Diversificar a Academia do Oscar não será tarefa fácil, mas as mudanças já começaram

A Academia do Oscar anunciou os nomes dos três novos ‘governadores’, que serão responsáveis por ajudar a diversificar a organização.

Quando a Academia do Oscar liberou a lista dos indicados à premiação no dia 14 de janeiro, a hashtag #OscarsSoWhite voltou a circular, já que nenhum ator ou atriz de uma minoria étnica foi nomeado para concorrer nas categorias de atuação pelo segundo ano consecutivo.

O episódio gerou uma onda de protestos e boicotes de grandes artistas de Hollywood, o que obrigou a Academia a tomar uma atitude e rever seu corpo de membros, majoritariamente composto por homens brancos. Segundo um estudo do jornal Los Angeles Times deste ano, os integrantes da organização são 91% homens e 76% brancos, percentuais um pouco melhores do que aqueles encontrados em um estudo de 2012 da mesma publicação, o qual apontava uma filiação 94% masculina e 77% branca. Negros formam 3%, enquanto latinos e asiáticos apenas 2% de todos os integrantes.

Com números tão expressivos quanto à desigualdade, diversificar a instituição não será uma tarefa fácil. Há quase dois meses, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs anunciou medidas para dobrar o número de mulheres e minorias étnicas dentro da organização até 2020, entre elas, o fim da filiação vitalícia, que agora valerá por 10 anos. Caso o membro não trabalhe na indústria cinematográfica dentro desse período, ele perde o direito ao voto.

Ontem, 15, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu mais um passo para se diversificar: foram adicionados 3 novos integrantes ao seu conselho que até então era composto por 51 membros, os chamados ‘governadores’. A função deles é dirigir a visão estratégica da organização, bem como “preservar sua saúde financeira e assegurar o cumprimento de sua missão.” São eleitos três representantes das 17 seções dentro do Oscar para as posições de liderança, escolhidos pelas pessoas de cada categoria.

Já os três novos governadores foram escolhidos sem representar uma categoria específica ou por outros membros. Reginald Hudlin, Gregory Nava e Jennifer Yuh Nelson, foram nomeados pela presidente Cheryl Boone Isaacs. “Estou orgulhosa dos passos que demos para aumentar a diversidade”, ela disse em comunicado. “Contudo, sabemos que há muito mais a ser feito enquanto continuamos a fazer essa organização mais inclusiva.”

Reginald Hudlin veio da seção de diretores. Entre seus trabalhos mais recentes estão a produção da última cerimônia do Oscar e do filme “Django Livre”, pelo qual foi indicado ao prêmio em 2013. Gregory Nava veio da seção de roteiro, e escreveu “Frida” (2002) e “Cidade do Silêncio”. Já Jennifer Yuh Nelson saiu da seção de curtas e animações, tendo trabalhado na trilogia “Kung Fu Panda”.

Além deles, a Academia nomeou outros artistas para seis comitês diferentes:

  • o ator Gael García Bernal se junta ao comitê de premiações e eventos;
  • a diretora de fotografia Amy Vincent foi para o comitê de preservação e história;
  • a produtora Effie Brown para o comitê do museu;
  • o executivo Marcus Hu e o animador Floyd Norman para o comitê de educação;
  • a executiva Vanessa Morrison para o comitê financeiro;
  • e a produtora Stephanie Allain se junta ao comitê de membros e administração.
Da esquerda para direita, de cima para baixo: Effie Brown,
Da esquerda para direita, de cima para baixo: Effie Brown, Floyd Norman, Vanessa Morrison, Gael García Bernal, Marcus Hu, Amy Vincent e Stephanie Allain

O conselho afirmou que dará continuidade às medidas divulgadas em janeiro passado, para garantir que os integrantes com direito ao voto estejam ativos na indústria cinematográfica. Os líderes de cada comitê se reunirão a cada 2 anos, a começar em 2016, para avaliar seus membros, assim como serão responsáveis por determinar quais critérios serão utilizados para assegurar a permanência de seus membros.

O anúncio dos novos governadores veio após uma carta de 25 membros da Academia, inclusive do diretor Ang Lee (“O Segredo de Brokeback Mountain”) e de Sandra Oh (“Grey’s Anatomy”), que protestaram contra as piadas racistas sobre asiáticos feitas durante a cerimônia do Oscar, realizada no dia 28 de fevereiro. No evento, Chris Rock levou ao palco três crianças asiáticas, as quais seriam “contadoras” (porque todos os asiáticos são bons com matemática, obviamente) e Sacha Baron Cohen disse que orientais possuem genitais pequenos. Horas depois, a Academia pediu desculpas pelo ocorrido, afirmando que estão “comprometidos a fazer o melhor para que os materiais em premiações futuras sejam culturalmente mais sensíveis.”

Segundo o Los Angeles Times, para se diversificar, será preciso convidar 375 mulheres e 130 pessoas de cor todos os anos, caso a organização queira cumprir o objetivo de dobrar o número desses grupos até 2020. Numa indústria conhecida pela falta de oportunidades para mulheres, minorias étnicas e LGBTs, a meta pode ser difícil de ser alcançada, já que seria preciso que Hollywood como um todo acompanhe o trabalho da Academia, afinal, é dali que saem os membros que compõe a instituição do Oscar.

“Há bastante pessoas qualificadas”, afirmou Cheryl Boone Isaacs ao jornal. Ela acrescentou que os líderes da organização farão “tudo que esteja ao nosso alcance para cumprir nossos objetivos, porque sabemos que essa é a coisa certa a fazer.”

Será uma tarefa complicada para o Oscar, mas é preciso lembrar que ele é só uma parte de um sistema de exclusão muito maior de Hollywood. Ainda assim, os passos da Academia vão na direção certa, e podem vir a inspirar outras organizações e empresas a diversificarem-se.

É também preciso destacar o trabalho de April Reign, responsável pela criação da hashtag #OscarsSoWhite, em 2015, a qual pautou notícias sobre a diversidade no Oscar e em Hollywood, forçando a instituição a mudar a sua estrutura. Eu conversei com April recentemente e você pode conferir a entrevista aqui.

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