Documentário sobre abandono paterno busca financiamento coletivo

  17. outubro 2016   Cinema   0
Documentário sobre abandono paterno busca financiamento coletivo

Estima-se que 5,5 milhões de crianças brasileiras não tenham o nome do pai em seus registros. Segundo dados revelados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, os Estados do Rio e São Paulo concentram a maior quantidade de casos, os quais podem ser ainda mais numerosos, já que o levantamento leva em conta apenas os jovens matriculados no sistema educacional do país.

O tema e suas consequências nas vidas dos filhos serão os guias do documentário “Todos Nós 5 Milhões”, que está com uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse. O roteiro é de Alexandre Mortágua, que também dirige a obra. Ele, assim como outros milhões de brasileiros, também não teve a presença do pai em sua vida.

“Tenho o nome do meu pai nos meus documentos, recebo pensão alimentícia, mas, nos meus quase 22 anos, nos encontramos [apenas] uma dezena de vezes, e a maioria delas em audiências na justiça”, ele contou em uma entrevista por email ao Prosa Livre. “Minha mãe, que na época tinha dois anos a mais do que eu tenho hoje, foi atrás dos meus direitos e, depois de um ano de batalha judicial – e uma campanha difamatória – , conseguiu que eu fosse registrado e recebesse meus direitos”.

Para montar o filme, serão realizadas entrevistas com mães solteiras, juristas, pesquisadores e filósofos, que abordarão o tema em toda sua complexidade, apresentando dados e explicando como o Brasil chegou a um número tão grande de crianças abandonadas pelos pais. Além deles, filhos que não possuem o reconhecimento paterno também contribuirão com seus relatos.

“É muito plural a situação de abandono afetivo”, diz Mortágua. “Tem, por exemplo, um entrevistado que encontrou com o pai algumas vezes, mas o pai preferiu nunca encostar nele; não o segurava no colo e tratava sua mãe com desprezo. Ele não tem o reconhecimento do pai até hoje”.

Para arrecadar fundos para a realização da obra, foi aberta uma campanha no Catarse, onde qualquer pessoa que se interesse pelo tema e quiser ajudar a tornar o documentário uma realidade, pode fazer uma doação. Para cada contribuição, há recompensas, que vão desde agradecimentos até visitas aos sets de filmagem.

“No meio de tanta loucura política, a arte e a cultura têm a obrigação de se posicionar, cada uma de seu jeito”, explica o cineasta. “Acreditamos que era esse o momento e a forma certa de levantar o projeto, levantando a discussão com muitas pessoas e conquistando-as pela ideia do projeto, criando o ciclo de apoio necessário para o financiamento coletivo”.

Em tempos de discussão sobre a descriminalização do aborto, é igualmente necessário debater a ausência dos pais na criação e educação dos filhos. Vale acrescentar que, em ambas as situações, as mulheres acabam penalizadas.

“800 mil mulheres são consideradas criminosas anualmente por abortarem, e 5,5 milhões de crianças estão desamparadas paternalmente”, diz Mortágua. “Cruzando esses dados, é irresponsável dizer que os papéis de mãe  e pai não devam ser revistos. Juntar essa discussão tão benéfica pra sociedade com um assunto tão precioso pra mim, como diretor, foi o pontapé inicial do projeto”.

O diretor e roteirista Alexandre Mortágua

Com “Todos Nós 5 Milhões”, o diretor e roteirista espera não apenas dar mais visibilidade para o tema, mas também ajudar a romper com a cultura que naturaliza esse comportamento masculino, ao mesmo tempo em que discrimina as mulheres que abortam ou criam sozinhas seus filhos.

“[Espero] que a discussão não morra, que esse número [de crianças sem pai] incomode a ponto de sermos capazes de dar 1) o direito ao corpo às mulheres, 2) um nascimento digno pras crianças que nascerem, e 3) uma vida amparada e justa enquanto viverem”, conclui. “Se o filme conseguir reverter uma história de abandono e promover uma mudança no pensamento masculino sobre a paternidade, estaremos muitíssimo satisfeitos”.

Contribua com o projeto clicando aqui.

Ficha técnica:

Roteiro e direção: Alexandre Mortágua
Roteiro e assistente de direção: Sara Mariel
Produção: Luana Alves


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