Conversamos bastante sobre menstruação em 2015

Menstruação é algo natural e que acontece uma vez por mês com a maioria das mulheres – e alguns homens -, mas é tratada como algo sujo, impuro, e que deve ser escondido da sociedade.

Pode parecer exagero, mas todo mundo conhece vários “apelidos” para o período menstrual (“aqueles dias”), como se fosse algo nojento e que as pessoas – os homens, principalmente – não pudessem saber o que está acontecendo com o corpo de quem está menstruando.

Não só isso, há também os mitos sobre a menstruação, como não fazer exercícios ou andar sem sapatos, por exemplo. Com isso, todo esse tabu sobre o período torna-se prejudicial às mulheres, que crescem sem conhecer seus próprios corpos e como eles funcionam.

Felizmente, em 2015, várias mulheres tentaram, das suas próprias maneiras, acabar esse tabu sobre a menstruação:

Elöne:

Conversamos bastante sobre menstruação em 2015

A jovem Elöne, da Alemanha, foi às ruas de seu país colando mensagens feministas em postes, muros e paredes. E os objetos escolhidos por ela para transmitir seu recado foram bem emblemáticos: absorventes. “Imagine se os homens tivessem tanto nojo de estupro quanto eles têm de menstruação”, dizia uma das frases, originalmente escrita pela usuária do Twitter, @cutequeer96.

Embora a intervenção urbana de Elöne fosse mais focada em pedir o fim da violência contra a mulher e o assédio nas ruas, o uso dos absorventes foi bem simbólico, afinal, parece que estamos mais confortáveis em ver uma mulher ser abusada do que com uma função natural do corpo.

Não demorou para que a intervenção urbana de Elöne ganhasse a atenção da mídia e de várias mulheres, que foram encorajadas a replicar o projeto no mundo todo.

Embora tenha sido muito elogiada pela atitude, a moça também recebeu mensagens de desaprovação, o que é lamentavelmente comum às feministas. Contudo, houve quem a criticasse pelo uso de absorventes, quando eles poderiam ser doados a moradoras de rua, ao que ela respondeu ter feito exatamente isso.

Rupi Kaur:

Conversamos bastante sobre menstruação em 2015

Perto do final de março, a fotógrafa e artista Rupi Kaur postou uma imagem aparentemente inofensiva de si mesma em seu Instagram: ela aparece deitada com manchas de menstruação em sua calça e no lençol. Apesar da foto estar dentro das diretrizes da rede social, ela foi apagada do perfil de Kaur, que a publicou novamente, e que foi mais uma vez deletada.

A foto em questão faz parte de um projeto fotográfico dela para um trabalho da faculdade, cujo objetivo era desmistificar a repulsa que sentimos sobre a menstruação. Com a exclusão da foto do Instagram, o ponto de Rupi Kaur foi comprovado. “O patriarcado deles está vazando. A misoginia deles está vazando. Nós não seremos censuradas”, ela escreveu em um texto publicado no Facebook.

“Não pedirei desculpas por não alimentar o ego e o orgulho dessa sociedade misógina, que aceita meu corpo em roupas íntimas, mas que não o aceita com um pequeno vazamento; quando suas páginas estão cheias de incontáveis fotos/contas onde mulheres (muitas menores de idade) são objetificadas. Pornificadas. E tratadas como sendo menos que humanas. Obrigada.”

Após a revolta de Rupi ter viralizado nas redes sociais, o Instagram recolocou a foto da artista, alegando que a imagem foi removida por “engano”. “Neste caso, nós removemos o conteúdo por engano e trabalhamos para recolocá-la logo que fomos notificados. Pedimos desculpas pelo ocorrido.”

Dear Kate:

A marca de calcinhas e leggings Dear Kate convidou 20 mulheres para contarem como foi a “primeira vez” de cada uma delas. Mas não, não foi sobre a primeira vez em que fizeram sexo, mas a primeira em que menstruaram. “Nosso objetivo era falar sobre menstruação de uma forma autêntica e que elimine o estranhamento e a vergonha que muitas de nós sentem”, explicou a criadora da empresa ao Buzzfeed News.

Todas as mulheres que aparecem no vídeo possuem uma história diferente, e que podem ser parecidas com as histórias de outras mulheres assistindo a ele. “Merda, é agora que eu vou morrer”, diz uma delas. “Foi no meio da noite”, lembra outra. “Foi no cinema”, relata mais uma.

“Foi ótimo ver a boa vontade das pessoas de falar sobre algo que não é tipicamente conversado”, disse Isabella Giancarlo, coordenadora criativa da Dear Kate.

Com a campanha, veio também a hashtag #FirstTimeFilm (“O Filme da Primeira Vez”), que encorajava mulheres e homens a contarem como menstruaram pela primeira vez.

Kiran Gandhi:

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A maratona de Londres, realizada em abril deste ano, ganhou a mídia por conta de uma das participantes, Kiran Gandhi. Isso porque ela correu menstruada e sem absorvente, com o objetivo de quebrar tabus sobre menstruação e apoiar quem a experiencia.

Para muitas mulheres, a menstruação pode causar muitas dores, como é o caso de Kiran. “É muito doloroso quando fico menstruada. Em geral, eu tiro o dia de folga e tomo muitos remédios”, ela contou à Cosmopolitan.

Então, seria natural que ela deixasse a corrida, o que não aconteceu, obviamente. Mas então por quê não correr com um absorvente? “Achei que seria muito desconfortável me preocupar com um absorvente por 42 quilômetros”, escreveu Kiran em um texto publicado em seu site. “Eu pensei: se há uma pessoa com quem a sociedade não vai se meter é uma maratonista.”

“Uma maratona por si só é um ato simbólico por séculos. Por que não usá-la como uma forma de jogar luz às minhas irmãs que não têm acesso a absorventes e, apesar das cólicas e da dor, escondem e fingem que ela não existe. Corri para dizer: ‘ela existe e nós superamos isso todos os dias’.”

Criticada por sua atitude, Kiran, que é graduada em Harvard e também trabalha como baterista da cantora M.I.A., afirmou à revista People que os comentários negativos não a ofendem, mas provam seu ponto.

“Veja, a cultura fica feliz de falar e objetificar as partes do corpo que podem ser sexualmente consumidas pelos outros. Mas no momento em que falamos sobre algo que não é para o prazer dos outros, como a menstruação, todos ficam completamente desconfortáveis. O corpo das mulheres não existe para o consumo público.”

Boneca Lamilly:

Conversamos bastante sobre menstruação em 2015

Não foram só as mulheres que tentaram tornar a menstruação menos tabu. Nickolay Lamm, criou uma boneca que acompanha um panfleto educativo sobre o ciclo menstrual, um par de calças para ela, 18 absorventes reutilizáveis coloridos, adesivos e calendários formam o kit “Festa da Menstruação” (“Period Party”, em inglês).

Claro que a boneca não menstrua de verdade, mas seu objetivo é o de que as meninas aprendam desde cedo como seus corpos funcionam. “Acho que a ‘Festa da Menstruação’ da Lammily pode introduzir menstruação às meninas de uma forma divertida e tranquila, dando aos pais uma ferramenta muito útil”, contou Nickolay ao Mic.

“Eu não acho que algo vital para a vida e saúde da mulher, como a menstruação, deva ser vista como algo embaraçoso, de forma alguma”, conclui ele.

Lili Murphy Johnson:

Conversamos bastante sobre menstruação em 2015

“A menstruação é estigmatizada na nossa cultura, que vem de um longo histórico de superstição e desigualdade para as mulheres. Há ainda um interessante conflito sobre a percepção do corpo feminino, visto como perfeito e, ao mesmo tempo, tão grotesco e sujo”, escreveu a designer de jóias, Lili Murphy Johnson, em seu site.

Ela, que tem 22 anos e graduou-se recentemente, explicou ao Refinery29 que se inspirou na menstruação para criar sua coleção. “A ansiedade e o estresse que eu vivo antes da menstruação estava me impedindo de fazer minha pesquisa e meu processo de design enquanto eu estava na faculdade. Por isso, decidi replicar essas emoções em jóias para começar uma coleção.”

“Espero que [essa coleção] possa dar espaço para uma conversa sobre menstruação, e que ela possa ser uma forma de gostar de ficar com as manchas de sangue. Metade da população experiencia isso regularmente durante a vida; deveria ser algo confortável para as pessoas conversarem.”

THINX:

https://www.youtube.com/watch?v=W-MQyta6aLc

Se você não conhece a THINX, eis uma breve explicação: a empresa é responsável pela fabricação de uma calcinha que absorve a menstruação. Isso mesmo: ela absorve sua menstruação durante todo o dia. Uma das redatoras do Buzzfeed gringo comprou uma e saiu contente com o resultado, como você pode ver aqui.

Uma das missões da marca é tirar o estigma sobre a menstruação, e por isso chamou três atrizes, Sophia Bush, Joy Bryant e Jackie Tohn, além de uma das fundadoras e CEO da THINX, Miki Agrawal, para falar justamente sobre o assunto em um pequeno documentário, que não só explica o que é a menstruação, como também cita passagens de livros religiosos em que mulheres são consideradas impuras durante o período menstrual.

O documentário traz ainda depoimentos de meninas, mulheres e famílias em países africanos, onde meninas perdem dias de escola porque não possuem materiais para sua higiene e por conta disso, muitas vezes, abandonam os estudos. Em Uganda, por exemplo, 50% das garotas não vão à escola quando estão menstruadas. Naquele país, elas usam papel higiênico, algodão, lã fibra de banana e até folhas de jornal como absorventes.

Por isso, a THINX fez uma parceria com uma empresa local, a AfriPads, para ajudar a fornecer absorventes reutilizáveis para as meninas africanas.

“Também precisamos, juntas, quebrar o tabu e mudar a conversa sobre o período mais natural e normal do mês. Não deveria haver estigma. Não deveria ser embaraçoso”, conclui Miki Agrawal, CEO da THINX.

#HappyToBleed:

Na religião hindu, as mulheres são consideradas impuras durante o período menstrual, o que levou Prayar Gopalakrishnan, um líder religioso indiano, a declarar que era preciso que inventassem um aparelho que checasse se uma mulher estaria “naqueles dias”, tal qual é feito nos aeroportos, mas para detectar menstruação, uma vez que é proibido que as mulheres entrem nos templos quando estão menstruadas.

“Chegará o dia em que uma máquina será inventada para escanear se é o ‘momento certo’ para uma mulher entrar no templo. Quando essa máquina for inventada, então nós conversaremos sobre deixá-las entrar”, disse Gopalakrishnan numa coletiva de imprensa.

Isso deixou muitas mulheres furiosas, claro, e elas resolveram se mobilizar para combater o estigma e tais comentários. Foi assim que surgiu a campanha com a hashtag #HappyToBleed (“Feliz Por Menstruar”), criada por Nikita Azad, uma estudante universitária.

“[Gopalakrishnan] reforçou a misoginia e mitos sobre a menstruação. Embora essa tenha sido a razão principal para nossa campanha, nosso foco é identificar todas as formas de patriarcado e nos prepararmos para as lutas”, escreveu Azad no Facebook.

Na Índia, muitas meninas faltam às aulas durante o período em que menstruam, por conta da falta de materiais de higiene nos banheiros das escolas, e muitas usam papel, areia, cinzas e até folhas para limpar a menstruação, o que pode levar a várias doenças, como o câncer.

Sexo durante a Menstruação: Nojento ou Ótimo?:

O Buzzfeed fez um vídeo em que perguntou a homens e mulheres: “Sexo durante a Menstruação: Nojento ou Ótimo?” Talvez o objetivo não fosse de chegar a alguma conclusão, mas conversar sobre os possíveis motivos que homens e mulheres a evitarem o sexo durante aquele período do mês. Para muitas delas, a vontade de transar é muito maior nessa época, por conta dos hormônios.

“Se você quiser transar quando está menstruada, você deveria fazer isso”, diz uma das mulheres a favor da prática. Do lado oposto, quem era contra usou como argumento que o sangue suja a roupa de cama e há quem fique com nojo com a ideia de um pouco de sangue durante o ato. “Você faria beijaria alguém que estivesse com o nariz sangrando? Ou esperaria o nariz parar de sangrar?”, comparou um rapaz.

Com a conversa sobre sexo durante a menstruação, pode-se concluir que: a favor ou contra, ninguém deve considerar o corpo de outra pessoa “nojento”, afinal, a menstruação é algo natural que acontece com o corpo das mulheres (e de alguns homens).