feminismo começou a mudar a cara de Hollywood em 2015

Há muito trabalho a ser feito ainda na indústria cinematográfica no que diz respeito à diversidade e às mulheres, porém, ações já estão sendo tomadas. Segundo o Deadline, grandes executivos se reuniram secretamente “para resolver os problemas de disparidade de gênero de Hollywood.” Simultaneamente, uma agência federal americana está investigando a baixa contratação de mulheres como diretoras no cinema e na televisão.

“As diretoras não estão trabalhando em condições de igualdade e não têm as mesmas oportunidades de sucesso. Discriminação por gênero é ilegal e Hollywood não está imune quando se trata de direitos civis e discriminação de gênero”, contou à Variety Melissa Goodman, diretora do Projeto de Justiça Reprodutiva, Gênero e LGBT da União Americana pelas Liberdades Civis, do sul da Califórnia.

Além disso, Meryl Streep financiou uma iniciativa que visa formar mulheres roteiristas com mais de 40 anos; Ava DuVernay possui uma distribuidora, cujo objetivo é entregar ao público histórias mais diversas do que as mesmas focadas “no homem branco e heterossexual”; e há filmes trocando o gênero dos protagonistas – de homens para mulheres. E, claro, as atrizes e as mulheres da indústria cinematográfica continuam a pedir mais representação e igualdade de direitos e tratamento. E nós podemos fazer parte disso ao apoiar filmes feitos por mulheres com histórias sobre mulheres. Essa é uma forma de continuar trazendo essas produções para os cinemas.

"Há muitos filmes sob a perspectiva de homens brancos heterossexuais", afirma Ava DuVernay

Não é perfeito ainda, mas 2015, com certeza, plantou uma semente que renderá um futuro muito melhor para as mulheres. “Imagine isso: o que aconteceria se nós fossemos corajosas o suficiente e fossemos um pouco mais ambiciosas?”, perguntou a atriz e produtora Reese Whiterspoon, em um discurso recente. “Acho que o mundo mudaria.”

O mundo está mudando. E nós veremos isso nas telas dos cinema.

Comments

  1. Caio Borrillo Responder

    E que mude cada vez mais!

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