Confira o discurso de Malcolm X utilizado por Beyoncé em “Lemonade”

Já se passaram dois dias desde que Beyoncé lançou “Lemonade”, seu mais novo álbum, junto a um filme de uma hora em que celebra mulheres negras através de poemas e imagens dessas mulheres de diferentes gerações, inclusive aquelas cujos filhos morreram nas mãos da polícia dos Estados Unidos.

Se é possível resumir o mais novo trabalho da cantora, o perfil Nerdy Wonka, no Twitter, o fez com perfeição:

https://twitter.com/NerdyWonka/status/724052291972534272

Twitter: “Força, vulnerabilidade, alegria, dor, coragem, morte, ressurreição, poder. Essa é uma verdadeira carta de amor às mulheres negras. #LEMONADE”

Em determinado momento, Beyoncé usa um trecho de um discurso feito por Malcolm X, em maio de 1962, o qual fala exatamente sobre a situação das mulheres negras naquele país (mas também serviria para o Brasil):

“A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra.
 A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra.
 A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”

Malcom X foi um grande ativista pelos direitos dos negros nos Estados Unidos durante as décadas de 50 e 60. Após converter-se ao Islã, ele pregava uma separação de raças e a criação de um Estado exclusivo para os negros. Foi após uma viagem para Meca, cidade sagrada para os muçulmanos, que ele mudou seu discurso, defendendo uma integração entre brancos e negros. Ele foi assassinado em 1965, enquanto discursava em Nova York.

Em maio de 1962, ele fez o discurso “Quem te ensinou a se odiar?”, utilizado por Beyoncé em “Lemonade”:

https://www.youtube.com/watch?v=gRSgUTWffMQ

“Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo? Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele, a ponto de você se clarear para parecer como um homem branco? Quem te ensinou a odiar o formato de seu nariz e deus lábios? Quem te ensinou a se odiar da cabeça às solas de seus pés? Quem te ensinou a odiar pessoas como você? Quem te ensinou a odiar a raça a qual pertence, a ponto de vocês não quererem estar próximos uns dos outros? Não, antes de você perguntar ao Sr. Muhammad [Elijah, líder da Nação do Islã, da qual fazia parte] se ele ensina o ódio, você devia se perguntar quem te ensinou a odiar ser o que Deus te deu. Nós ensinamos você a amar o cabelo que Deus te deu.

[…]

A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra. E, enquanto muçulmanos, o honrado Elijah Muhammad nos ensina a respeitar nossas mulheres e protegê-las. A única vez que um muçulmano torna-se violento de verdade é quando alguém molesta sua mulher. Nós mataremos por nossas mulheres.

Estou deixando isso claro, sim. Nós mataremos por nossas mulheres. Nós acreditamos que, se um homem branco vai fazer o que for necessário para ver sua mulher respeitada e protegida, então, você e eu nunca seremos reconhecidos como homens, até que nos levantemos como homens e apliquemos as mesmas penalidades sobre a cabeça de qualquer um que queria colocar suas mãos nojentas na direção de nossas mulheres.”

O discurso termina com uma chamada à violência que, talvez na década de 60 fosse mais tolerado, e provavelmente no contexto em que Malcolm X estava inserido, a Nação do Islã, ele era aceito, mas como Beyoncé deixa claro em sua música, as mulheres não precisam de homens que as defendam. Elas precisam mesmo é do fim de uma cultura que cria homens violentos com seus pares e com as mulheres.

Lemonade é uma celebração às mulheres negras e o trecho escolhido não poderia ser mais certeiro quanto à realidade dessas mulheres, as quais enfrentam índices de violência doméstica muito maiores, um salário muito menor e são a maioria das mortes por aborto.

Com esperança, a música de Beyoncé pode forçar uma conversa e uma visibilidade maior a um grupo que, definitivamente, precisa de mais atenção.

Comments

  1. Sybylla Responder

    Estou tão apaixonada por esse álbum da Bey. Acho que vai levar todos os prêmios que existem. É simplesmente maravilhoso.

  2. Pingback:Todas as referências culturais negras que Beyoncé apresentou em seu show no Coachella - Prosa Livre

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