Como o polêmico filme “Nina” tomou forma e foi parar no cinema

  22. abril 2016   Cinema   0

Estreia hoje, 22, nos cinemas dos Estados Unidos, o filme “Nina”, que narra parte da vida da icônica Nina Simone na França, durante os anos 90. Estrelado por Zoe Saldana, a produção foi muito criticada pela escolha da atriz para o papel principal, a qual possui ascendência porto-riquenha e dominicana e possui uma pele muito mais clara do que a estrela da música que interpreta nas telonas.

Não são, contudo, críticas sem fundamento. Os traços de Nina Simone e sua pele foram de extrema importância em sua luta contra o racismo e em sua arte. “Minha mãe foi criada em uma época em que era dito a ela que seu nariz era muito largo e sua pele muito escura”, afirmou Lisa Simone Kelly, filha da cantora, ao New York Times em 2012. “Pensando na aparência, essa não é a melhor escolha.”

Não é um ataque contra Zoe. Ela, enquanto uma atriz negra, também deve enfrentar dificuldades para conseguir bons papéis em Hollywood, mas isso não a isenta de ser contestada sobre sua participação no filme. Aliás, em entrevista para a revista In Style, a própria atriz admitiu que “não era a melhor escolha para o papel”, mas justificou sua decisão dizendo que um “artista não tem cor ou gênero” e que a história de Nina “merecia ser contada”.

Tweet: “Ninguém está apagando ou negando as origens de Zoe enquanto afro-latina, mas ao interpretar Nina Simone e sua história, ela deveria saber o que viria. Era dito a Nina Simone que ela era ‘muito negra’ e que seu nariz era ‘muito largo’. Escolher uma mulher negra que não se pareça com isso é APAGAMENTO.”

Com a divulgação do trailer em março passado, o debate sobre a escolha de Zoe e colorismo foi reaceso. De maneira simplificada, o colorismo diz respeito à discriminação maior a qual estão sujeitas os negros de pele mais escura. Ou seja, há uma ‘passabilidade’ maior para negros mais claros dentro da sociedade.

Além disso, há a crença na indústria cinematográfica de que produções protagonizadas por atores negros não vendem tão bem quanto por artistas brancos, o que pode ter resultado na escolha de Saldana em “Nina”, embora Barnaby Thompson, um dos produtores do projeto, negue que a escolha da atriz tenha a ver com dinheiro.

“A decisão de contratar Zoe foi feita porque ela preencheu todos os requisitos rigorosos que foram exigidos e de forma que poucas atrizes conseguiram”, contou Barnaby ao Buzzfeed News.

A diretora e roteirista do filme, Cynthia Mort, entretanto, contesta o produtor. Ela diz que “não teria escolhido Zoe para o papel se não sentisse que ela seria a pessoa certa”, mas afirma, também, que “outras pessoas foram consideradas” para o papel e “que não foram aceitas pelos financiadores. E Barnaby dizer algo diferente disso é errado.”

Mas para entender como “Nina” tomou forma, é necessário voltar um pouco no tempo, em 2005, quando Cynthia começou a escrever o roteiro do filme. A princípio, a protagonista seria a cantora de R&B Mary J. Blige, a qual se desligou do projeto tempo depois alegando “problemas de agenda”. Ao mesmo tempo, a produção encontrava dificuldades financeiras para sair do papel.

Foi então que, em 2012, Zoe Saldana foi escolhida para o longa, anos depois de ter emendado bons trabalhos no cinema, entre eles, o sucesso de bilheteria “Avatar”. Naquele mesmo ano, junto à divulgação do nome da atriz, o Hollywood Reporter noticiou que os problemas financeiros do projeto haviam acabado e ele finalmente seria filmado.

Zoe Saldana como Nina Simone

E foi a partir daí que o projeto começou a colecionar polêmicas. A filha de Nina Simone, Lisa Simone Kelly, repudiou a escolha de Zoe. No site oficial de sua mãe, ela escreveu uma carta aberta afirmando que a obra de Cynthia Mort não estava autorizada e que a história que a diretora queria contar, sobre o envolvimento romântico entre Nina Simone e seu assistente pessoal e ex-enfermeiro, Clifton Henderson, era uma mentira, já que o homem era gay.

Clifton Henderson é descrito pela família de Nina Simone como uma “pessoa controversa” na vida da artista. Ele foi – de acordo com Mort – enfermeiro, assistente pessoal e depois empresário da cantora. Antes de morrer, ele vendeu para a diretora e roteirista os direitos sobre sua vida, e é a partir de sua perspectiva que o filme é narrado.

Em seguida, as críticas recaíram sobre Zoe Saldana. Em outubro de 2012, quando “Nina” começou a ser filmado, paparazzi a fotografaram usando uma maquiagem mais escura, considerada blackface por muitos, uma prótese no nariz e dentes falsos.

A partir daí, Zoe começou a defender sua escolha pelo filme, tendo dito, em 2013, que se “Elizabeth Taylor podia ser Cleópatra [filme de 1963], eu posso ser Nina”. “Não importa quantas respostas negativas eu receba, eu vou honrar e respeitar a minha comunidade negra, pois esta sou eu”, acrescentou a atriz. Curiosamente, a comunidade negra também não a achou apropriada para o papel de Nina Simone.

E isso não foi tudo, uma nova polêmica surgiu em 2014, pouco antes do filme ser apresentado no Festival de Cannes: Cynthia Mort abriu um processo contra a produtora do longa, a britânica Ealing Studios Enterprises Limited, alegando que a empresa “violou os termos de seu contrato como diretora.” Ela contou ao Buzzfeed News que a versão que vai aos cinemas não é dela, apesar de levar seu nome.

De acordo com a reportagem, ela queria mais tempo para editar “Nina”, mas Barnaby Thompson precisava que a produção fosse entregue até uma determinada data. “Estávamos sem tempo e sem dinheiro”, afirmou o produtor. “Ela nunca foi retirada do processo, mas o tempo havia acabado.” Cynthia pediu, então, para que seu nome fosse retirado dos créditos, o que não aconteceu. “Tive que fazer o filme, mas não é meu filme”, ela diz. Por insistência de seu agente e advogado, ela posteriormente deixou o processo para trás.

O que nos leva a março de 2016, quando o primeiro trailer foi lançado.

As críticas sobre o filme e a escolha de Zoe Saldana voltaram ainda mais fortes. Ta-Nehisi Coates, jornalista do site The Atlantic, escreveu um artigo após assistir à prévia, lembrando a importância da estética de Nina Simone no legado deixado pela artista. “Há algo muito vergonhoso no fato de que mesmo hoje, uma jovem Nina Simone teria problemas em ser escalada para sua própria biografia.”

As mais diversas publicações online criticaram o filme, o que levou Robert L. Johnson, fundador e presidente do conselho do RLJ Entertainment, responsável pela distribuição do filme, a defender a produção. “A coisa mais importante é que a criatividade ou qualidade da performance nunca deve ser julgada em termos de cor, etnia, ou aparência física.”

No caso de uma obra sobre Nina Simone, é possível contestar a afirmação de Robert, uma vez que, como explicado anteriormente, a aparência fazia parte do ativismo de Nina Simone.

Lisa Simone Kelly, filha de Nina, recentemente, saiu em defesa de Zoe, mas não do filme. Após a conta oficial da cantora ter respondido a atriz no Twitter (“História legal, mas, por favor, tire o nome de Nina de sua boca. Pelo resto de sua vida.”), ela afirmou que “é triste que Zoe Saldana seja atacada tão cruelmente quando ela é alguém que faz parte de uma figura muito maior.” Lisa acrescentou, porém, que ainda não concorda com a escolha da artista para o papel de sua mãe.

Ela pediu, contudo, para que as críticas fossem apontadas para Cynthia Mort, diretora da obra, responsável pela escolha de Saldana para a cinebiografia. E olhando para quem atua por trás de “Nina”, Cynthia não é a única branca envolvida no projeto. O site Jezebel fez uma pesquisa e descobriu que quase todas as pessoas que assinam o filme são brancas, com exceção da produtora Aigerim Jakisheva e David Oyelowo (“Selma”), que além de produtor-executivo, também atua como Clifton Henderson. Talvez essa informação ajude a entender como o filme conseguiu chegar aos cinemas.

A imprensa americana já assistiu ao filme que estreia hoje nas telas do país. Publicações importantes como a Variety, Rolling Stone, Indie Wire e o jornal The New York Times foram unânimes: Zoe Saldana não vai mal, mas é impossível assistir a “Nina” sem perceber a forte maquiagem por cima do rosto da atriz ou a diferença de idade gritante entre ela e a idade da cantora na época em que o longa se baseia. Zoe tinha 33 anos quando filmou a obra, enquanto Nina Simone já estava em seus 60 anos na década de 90.

Em poucos dias saberemos qual será o valor de bilheteria que o longa arrecadará em sua estreia e as opiniões de quem foi assistir a ele. Certo, por enquanto, é que os estúdios precisam pensar duas vezes na hora de escalar o elenco para as histórias que querem contar. Ou, pelo menos, deveriam pensar.

“Eu sou uma artista –  e as pessoas vão me matar por isso, mas eu não ligo -, você se torna tão desesperado para contar sua história que, às vezes [esquece], que ‘eles’  – ‘eles’ quer dizer as pessoas que bancam a produção do filme – têm o poder”, conclui Cynthia Mort ao Buzzfeed News. “Porque todos vão dizer: ‘apenas diga a eles para se fuderem’. Bem, você faz isso, mas não importa. Infelizmente, não é mais os anos 70 ou 80. Porque, agora, a indústria cinematográfica está preocupada com apenas uma cor. E ela é verde.”

“Nina” não tem previsão de estreia no Brasil.