Seja lésbica ou esteja solteira, ambos os destinos de Elsa podem ser muito positivos

Nos últimos dias, uma campanha ganhou força na internet: ela pede para a Disney arrumar uma namorada para a princesa Elsa na sequência de “Frozen – Uma Aventura Congelante”, que deve chegar aos cinemas em 2018.

A ideia surgiu no Twitter, através de Alexis Isabel, fundadora do blog Feminist Culture, e criadora da hashtag que ganhou milhares de adeptos no mundo todo, a #GiveElsaAGirlFriend (“Dê a Elsa Uma Namorada”). Em um artigo publicado no MTV News, ela escreve que a história da princesa na animação é como “uma metáfora sobre a experiência de sair do armário e aceitar quem você é”. Ela conta, também, que as princesas já se apaixonaram por feras (Bela) e ogros (Fiona), “mas nunca vimos a pureza de um relacionamento entre duas mulheres.”

E desde que sua campanha viralizou na redes sociais, tenho visto várias opiniões, mas duas me chamaram mais a atenção: enquanto muitos incentivam que Elsa saia do armário, outros preferem que ela não tenha um par romântico, não porque não concordem com a homossexualidade, mas porque preferem que ela seja independente e mostre que estar solteira também é algo positivo.

Se você me perguntar, também gosto da ideia de que a princesa arrume uma namorada. Eu vivo para que existam mais histórias LGBT na mídia e, com certeza, essa seria uma em que eu vibraria muito. Entretanto, ao mesmo tempo, sinto que ambas as situações para a personagem, ser lésbica ou estar solteira, são uma vitória de diferentes formas.

Elsa já demonstrou em “Frozen” que é independente e que não precisa do amor de um homem para salvá-la e torná-la feliz. Ela foi apenas a terceira princesa da Disney a terminar uma animação sozinha. Antes dela, Pocahontas foi a primeira a terminar um longa sozinha, embora tivesse um par romântico na trama. Em seguida veio Merida, de “Valente”, cujo filme foca na relação entre a protagonista e sua mãe.

Vivemos em mundo que associa o valor de uma mulher ao comprimento de sua roupa, seu comportamento e se está num relacionamento. A partir do momento em que é construída uma nova narrativa, uma que fuja a esse padrão, é oferecido ao público, e em especial às meninas, uma alternativa em que é permitido a elas que definam quem são e o que querem ser e fazer no futuro, ao invés de prendê-las a ideias ultrapassadas de como uma mulher deve se portar e que deve aspirar o casamento como seu objetivo mais importante na vida. Por isso, se Elsa permanecer solteira, as crianças receberiam uma mensagem de que estar sozinha não é sinônimo de fracasso e que é responsável por sua própria felicidade.

Ao mesmo tempo, histórias LGBT começam a ganhar um pouco mais de espaço na mídia, ainda que esse espaço seja muito limitado. Caso a personagem venha a ganhar um par romântico feminino no futuro, ela se tornaria a primeira princesa lésbica de toda a história da Disney, uma das maiores empresas de entretenimento do mundo. Seria uma forma de apoiar uma comunidade que ainda luta para ter uma representação apurada e justa no cinema.

Na última segunda-feira (2), a GLAAD, organização que monitora a representação LGBT na mídia dos Estados Unidos, divulgou um relatório em que critica a representação de gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans na indústria cinematográfica. Em 2015, entre os 126 grandes lançamentos dos maiores estúdios de Hollywood, apenas 22 (17,5%) continham algum personagem LGBT. A pesquisa concluiu também que, muitas vezes, esses mesmos personagens não possuem aprofundamento na história, são mortos ou motivos de piada. “A pouca consistência na representação LGBT nos filmes permanece um padrão infeliz”, afirmou a presidente da GLAAD, Sarah Kate Ellis.

Não só isso, a instituição avaliou os estúdios pela quantidade e qualidade dos personagens LGBT que foram criados no último ano. A Disney foi reprovada por não feito qualquer personagem gay, lésbica bissexual ou trans em 2015. Portanto, seria um avanço significativo para a empresa incluir uma princesa lésbica em uma de suas produções. Se a empresa gosta de se proclamar ‘inclusiva’, já é passada hora de incluir personagens LGBT em suas histórias.

Vale acrescentar que, somente no começo deste ano, seis personagens lésbicas e bissexuais foram mortas em séries de televisão. Essa prática, conhecida como “Bury Your Gays”, era muito mais comum no passado, e diz respeito ao final trágico destinado aos personagens gays e lésbicas, os quais eram mortos pelos roteiristas. Era esperado que isso terminasse, mas, infelizmente, a prática ainda persiste.

Por fim, assim como “As Meninas SuperPoderosas” conseguiram falar sobre identidade de gênero em um de seus episódios mais recentes, seria uma boa oportunidade para a Disney introduzir o tema da homossexualidade para as crianças, mostrando a elas que não há mal nenhum em ser lésbica e que o amor é universal.

Não se sabe ainda o que vai acontecer em “Frozen 2”. O diretor do filme, Chris Buck, prometeu apenas que iria manter o foco no relacionamento entre as irmãs, mas garantiu que iria tratar de assuntos “que meninos e meninas, homens e mulheres, estão lidando”, acrescentando que ele e a roteirista, Jennifer Lee, “estão antenados com o que acontece hoje na sociedade”.

Seja Elsa lésbica ou esteja ela solteira, ambos os destinos podem ser muito positivos, caso sejam construídos da maneira correta. Temos que aguardar para ver como essa história vai acabar, mas eu já espero um final feliz. Seja ele qual for.

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