Como a quarta temporada de “The Crown” retrata a conhecida bulimia da princesa Diana

[AVISO DE SPOILERS E DE GATILHO: O TEMA PODE SER SENSÍVEL PARA PESSOAS COM TRANSTORNOS ALIMENTARES]

No dia 15 de novembro, a Netflix lançou a quarta temporada de “The Crown”, uma de suas séries de maior sucesso, e que cobre a trajetória da rainha Elizabeth II (Olivia Colman), misturando realidade e ficção. No novo ano, a produção se debruça sobre o período em que Margareth Tatcher (Gillian Anderson) assume o posto de primeira-ministra do Reino Unido, em 1979, bem como o relacionamento conturbado e problemático entre o Príncipe Charles (Josh O’Connor) e a Princesa Diana (Emma Corrin), até o final da década de 80.

Eu confesso nunca ter assistido ao seriado antes, e que minha maior motivação para vê-lo agora foi o retrato da princesa Diana, que morreu em 1997, em um acidente de carro em Paris. Mesmo sendo pequeno na época (eu tinha apenas 6 anos0, lembro-me da comoção em torno da morte da “Princesa do Povo”, como ela é chamada até hoje, e como era parecia ser querida, inclusive pela minha família.

E foi assistindo a “The Crown” que soube de algo sobre Lady Di da qual nunca tive conhecimento: sua luta silenciosa contra a bulimia.

Na série, os transtornos alimentares de Diana acontecem logo após o noivado com o príncipe Charles, durante o episódio 3, quando ela sai do apartamento que dividia com amigas e se muda para o palácio de Buckingham, onde aprende a se portar como membro da família real. Contudo, fora das aulas, ela se encontra completamente sozinha, já que o então noivo viaja e fica incomunicável e a família dele não dedica tempo algum para conhecê-la. Em uma das noites de solidão, Diana vai até à cozinha, come desesperadamente doces da geladeira e depois vomita no banheiro. É a primeira das várias vezes em que o transtorno alimentar é retratado no seriado.

Tudo foi registrado de maneira mais real possível, uma exigência de Emma Corrin, a atriz que dá vida a Diana. A artista contou com a ajuda de uma técnica para que pudesse executar o trabalho da melhor maneira possível.

“Por meio das minhas pesquisas, eu percebi que ela [Diana] era bem sincera sobre isso e fiquei muito impressionada. Acho que foi algo muito à frente do tempo dela”, a atriz contou à revista The Hollywood Reporter. “Se você pensar bem, até hoje, se uma figura pública aparecer e dizer que teve a mesma experiência, isso vai gerar manchetes. Os jornalistas ficam loucos para entender o que aconteceu. Todo mundo celebra as pessoas que compartilham suas experiências, e é algo legal atualmente. E ela fez isso nos anos 90, o que é incrível. Eu queria fazer justiça a isso”.

Por ser parte importante da vida de Diana, obviamente, era impossível omitir a doença da princesa em “The Crown”.

“Não representar [a batalha com bulimia] seria negar à Princesa de Gales um pouco da verdadeira complexidade de seu caráter. Se alguém tem um problema de abuso de alguma substância que está usando como uma forma de lidar emocionalmente com alguma coisa, e você vai e tenta escrever uma história sem mostrar isso…”, Peter Morgan, criador do seriado, contou à revista Vanity Fair. “Diana tinha um distúrbio alimentar e falava sobre isso publicamente. Nunca me ocorreu que estávamos fazendo algo arriscado ou incomum ao retratar a luta dela com a bulimia, porque ela falava muito sobre isso”.

Antes de cada episódio, há um aviso de conteúdo sensível e um link para um canal da Netflix para quem precisar de suporte emocional. É uma evolução para a plataforma, já que a mesma foi imensamente criticada em 2017 pela condução das cenas explícitas de suicídio e falta de um aviso de gatilho em “13 Reasons Why”.

Contudo, os anúncios de que as cenas podem trazer incômodo para alguns telespectadores podem não ser suficientes. Isso porque, a depender de como a dramatização é feita, corre-se o risco de normalizar ou romantizar distúrbios alimentares, assim como ensinar o passo a passo de como se machucar. Essa, inclusive, foi mais uma crítica que a Netflix recebeu ao exibir sem edição como Hannah Baker (Katherine Langford) tirou sua própria vida em “13RW”.

Além disso, cenas gráficas podem trazer um grande estresse para quem sofre de algum distúrbio ou está em recuperação. Segundo a Associação Nacional de Transtornos Alimentares (The National Eating Disorders Association – NEDA, no original) dos Estados Unidos, que foi ouvida pelo site Refinery29, é preciso cuidado na apresentação de conteúdo explícito, pois ele pode “provocar uma corrida ao fundo do poço”. “Isso pode levar ao sentimento: ela está mais magra do que eu e ainda está viva, então eu preciso perder mais peso; ou eu não estou tão doente; não tenho problema algum”.

Para ser justo, “The Crown” não romantiza a bulimia de Diana ou a ignora por completo. Pelo contrário, é perceptível que o transtorno surge com o sentimento de abandono vivenciado pela personagem, acompanhando a Princesa de Gales até o último episódio, quando ela encontra maneiras de lidar com o que sente. Essa responsabilidade com o transtorno é positiva, pois contribui para desfazer uma percepção de que tudo pode ser resolvido como num passe de mágica (o famoso “pense positivo” ou “ocupe a cabeça”) ou de que pessoas que “têm tudo” não podem ter problemas de saúde mental.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), somente no Brasil, 4,7% da população sofre com algum transtorno alimentar; um percentual que chega a 10% entre os jovens, cada vez mais expostos e em busca de um padrão de beleza inalcançável e a dietas restritivas. A doença é mais comum entre as mulheres, que têm uma probabilidade até 9 vezes maior de desenvolver anorexia e bulimia, enquanto os homens são até 2 vezes mais propensos a desenvolver compulsão alimentar.

A luta de Diana contra a bulimia se tornou pública em 1992, quando o jornalista Andrew Morton escreveu um livro sobre a Princesa. No ano de lançamento da biografia, ela já não era mais bulímica. Em 1995, durante uma entrevista para a BBC, ela falou mais sobre o assunto, classificando a doença como “um sintoma do que estava acontecendo no meu casamento”.

De acordo com a Associação Nacional de Distúrbios Alimentares dos EUA (NEDA), a honestidade da Princesa sobre a luta contra a bulimia ajudou diversas pessoas a reconhecer e a procurar ajuda para o problema. Essa “onda” foi batizada pela organização como “Efeito Diana”.

Quase 30 anos depois da revelação, é possível que um novo “efeito Diana” aconteça e traga novas conversas sobre transtornos alimentares e doenças mentais – e para que mais e mais pessoas possam receber o tratamento que precisam. Com certeza, Diana gostaria que isso acontecesse.