Crítica: “Elle”

Na recusa (posteriormente justificada) de denunciar à polícia a violência sexual que sofreu, uma executiva bem sucedida se envolve num perigoso mistério sobre a identidade de seu agressor, que continua a persegui-la. A premissa de “Elle” sugere um filme sobre o horror e as consequências do abuso sexual, mas o suspense do diretor holandês Paul Verhoeven vai para direções muito mais ousadas.

O thriller, que rendeu a Isabelle Huppert sua merecida indicação ao Oscar de melhor atriz esse ano, quer acima de tudo provocar o espectador. A trama revela aos poucos a natureza da situação e de suas personagens, e é bastante complexa e bem construída. Por outro lado, o olhar não vitimizador sobre a violência pode ser lido como uma fetichização do estupro.

Mas não é tão simples. “Elle” é um filme de personagem. E a violência sexual que ela sofre é apenas um gatilho para explorar sua personalidade fria, calculista e – em último nível – amoral. Talvez a personagem Michèle Leblanc seja uma psicopata, incapaz de empatia e desconectada de suas emoções. Um complexo jogo entre essa personalidade e o suspense que se desenrola a partir do abuso que ela sofre é a chave para entender o filme. Mas não necessariamente justifica gostar dele.

A profundidade da personagem permite a Isabelle Huppert uma interpretação intensa, embora ela seja mais uma atriz de detalhes. E fica óbvio que o diretor Paul Verhoeven quer brincar com os sentimentos do espectador, ao conduzir a história de forma surpreendente e por vezes duvidosa, abrindo caminho para várias questões. A narrativa trata o abuso sexual como fetiche ou explora um caráter diferente da violência? O filme é misógino ou empodera a mulher? As reações da personagem são derivadas de traumas passados (explorados ao longo do filme) ou de um grau de psicopatia? Os entusiasmados em análises psicológicas através do cinema tem aqui um prato cheio. E controverso.

A produção francesa é bastante “americanizada”, seja no gênero, na estrutura narrativa, na mise-en-scène etc. Não é para menos. Verhoeven tem uma filmografia bem sucedida (embora não muito invejável) em Hollywood, tendo dirigido filmes como “Instinto Selvagem”, “O Vingador do Futuro” e o primeiro “Robocop”.

A conquista do Globo de Ouro de melhor atriz de drama, e outros inúmeros prêmios desde o lançamento do filme, já traziam como certa a indicação de Isabelle Huppert ao Oscar – apesar de no geral a Academia não indicar atores e atrizes por trabalhos em filmes de língua estrangeira. Se ela leva a estatueta, ai é outra história… Todos se lembram de quando Fernanda Montenegro, claramente a melhor atriz entre as indicadas em 1999, perdeu o prêmio para a interpretação certinha e sem novidades de Gwyneth Paltrow.

Esse ano, todas indicadas são grandes atrizes com trabalhos fortes, e o prêmio seria merecido para qualquer uma delas. Com exceção, talvez, de Meryl Streep, que apesar de querida pela Academia (e por nós!), deixa a impressão de estar ali roubando o espaço de outras possíveis indicadas, como Amy Adams (“A Chegada”) ou Annette Bening (“Mulheres do Século 20”).

Será então que a Academia vai se decidir pela obviedade e premiar uma atriz mais dentro de seus padrões? Ou vão reconhecer o grande trabalho de Isabelle Huppert e legitimar para Hollywood sua já consagrada carreira? Não que ela precise.

Já o filme, contraditório e polêmico, merece ser visto, acima de tudo por ser um suspense muito bem estruturado e realizado. Ponto de partida para muitas discussões e análises possíveis, não resta dúvidas de que o grande objetivo de “Elle” é provocar, nos mais variados níveis. Isso ele faz muito bem.

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