Da garota na favela do Rio de Janeiro à atriz de Hollywood: a violência contra a mulher atinge a todas elas

Não importa se é na favela do Rio de Janeiro ou em Hollywood: a violência contra a mulher está nos mais variados espaços.

“As mulheres, vítimas [de violência], elas estão em todas as classes sociais.”

É o que afirmou Arlanza Maria Rodrigues Rebello, coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher (NUDEM/RJ), ao RJTV no último sábado (28). Basta lermos as duas notícias que vêm circulando desde a semana passada na imprensa para concordarmos com a sua fala.

Uma delas diz respeito ao estupro coletivo que uma adolescente de 16 anos sofreu em uma favela do Rio de Janeiro. Em um contexto social oposto está a atriz Amber Heard, a qual pediu o divórcio de Johnny Depp, após ter sido agredida por ele durante o casamento de 15 meses. São duas mulheres de realidades distintas e que não se conhecem, mas a violência de gênero acabou unindo-as de alguma maneira.

E ambos os casos são muito mais comuns do que nos fazem acreditar. Segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), o Brasil registra um caso 1 caso de violência contra a mulher a cada 7 minutos (a maioria das vítimas são negras). A cada 4 minutos, uma mulher é atendida em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). E a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada, um crime ainda muito subnotificado. De acordo com as informações do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, estima-se que apenas 10% deles sejam denunciados. No mundo todo, cinco mulheres morrem por hora em decorrência da violência doméstica.

Os números impressionam e chocam, pois através deles enxergamos como a violência contra a mulher é naturalizada e culturalmente legitimada. É por isso, além de outros fatores, que as vítimas deixam de denunciar seus agressores. E quando finalmente o fazem, além do julgamento da justiça, elas enfrentam o julgamento da sociedade, que sempre encontra uma maneira de culpar a mulher pelo ataque que sofreu.

Isso ficou claro nos casos da menina do Rio de Janeiro e de Amber Heard: em ambas as situações, as pessoas e a mídia relativizaram o que as duas sofreram, diminuíram suas dores, as culparam e eximiram de responsabilidade os homens que as agrediram.

“Existe, por parte da sociedade, esse pré-julgamento dessa mulher”, disse Arlanza Maria Rodrigues Rebello ao RJTV. “Que vem dessa desigualdade entre homens e mulheres.”

https://twitter.com/KETFLIXNDCHILL/status/736568798644457472

Tweet: “Amber Heard foi fotografada sorrindo horas depois do ‘ataque com iPhone’ de Johnny Depp” / “Teriam as amigas lésbicas de Amber Heard impactado seu casamento?” / “Advogado de Johnny Depp diz que Amber Heard faz alegações para ganhar vantagem no divórcio” / “Do lado positivo: um dos gatos de Hollywood está solteiro de novo”.

E Amber Heard não foi a única artista a ser vítima de violência doméstica. Outras mulheres passaram pelo mesmo e por situações iguais a da menina do Rio de Janeiro. Kesha, Rihanna, Mariah Carey, Whitney Houston, Tina Turner, Luana Piovani e outras celebridades estão aí para comprovar que não importa o quão rica a mulher seja, todas estão sujeitas a sofrer algum tipo de agressão por conta de seu gênero.

“Há um erro em considerar que uma mulher com essas características não estaria sujeita à violência de gênero no âmbito doméstico”, escreveu a advogada Camilla de Magalhães Gomes. “A violência, o machismo, o patriarcado nunca eximiram a mulher livre, independente, autônoma. ‘Não ser subjugada’ nunca foi garantia de não sofrer violência por parte de pessoas que agem, conscientemente ou não, a partir do machismo.”

Portanto, é preciso que a conversa sobre a violência contra a mulher e sobre a cultura de estupro continuem. Somente endurecer as penas para quem cometer esses crimes, embora pareça tranquilizador, não impede que eles ocorram. É preciso tratar a causa, ou seja, temos que mudar essa cultura que permite que esses casos continuem existindo. E mais do que isso, é importante que as mulheres continuem lutando por seus direitos e que se façam ouvir. Quanto aos homens,  é preciso que conversemos uns com os outros, para que possamos mudar nossos comportamentos e possamos desconstruir essa masculinidade tóxica, a qual não serve a mais ninguém.

Temos de lutar juntos. E não dá mais para esperar.

*Para fazer uma denúncia, ligue para a Central de Atendimento à Mulher através do número 180.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.