Diretor de “A Garota Dinamarquesa” explica a escolha de Eddie Redmayne para o papel principal

  07. setembro 2015   Cinema   1

Em 2013, Jared Leto viveu a mulher transgênero Rayon no filme “Clube de Compras Dallas”, cuja interpretação lhe rendeu um Oscar de “Melhor Ator Coadjuvante” no ano seguinte. Embora produção e trabalho do ator tenham sido aplaudidos pelo público, a ausência de uma atriz trans para o papel foi muito criticada.

Das lições que aprendemos com figuras públicas como Caitlyn Jenner, Laverne Cox, Thammy Miranda e Viviany Beleboni, todas pessoas trans, é de que poucas oportunidades são dadas a essas pessoas no mercado de trabalho. Estatísticas mostram que 90% de travestis e transexuais brasileiras estão na prostituição. Não é por falta de vontade, como é propagado por muitos, mas por conta de um sistema que as empurra para a margem, limitando suas escolhas de sobrevivência.

Na semana passada, foi lançado o trailer de “A Garota Dinamarquesa”, filme dirigido por Tom Hooper e protagonizado pelo ator Eddie Redmayne. O longa conta a história de Lili Elbe, uma artista e creditada como a primeira mulher trans a fazer uma cirurgia de redesignação sexual.

Contudo, assim como Jared Leto, Eddie Redmayne também foi criticado, não por sua atuação, obviamente, mas pelo papel ter sido oferecido a ele e não a uma atriz trans. No Festival de Veneza, onde “A Garota Dinamarquesa” foi exibido, o ator contou à revista Variety que todo o processo foi uma “lição de mamute”. “Conheci várias pessoas da comunidade trans, homens e mulheres. Tentei conhecer diferentes gerações, porque essa história é de determinada época, quando não havia qualquer precedente”.

Em agosto, ele contou à revista Out que o trabalho mudou sua perspectiva sobre gênero e sexualidade. “Minha maior ignorância foi de que gênero e sexualidade estavam ligados. E isso é daqueles pontos-chave que eu quero levar para o mundo: você pode ser gay ou hétero, pessoa trans, e essas duas coisas não estão, necessariamente, alinhadas”.

Nada disso, entretanto, responde à pergunta: por que não uma atriz trans? O diretor, Tom Hooper, saiu em defesa de sua escolha de Redmayne para o filme. “O acesso a atores trans, homens e mulheres, aos papéis de trans ou cisgênero, é fundamental. E eu sinto que no momento, dentro da indústria, isso é um problema”, afirmou à revista Variety. “Há uma gama de atores trans talentosos e o acesso aos papéis é limitado. Eu apoiaria qualquer mudança que movesse a indústria para frente, abraçaria atores trans em papéis trans e cisgênero e também celebraria e encorajaria cineastas trans”.

“No que diz respeito à escolha de Eddie, vou dizer algo que seria fácil de dizer se Eddie não estivesse sentado ao meu lado, mas acho que há algo nele que é muito feminino”, justificou.

O próprio Redmayne, que interpreta Lili Elbe em “A Garota Dinamarquesa” falou sobre a questão de atores cis interpretarem pessoas trans no cinema. “Há uma válida e incrível discussão sobre uma atriz trans não ter sido escolhida para o papel, porque há tantas atrizes trans brilhantes, e eu tenho certeza que muitas teriam sido ótimas para o papel”, ele contou ao jornal The Telegraph.

Vale lembrar que a discussão não é sobre a capacidade de interpretação de Eddie Redmayne. Assim como fez no filme “A Teoria de Tudo”, é bem capaz que ele faça um maravilhoso trabalho nessa nova produção, e receba uma indicação ao Oscar, algo que já vem sendo estipulado. A conversa é sobre a exclusão de pessoas trans no cinema, onde não é permitido que possam nem contar suas próprias histórias, como é o caso de Lili Elbe, que foi uma artista trans.

A ativista Maria Clara Araújo, travesti que virou garota-propaganda de uma marca de cosméticos recentemente, lembra que enquanto “não conseguir representar nem a mim mesma, continuarei sendo lida como sub-gente, de modo coisificado e estando em um papel de abjeção, sofrendo com a exclusão social”.

Representatividade importa. São poucas os atores trans que estão em Hollywood. Laverne Cox e Jamie Clayton são dois poucos exemplos que temos de mulheres trans interpretando a si mesmas. Stella Rocha, atriz brasileira transexual, é outra que vem ganhando seu espaço no cinema, como mostrou a revista Rolling Stone. “Ganhei o mundo e ganhei minha vida. Mostrei para a minha família que não é só porque a gente é transexual que a gente tem que ‘fazer pista’”, ela contou à publicação.

Para manter algum otimismo, vamos esperar que “A Garota Dinamarquesa” possa reacender a discussão sobre a falta de trabalho para pessoas trans e torcer para que a indústria cinematográfica permita que isso finalmente aconteça. O filme ainda não tem estreia prevista no Brasil.