Como mulheres, negros, indígenas e LGBTs se saíram nas eleições 2020

Depois do que pareceu um período interminável de eleições presidenciais americanas (e de uma contagem de votos tão demorada quanto), foi a nossa vez de ir às urnas. No último domingo (15), o Brasil, com exceção do Amapá (que está sem energia há 16 revoltantes dias), elegeu prefeitos e vereadores, que devem ocupar os cargos a partir de  1º de janeiro de 2021.

Parte significativa dos eleitos são negros, mulheres, indígenas e LGBTs – grupos que há algum tempo vêm aumentando sua participação na política (ainda que não na velocidade e na quantidade que gostaríamos). Em 2020 esse movimento de ascendência continuou, mesmo que de maneira tímida. Para se ter uma noção, quando falamos de gênero, neste ano, 12,2% das prefeituras brasileiras serão comandadas por mulheres, um percentual um pouco maior do que o encontrado em 2016, quando o resultado foi de 11,57%. O número de prefeitos negros (pretos + pardos) também teve um leve aumento: 32% em comparação aos 29% de quatro anos atrás.

Sim, são números ainda pequenos, especialmente quando pensamos que a população brasileira é composta, em sua maioria, por mulheres (51,8%) e negros (56,1%), mas eles continuam subindo. Regras que obrigam partidos a ter uma cota de 30% para candidaturas femininas e que distribuem de maneira proporcional verba pública e propaganda eleitoral para candidatos negros, contribuíram para uma maior representação de grupos minoritários na política.

É importante dizer, contudo, que não basta aumentar o número de negros e mulheres nos cargos eletivos; é preciso que eles estejam comprometidos com as pautas antirracistas, feministas, LGBTQIA+, das pessoas com deficiência, dentre outras.

Abaixo, os resultados das eleições municipais em 2020:

MULHERES

  • as mulheres representaram 33,3% (cerca de 183 mil) de todos os candidatos ao pleito deste ano, um número recorde para as eleições municipais. Em 2016, o percentual ficou em 31,9% e, em 2012, 31,5%;
  • 2.529 mulheres se candidataram para cargo o de prefeita;
  • 12,2% das prefeituras (650) elegeram mulheres em 2020, um percentual pouco maior que o encontrado em 2016, que ficou em 11,57%. Neste ano, 1 a cada 4 mulheres conseguiu ser eleita em primeiro turno;
  • por enquanto, apenas uma mulher foi eleita prefeita entre as capitais brasileiras: Cinthia Ribeiro (PSDB) foi reeleita em Palmas, no Tocantins;
  • outras 5 capitais possuem mulheres disputando o segundo turno: Manuela D’Ávila (PCdoB), em Porto Alegre; Marília Arraes (PT), no Recife; delegada Danielle Garcia (Cidadania), em Aracaju, Cristiane Lopes (PP), em Porto Velho; e Socorro Neri (PSB), em Rio Branco. No Amapá, onde as eleições foram adiadas para 13 e 27 de dezembro, Patrícia Ferraz (Podemos) é a candidata à prefeitura da Macapá;
  • o estado que mais elegeu prefeitas, em proporção, foi Roraima (28,6%) do total. O Espírito Santo foi o que menos elegeu prefeitas: apenas uma (1,4%);
  • em Ponta Grossa, o segundo turno será disputado entre duas mulheres: Mabel Canto (PSC) e Professora Elizabeth (PSD);
  • todas as capitais elegeram vereadoras. Proporcionalmente, Porto Alegre foi a que terá o maio número de mulheres na câmara municipal: 30,55%. Belo Horizonte e Natal vêm logo em seguida com, respectivamente, 26,83% e 24,14%;
  • Curitiba elegeu sua primeira vereadora negra: Carol Dartora (PT);
  • Vitória também elegeu sua primeira vereadora negra: Camila Valadão (PSOL);
  • São Paulo e Belo Horizonte elegeram as primeiras vereadoras trans da história das cidades: Erika Hilton (PSOL) e Duda Salabert (PDT).

NEGROS

  • pela primeira vez,  o número de candidatos negros a prefeito, vice-prefeito e vereador foi maior que o de brancos. Segundo levantamento realizado pelo G1, 272 mil negros (pretos + pardos) concorreram às eleições de 2020, representando 49,9% do total. Em 2016, o percentual de negros ficou em 47,8%;
  • 32% das vagas para prefeito (1.718) foram ocupadas por negros. Em 2016, esse percentual foi de 29% (1.605);
  • apenas 109 candidatos se declararam pretos, enquanto o restante se declarou pardo;
  • a cada 10 prefeitos eleitos em 2020, somente 3 são negros;
  • 57 cidades disputam o segundo turno  e apenas 16 dos 36 candidatos são negros;
  • das 650 prefeitas eleitas, somente 209 (32%) são negras;
  • negros representam 44% dos vereadores eleitos nas capitais. Desse total, mulheres negras formam 18%;
  • Palmas foi a cidade que mais elegeu negros para vereador: dos 18 assentos, 17 serão para políticos negros;
  • as capitais das regiões centro-oeste, norte e nordeste lideram no número de vereadores negros, enquanto a região sul ficou com o pior índice;
  • Florianópolis não elegeu nenhum negro para a Câmara municipal.

Indígenas

  • em 2020, o número de candidaturas de indígenas aumentou em relação a 2016: foram 2.216 candidatos (0,4%) contra 1.715 (0,35%);
  • ao menos 8 cidades brasileiras elegeram prefeitos indígenas: Uiramutã (Roraima); Normandia (Roraima); Marechal Thaumaturgo (Acre); Pariconha (Alagoas); Marcação (Paraíba); São João das Missões (Minas Gerais); e Arroio Grande (Rio Grande do Sul);
  • o número de prefeitos eleitos é ligeiramente maior do que o encontrado em 2016, quando somente 6 foram escolhidos para o cargo;
  • Cacique Marquinhos (Republicanos) foi eleito prefeito em Pesqueira (Pernambuco) com maior número de votos, mas aguarda decisão da Justiça Eleitoral para tomar posse a partir do próximo ano;
  • apenas uma mulher indígena foi eleita: Eliselma Silva de Oliveira (DEM), a Lili, foi escolhida para um segundo mandato em Marcação, com 54,48% dos votos;
  • o Partido dos Trabalhadores (PT) foi o que mais lançou candidaturas indígenas: 263, seguido pelo MDB e PP, de acordo com levantamento do jornal O Globo.

LGBTQIA+

  • segundo um mapeamento da ONG Aliança Nacional LGBTI+, divulgado pelo Huffpost Brasil, em 2020, até julho deste ano, havia 456 candidatos abertamente LGBTs e 41 que apoiavam a busca por direitos dessa população. Em 2016, esse número era de 377;
  • homens gays lideraram com 49% das candidaturas. 12% eram lésbicas e 11% eram mulheres trans;
  • 97% das candidaturas eram para o cargo de vereador e 3% para prefeito;
  • em um levantamento, o Vote LGBT afirma que, até o momento, 83 políticos LGBT foram eleitos em todo o Brasil neste ano;
  • 25 travestis e transexuais foram eleitas em 22 cidades;
  • o número é bem maior do que em 2016, quando somente 8 mulheres trans foram eleitas;
  • somente entre essa população, foram 323 candidaturas em 2020 contra 89 em 2016;
  • em São Paulo, foram eleitas Erika Hilton (PSOL); Thammy Miranda (PL); Carolina Iara, da Bancada Feminista (PSOL); e Samara Santana, do Coletivo Quilombo Periférico (PSOL);
  • em São Paulo, Erika Hilton foi a mulher mais votada da Câmara da cidade, enquanto em Belo Horizonte, Duda Salabert (PDT) foi eleita com recorde de votos da história da capital mineira. Em Aracaju, Linda Brasil (PSOL) foi eleita vereadora;
  • há vereadoras trans, também, em Eldorado dos Carajás (Pará); Niterói (Rio de Janeiro); Natividade (Rio de Janeiro); Bom Repouso (Minas Gerais); Uberlândia (Minas Gerais); Pompeu (Minas Gerais); Carnaúba dos Dantas (Rio Grande do Norte); São Borja (Rio Grande do Sul); Entre-Ijuís (Rio Grande do Sul); Araraquara (São Paulo); Limeira (São Paulo); Batatais (São Paulo); Patrocínio Paulista (São Paulo); Araçatuba (São Paulo); Pontal (São Paulo); São Joaquim da Barra (São Paulo); Salesópolis (São Paulo); e Lapa (Paraná).
  • o Partido dos Trabalhadores (PT) teve o maior número de candidatos LGBT: 84, seguido pelo PDT (77) e PSOL (76).