Crítica: “Um Limite Entre Nós”

  01. fevereiro 2017   Cinema   0

“Um Limite Entre Nós” (“Fences”, no original) é a adaptação cinematográfica da peça de mesmo nome escrita por August Wilson, a qual foi levada para a Broadway, com Denzel Washington e Viola Davis nos papéis principais.

E a dupla de atores se uniu, mais uma vez, para dar vida aos personagens Troy e Rose Maxson, um casal da década de 50, cuja vida aparenta uma certa normalidade, mas que é sacudida após a revelação de um grande segredo. Os dois são pais de Cory (Jovan Adepo), um adolescente de 17 anos que sonha em poder jogar futebol para fugir dos problemas familiares.

Troy é um catador de lixo, cujo trabalho é o que garante o sustento de toda a família. Por conta disso, em várias situações, ele se aproveita de sua posição de ‘provedor’ para se afirmar perante sua esposa e filho, como se todos lhe devessem respeito por ser ele o responsável pelo teto sobre a cabeça de todos.

Em uma das discussões que tem com seu filho, com quem ele é particularmente muito duro, Troy diz ao rapaz que se o menino tem o que comer, vestir e onde dormir, é por conta do pai e que, portanto, ele não deveria reclamar de nada, mas obedecê-lo e respeitá-lo. Contudo, o homem exerce respeito somente através da autoridade e do medo. Ser pai, para ele, não passa de uma obrigação, outra tarefa que ele precisa cumprir, além de recolher o lixo das outras pessoas.

E a dureza do personagem de Denzel não é só com o filho ou a esposa, mas consigo mesmo. E nós só descobrimos isso no decorrer do filme, quando Troy revela que já foi jogador de futebol, assim como Cory sonha ser um dia, mas teve o sonho interrompido após ser preso. Ao sair da cadeia, e considerado muito velho para continuar no esporte (algo que ele não admite para si mesmo), ele se viu sem perspectivas.

Com isso em mente, é possível perceber que ele projeta no filho suas próprias frustrações, uma vez que o garoto pode realizar o que ele nunca conseguiu. E indo além, para ele, o futebol não passa de uma distração, e não uma profissão séria para um rapaz negro e pobre, já que o racismo que vivenciou deixou feridas que não foram curadas.

Contudo, o sonho interrompido não foi o único motivo para que ele seja uma pessoa tão inflexível. O próprio Troy foi vítima de violência de seu pai, do qual precisou fugir quando tinha apenas 14 anos de idade. Como acontece com algumas vítimas de abuso, ele acabou se tornando o abusador.

O contraponto a ele é sua esposa Rose, maravilhosamente interpretada por Viola Davis. A mulher é muito carinhosa e sabe lidar com o jeito turrão do marido, diferente do filho, que acaba entrando em conflitos com o pai. Porém, toda a doçura da personagem se esvai quando Troy revela ter um caso com uma outra mulher, com quem ele pode esquecer de suas obrigações e a tristeza da vida.

É nessa cena que acontece o melhor momento de “Limites Entre Nós”, quando a esposa, em toda sua raiva e mágoa, lembra seu marido que ele não pode viver uma vida inteira achando que sempre foi vítima das circunstâncias, mas que também é responsável pelas escolhas que fez. E que, assim como ele tinha sonhos, ela também teve os seus, mas ela os enterrou eles para poder ficar do lado do homem que ama e cuidar da família.

No meio tempo, Troy e Cory constroem uma cerca ao redor casa. “Algumas pessoas constroem cercas para manter as pessoas para fora. Outros, constroem para deixá-las do lado de dentro”, diz o melhor amigo do pai, Bono (Stephen Henderson). Assim, no final do filme, percebemos que a cerca (e por isso o nome do filme ser “Fences”, ou cercas, em português) é como uma metáfora para a vida do personagem principal: ele quer deixar todos, Rose e Cory, sob sua vigia, sob seu poder, e não livres para viver vidas diferentes daquela que ele vive. É como se, alguma maneira, ele quisesse puni-los, inconscientemente, pelo rumo que sua vida tomou.

Embora seja uma produção focada em uma família negra, a qual lida com questões próprias, como o racismo, há aspectos em “Limites Entre Nós” que são universais, como o arrependimento, a mágoa e a vontade de ser maior do que a realidade permite. É um filme denso, no qual cada personagem vai tendo suas nuances sendo desenvolvidas aos poucos.

Essa é a terceira empreitada de Denzel Washington como diretor e é seguro dizer que ele fez um bom trabalho, apesar do longa ter alguns momentos arrastados, os quais talvez funcionem melhor em uma peça de teatro. Mas isso não tira os méritos da obra, que conta com atuações brilhantes de Washington, Stephen Henderson e Jovan Adepo. Contudo, é Viola Davis quem rouba a cena, numa atuação que garantirá a ela o seu tão merecido – e atrasado – Oscar.